domingo, 14 de maio de 2017

importâncias

Eu e o meu marido hesitamos muito em ir comer sushi. Ouvimos dizer que as larvas podem crescer dentro das pessoas, e na verdade nem um nem outro aprecia esse tipo de parasitas a comer-nos o intestino, é qualquer coisa de muito assustador, mesmo que as ditas sejam selectivas e se abasteçam apenas de uma pequena parte. Ainda assim arriscamos, o Benfica tinha sido campeão, deveríamos celebrar, e não há nada melhor do que peixe cru e vinho branco, devidamente equiparado a pizza e vinho tinto. Percebemos logo à chegada que a rotunda estava invadida por adeptos, um dia perderei uns minutos do meu precioso tempo a perceber o fascínio do meu País pelas rotundas, um circulo, muitas  vezes miserável e esquecido, à volta do qual usualmente circulam carros, e que se torna um monumento de culto quando alguma grandiosidade acontece, no campo futebolístico, e eventualmente noutros territórios de orgulho nacional ou parcial. A festa da vitória vivia-se muito a sério, com saltos, gritos, foguetes, foi difícil caminhar lá no meio mesmo pertencendo à equipa vencedora, a euforia estava ruidosa, ligeiramente histeriónica. De resto o dia para nós ainda não tinha acabado, faltava saber de mais uma grande proeza, o festival da Eurovisão, o Salvador, o Amar pelos dois. À medida que engolimos devagar os peixes molhados com soja e Wasabi, fomos dando palpites sobre a canção que se dedica a convencer o público de que alguém pode amar por duas pessoas, e fizemos até questão de nos incluirmos nesse processo. Concluímos ser um dispêndio de energia desnecessário, amar por um é complicadíssimo, pelos dois deve ser uma tarefa impossível, com exigências fortes em termos emocionais, capaz de matar de vez fora dos contos e das poesias. Mais lá para o fim da noite, já a mousse de chocolate tinha aninhado o estômago no conforto do sossego, eis que somos vencedores, e o 13 de Maio assiste a mais uma festa, desta vez muito abrangente. Considerações finais dignas de realce: as ténias não nos impedem de comer suchi; o país é maioritariamente benfiquista, e consequentemente, fortemente efusivo e excessivo; o Salvador, o Benfica e o Euro são muito importantes porque vencemos, sendo que o valor real de cada um deles é simplesmente subjectivo; ao fim do dia, já ninguém se lembrava do Papa, das normas de segurança, da fé e da humildade; somos um seres particulares, eu incluída, pois a única coisa que realmente me apetecia era brindar a todas as vitórias; a humildade, a bondade, o espírito de sacrifício e a derrota, são enormidades que realmente cansam muito, não deveremos perder muito tempo útil com elas, é muito mais satisfatório desta forma: primeiro o banho espiritual, depois os prazeres da carne, da gula, do orgulho e da vaidade. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Guronsan

Está patente na sociedade actual a franqueza aberta do sentimento. Neste paradigma quase devemos a obrigação da honestidade extrema, e sendo assim sentimos-nos no direito de dizer o que pensamos, como se fosse uma regra de conduta que subjuga os humanos que se cruzem uns com os outros, no dia a dia. Sou absolutamente conta esta realidade desde sempre, e à medida que o tempo passa chego a considerá-la como um crime que deveria ser punido por uma lei legislada e devidamente registada, na Constituição da República Portuguesa. O meu pensamento é meu e pertence-me, e não, eu não posso nem devo, dizer tudo quanto penso. Porque muitas vezes penso várias coisas sobre uma mesma pessoa, exactamente a mesmo tempo, totalmente contraditórias, entre o abonatório e o menos bom. Porque seja quem for que está do outro lado, próximo ou distante, parente ou confidente, a obrigação de ouvir os meus esgares opinativos é nenhuma. Porque por dentro tenho o direito de chamar nomes a quem eu entender, como por exemplo acontece quando espero na fila do talho que a D. Maria compre as salsichas, escolha os bifes da vazia, encomende um coelho cortadinho ao jeitinho para guisar, e um entrecosto fatiado a direito, mesmo pronto para ir para o forno. E claro, no último minuto de direito de antena costuma lembrar-se ainda do chouriço e do queijo fresco, da marmelada caseira e de uns ovinhos de codorniz, que fazem sempre falta lá em casa. Mas a D. Maria não tem rigorosamente nada a ver com isso, é só o que eu penso sobre ela, não é ela. Porque há dias em que acordo ligeiramente mais feminina do que o habitual, e um lápis colocado direito pode fazer-me tanta espécie como um lápis colocado torto, como um lápis colocado no chão, como um lápis roído na ponta por uns dentes ansiosos, tudo porque naquele dia, a confusão vem de dentro de mim e não do exterior. E como isto é a mais pura das verdades, como na essência das coisas o que nós pensamos é nosso e não pertence ao mundo, vem das nossas conclusões, das nossas considerações, dos nossos azeites e dos nossos azedumes, e como felizmente temos o direito de pensar até à exaustão do sentir, da loucura, do ridículo ou da maldade, a instituição da máxima de todos dizermos o que pensamos, está profundamente errada. Nós não devemos nem podemos dizer tudo o que pensamos, sob pena de enfartar os outros de material indigesto, sob o desígnio da frontalidade absoluta. É preciso ter cuidadinho: eu já penso tanto impropério, já mastigo tanta má língua, já engulo tanta impertinência externa, tenho lá agora ainda digerir os impropérios dos outros, mascarados de boas intenções, daquelas que moram algures lá para o inferno. Só se for a Guronsan.

domingo, 7 de maio de 2017

invisível

Fui mãe muito mais cedo do que aquilo que o meu corpo sabia e dizia. A maravilha da natureza é que há funções para as quais se automatizam os gestos, como se fossem um respirar, e no minuto em que o coloquei cá fora fui aprendendo, a seu tempo e a nosso modo. Aprender a ser mãe não é como se lê nos livros, não há livros, não há saberes, não há palavras sábias de quem já foi. Aprender a ser mãe é um processo dual sem fim, que se aprende em cada dor, em cada caminho, em cada vitória e em cada medo, enorme, de que o passo tenha sido maior do que as pernas que Deus nos deu. Não é, nunca é, Deus dá-nos as pernas que precisamos para andar sempre um passo ao lado de quem vemos crescer. Nunca demasiado perto, sempre numa distância segura onde o voo se equilibra na medida exacta do conforto de um colo, onde não se cai senão quando tem de ser, onde se avança, onde se olha para trás, onde se espera, sempre sempre a alcançar qualquer coisa de grande, em nós e nos nossos filhos. Não sei muito bem qual será o objectivo final de todos os caminhos desde que comecei a perder as minhas segundas mães, desde que elas me deixaram sem elas numa estrada que me liga à sua história com um traço continuo, mais grosso do que uma corda de marinheiro. Nesses dias percebi que as pessoas que amamos podem deixar de estar aqui, mas que na verdade a memória do que guardamos pode ser o bem mais precioso das raízes que nos seguram à terra, e que enquanto houver memória e narrativas de história, nunca ficarei sem colos onde me deitar. É também nesta ausência de corpo presente que preciso de me sentir, o amor também se faz na ausência física do quem nos quer todo o bem. Porque só sabendo que estamos quando não somos vistas, só sabendo que voltamos quando não estamos ali, só dando a segurança do adeus que sabem ser sempre só por um bocadinho, damos aos nossos filhos a possibilidade de crescerem num mundo onde podem ir até ao infinito, quer saibam para onde seguem, quer procurem para onde vão. O amor das mães tem tanto de visível quanto de invisível. Por isso é único, por isso é eterno, por isso acompanha os filhos num colo impossível de explicar, nas imensas palavras que a minha mãe me ensinou.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

papoila

Hoje encontrei a Joaninha nas redes sociais a agarrar uma papoila muito perfeita, enquanto olhava com dedicação para o seu novo amor. Este baixava a cabeça ao nível do seu olhar, e sorriam um para o outro, moderadamente, para a fotografia. Lembro-me muito bem da Joaninha há uns anos atrás. É impossível não lembrá-la, Joaninha fazia questão de se dar a conhecer, de ocupar o seu espaço de rigor, de mostrar sempre que a razão era a erudita deste mundo, e que qualquer fraqueza de menina era uma leviandade. Gostava muito de elevar a voz a uns gritos muito estridentes, de primar pela ordem, pelo exagero, o politicamente correcto, o perfeito. Com ela por perto não havia lugar para sentir o que quer que fosse além do protocolo, escolhido a dedo para a ocasião, nascido e criado para cumprir, repetir, elevar à exaustão do caderninho de duas linhas onde antigamente os pobres desajeitados escreviam cópias sem parar, em tamanho reduzido, nem que a maleita estivesse nos olhos e a cura morasse numas armações de massa grossa. Ao deparar-me com ela naquele propósito, criteriosamente desmanchada, despenteada, significativamente envaidecida e adornada a flores do campo, fiquei um tanto ou quanto desorientada. Olhei-a insistentemente à procura do rigor do camiseiro, do olhar sério e carrancudo, do ar espartano dos cabelos, e mais, da pose concisa e precisa da sua casta posição. Qual não foi o meu espanto, quando não encontrei nada disso. Qual não foi a minha surpresa, quando vejo uma Joaninha apaixonada, a mesma que há uns bons anos matava com o olhar as pobres das raparigas que se aventuravam a sorrisos e beijos discretos, como se as ditas cometessem um pecado capital, ao sentirem sem vergonha o amor adolescente. Fiquei feliz por ela, finalmente sorriu e olhou para tudo o que uma paixão pode fazer. Deve ser grande, deve ser enorme. Só assim percebo o pormenor da papoila entre os dois, de pétalas delicadas, batidas pelo vento ao entardecer, tudo isto sem morrer. O amor é o que move o mundo. O que mata o ódio maior, o que engrandece as flores menores, o que ridiculariza as almas embrutecidas que se engolem a si mesmas, num só trago. Deve ser neste exacto momento que alguns não suportam e perecem, engasgados.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

pombos

O meu marido disse-me hoje que finalmente se desfez da magia do nosso sexo. Agora era como se ali pudesse estar uma qualquer mulher em vez de eu própria, como se de repente o que significasse o amor fosse um bocado de carne com pernas e coxas, como se a minha cara e a expressão do meu rosto fossem um pormenor secundário, que se dispensa na hora de dar azo às vontades. Não fiquei mesmo nada surpreendida. Não me atingiu em lugar nenhum, foi como se aquelas palavras quisessem dizer exactamente o contrário, foi como se da boca dele saísse um inverso, que me desse o conhecimento do seu amor por mim, e do que eu lhe represento nos dias da existência. Passado umas horas fiquei a analisar o sucedido. Fiquei sorumbática, taciturna, qualquer coisa entre o angustiada e o pensativa, tudo enquanto o vizinho da frente, gordo e de bigode farto, alimentava os ratos voadores a pão duro, uma migalhinha de cada vez. Demorou uns bons minutos, e eu fiquei-lhe tão grata pela paciência. O sol mal nascia, e a passarada barulhenta voava ao redor das suas pernas, enquanto ele retirava de um saquinho de supermercado as bolas de pão retardado e as desfazia entre as duas mãos, a olhar para o ar, como se aquele pão não significasse coisa nenhuma. E não significava. Pão é pão, mas aquele era duro, bolorento, esverdeado, já não satisfazia as necessidades da casa, nem torrado com boa manteiga, nem de açorda, nem em quadradinhos para a sopa de tomate fresco. Passados uns minutos, já o sol ia mais alto, já os pombos voavam, já as pessoas esticavam as pernas na pista escura do rio, o meu marido acordou. Apareceu-me de mansinho por detrás dos meus ombros, deu-me um beijo no pescoço, ligou a máquina do café e acendeu um cigarro, ao mesmo tempo que abriu a janela de par a par, para sentir a brisa na cara e respirar ar puro. A conversa foi amena, era feriado. Não havia missa mas havia o ócio, próprio dos comunistas no dia do trabalhador. Como nada mais havia para fazer, discutimos política na mesa da cozinha. Recuperamos bons programas de sátira, enumeramos maníacos de intelectualidade comprovada, dissertamos sobre os mestres da nossa história, um conjunto de personalidades que o País possui, algumas esquecidas nos cofres da loucura, outras eternizadas  pela genialidade. Todos os grandes têm questões estranhas, concluímos por fim. Fernando Pessoa era detentor de uma eventual bipolaridade, Antero de Quental levou a sua vida ao destino do suicídio, numa depressão constante, outros, muitos outros, verdadeiramente grandes, deixaram que a própria vida passasse entregue ao mundo interior do inconsciente fragmentado. Foi muito animada a conversa, e quando nos levantamos já não havia nem homem, nem pombos, nem pão. Ele agarrou-me pelos ombros e disse-me, ao meu ouvido, - minha querida, és o amor da minha vida. Virei e cara e beijei-lhe as mãos. Senti-me tão sossegada.

Seguidores