quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Questões

Hoje na Antena 1, o Professor Júlio Machado Vaz falava, indignado, sobre um estudo que apontava para alterações significativas no Homem a longo prazo. Uma delas, entre outras, será a diminuição do tamanho do cérebro, porque pensamos pouco. Outra, o aumento dos olhos. Porque falamos cada vez menos, o que nos coloca em necessidade de captar a realidade de forma visual. À parte das alterações que isso nos possa trazer em termos de fisionomia, também fiquei indignada. Não me imagino de forma alguma com uma cabeça mirrada e uns olhos a sair das órbitas, é um facto, mas isso não deixa de ser pormenor, perante a dimensão da situação. Que somos adaptáveis às circunstâncias todos sabemos, já há muito que Darwin nos levou até esse maravilhoso mundo, mas daí a considerarmos a diminuição do cérebro vai qualquer coisa que pode dividir evolução de desconforto.
É um facto que considerar alterações diversificadas no nosso corpo pode sempre deixar-nos ligeiramente apreensivos, angustiados, entregues ao vazio do desconhecimento de causa, nunca nos vimos de outra forma a não ser nos livros da pré história. Não chega, não chega para nada, é passado, não é futuro. O que seria de nós sem um qualquer dedo, de braços muito mais curtos ou muito mais compridos, com um estômago maior ou com um coração que bate cada vez mais depressa só porque corremos a cada minuto do dia? Pois, não sei, não me debruço muito sobre isto, e até considero que nenhuma delas alteraria consideravelmente a minha hipótese de felicidade. Já o cérebro, pois... Todos gostamos muito de saborear com a boca, tactear com os dedos, de ouvir com os ouvidos e de sentir no peito, mas a verdade é que o cérebro nos comanda a vida, tudo isto incluído. Admitir que pode encolher remete-nos para dois pressupostos, basicamente, e encarando uma abordagem simplista da questão. Ou consegue aperfeiçoar-se, elevando ainda mais ao apogeu da existência o órgão mais perfeito que reunimos no corpo, não sendo essa a conclusão. Ou deposita em reservatórios externos informação considerável  a fim de poupar trabalho interno, que parece ser a teoria defendida. Criamos, e de acordo com o estudo, cada vez mais máquinas para nos auxiliarem em tudo e em nada, devidamente compartimentadas e capazes de nos orientar sem esforço pessoal, a não ser o da organização e vamos por isso ficando mais leves. Irão morrer-nos no seguimento os neurónios desocupados, não nos fazem falta, não serão mais precisos. Para quê armazenar milhões de ligações completamente dispensáveis se podemos criar cá do lado de fora todo o tipo de auxiliares que nos libertem de preocupações, de sítios ocupados no corpo, de ligações sinápticas complicadíssimas que uma vez mortas só ocupam espaço? Encolhemos, dizem, e eu, quiçá influenciada pelo professor, também fiquei indignada. Nem questiono os pressupostos analisados, sequer a probabilidade de efectivamente nos encaixarmos em tempos vindouros nos pressupostos em questão. Mas é que se há sítios do meu corpo que prezo ao infinito e que merecem ser encarados com respeito, o meu cérebro é um deles. O restante que acresce, e ainda que dignas pertenças minhas, não passa de circuitos, órgãos, lugares e ligações, que se unem a ele em perfeita sintonia de acção. Em complementaridade, certo, mas em subordinação. Não sei ainda, e só para rematar, se o dito saberá exactamente o que deve deixar morrer. A crer na perfeição da evolução saberá, mas vamos que se engana, e deixa ir o que não deve?

( A vir, virá longe, dirão, para quê a preocupação? Para nada, digo eu. Não gostei da ideia, foi só)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

E diz que vem lá,

a chuva...

Batata doce

Agora são as batatas doces que assam no forno e deixam a casa inundada de um cheiro bom que convida ao palato. E é só. Em tempos, lembro-me perfeitamente, eram esmagadas com um garfo que as reduzia a um puré delicioso que serviria para a confecção das broas dos santos, que estão quase quase aí. Agora compro-as porque já não tenho quem me as faça. Há coisas eternas que quase se esquecem no tempo, porque as modernidades lhe atenuam a existência. Nem serão apenas elas, será eventualmente a falta das gentes que as vivia, muito a fundo e sustentadas nos corpos, o único sítio onde tudo pode viver e acontecer. Aqui, por exemplo, já não vivem as mãos que faziam os coscurões grossos de massa lêveda, que se tendiam com rolo de madeira na mesa velha da cozinha. Já não vivem os braços que os amassavam, horas a fio, benzindos a sumo de laranja e água ardente, a massa que depois descansaria entre o sossego a reza e o calor, no quarto escuro do fundo da casa. Já  vivem mirradas as outras que esmagavam a batata doce e tenra, que se transformaria em broa macia e gostosa que amolgava em cada dentada. O forno, o próprio forno da velha do lenço, deve de ter morrido com ela, no vazio do desuso e da solidão. As tradições dos povos não morrem com o tempo, morrem com os corpos que as viviam. As que fizermos viver viverão para além de tudo, haja-nos vontade e empenho, aqueles que por vezes nos fogem e nos deixam em ares de contragosto. Momentâneo. Valorizamos outras grandezas, outras questões, é o síndrome do aperfeiçoamento que nos vive nos corpos e do qual não nos queremos libertar, assumidamente. Nem sei se tal seria possível, tendo em conta que se considera que o retrocesso é sempre o inverso da evolução.

(Mas depois por vezes há dias em que a memória nos resvala para dentro do corpo e em que uma certa nostalgia nos faz lembrar que existem cheiros e gostos insubstituíveis, como o do ovo batido, por exemplo, misturado com a massa da broa, antes e depois da entrada no forno. O meu filho, daqui a anos, lembrará apenas a batata assada no forno da cozinha, nada de lenha, que não é precisa, enquanto no fogão da altura se cheirará outra coisa qualquer. Melhor, ou no mínimo, mais evoluída.) 


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Mútuas adaptações.

Anda....
Já vou...
Anda...
Vou já
ANDA!!
Não percebes... Chamas-me sempre antes do tempo, e eu já sei que posso ir só passado um bocadinho. 

(Não sabe que eu chamo com antecedência porque ele nunca vinha à primeira. Ou se calhar sabe mas já não se lembra, porque há muito que eu como estratégia, o chamo com antecedência.)

Começo a convencer-me de que há coisas que começaram cedo. A chamada para o jantar, por exemplo, chamo com alguma antecedência desde há muito, logo, foi uma coisa que começou cedo. Culpas? Não me prendem, prendem-me antes coisas que começaram cedo, muito embora não descarte, de todo, alguma culpa no cartório. O mundo é um local no qual nos adaptamos uns aos outros. Na minha casa eu e o meu filho adaptamo-nos mutuamente, e somos uma ínfima parte de tudo. O mundo, todo ele, circula envolvido em questões de acomodação e daqui poderemos retirar mote para inúmeras discussões que não me apetece por ora iniciar. Mas podem pensar nisso, se quiserem. É útil e pode levar a consciencializações pertinentes. 

domingo, 21 de outubro de 2012

...

O pensamento, ainda que constituindo a nossa maior manifestação de identidade, pode limitar-nos a existência. Não a existência de sermos, seria uma total incongruência eu ousar dizer tal coisa, logo eu que o respeito ao limite do razoável e o considero o maior aliado da evolução, mas a existência do sentir. Os sentires serão eventualmente o local do corpo onde a nossa natureza nasce desembestada, própria, unicamente nossa e onde a ligação ao exterior experimenta o nosso eu. E vice versa. Por sua vez o pensamento, local onde internamente trabalhamos o mundo, não só interno, como também externo, assume-se sempre como um lugar viciado, cravejadinho de pestilências diversas, verdades de rua, contaminações. Daqui apetece-me concluir, de forma abusiva, eventualmente, que o desligamento efectivo do raciocínio aquando da sensação, talvez seja o caminho mais próximo para a genuinidade. E para a consequente vulnerabilidade. Felizmente que o nosso corpo consegue o apanágio de existirmos de diversas formas alternadamente, o que nos permite os mais diversos tipos de experienciação. Ao mesmo tempo que nos abre os caminhos do raciocínio, deixa-nos completamente em aberto a competência para a sensação. Nós só temos que o saber viver.

( Aqui, podem ler uma extraordinária entrevista, onde se disse, entre outras coisas dignas de serem lidas, que as crianças estão demasiado próximas da infância para se aperceberem dela. Ou algo parecido com isto, que os grandes deixam-nos sempre em legado demasiadas coisas, feitas em pequenas frases, ao mesmo tempo que nos permitem que delas retiremos o que muito bem entendermos.) 

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