terça-feira, 20 de junho de 2017

falhou tudo


Falhou tudo, como falha há décadas. O resto das considerações e críticas, parecem-me francamente irrelevantes.

sábado, 17 de junho de 2017

cigano

Arminda perdeu-se de amores pelo cigano. Compreendo-a perfeitamente, é muitíssimo mal amada, ninguém a vê, passa pelo mundo demasiado depressa, por entre umas palavras aceleradas e uns gestos ansiosos, que denunciam a necessidade de impacto exteriorizada muito para fora daquele corpo farto. Outro dia perdi uns bons minutos a olhar para ela, deve ter sido em tempos uma linda mulher. Possui uns olhos verdes que não desaparecerão com o tempo, uma cintura comida pelas carnes, uns caracóis mesclados de chocolates, ainda doces, e uma boca carnuda, demasiado bem delineada para o resto do rosto desorientado. As sardas dão-lhe um ar de miúda que muitas de vinte não encontram. Ela não percebeu que eu a mirava daquela forma, implicou-se na razão do seu contacto, barafustava com as mãos e a voz, abanava-se muito enquanto eu acenava com a cabeça como se escutasse tudo aquilo que ela me dizia ( posso lá eu ouvir tudo o que me querem dizer com atenção, sem eu própria enlouquecer). Hoje soube do cigano, e fiquei muito feliz por ela. O cigano é moreno e bonito, com uma barba que faz jus à tradição e não se corta nos primeiros meses de luto, pelo patriarca da família. É pouco falador, ligeiramente envergonhado, de sorriso fácil e de ar sério e confiante. Imaginou-se nos braços dele desde que o conheceu, pois só ali, disse-me por fim, sentiu que poderia desembaraçar o emaranhado do seu cabelo. Só ali poderia descansar os olhos que não mudam de cor, mas que turvam com a velhice, e só ali a sua meninice poderia despertar de novo para os dias da existência, por entre uma cintura de excessos e umas rugas de expressão. Fico mesmo muito feliz por ela, volto a dizer, encontrou o amor num dos melhores locais onde se pode encontrá-lo: o sítio onde a sociedade condena, a inveja mata, e a paixão triunfa.  

domingo, 11 de junho de 2017

medo

Descobri há pouco tempo que os nossos maiores medos podem acontecer. Não aqueles que abraçam os sonhos no meio das noites, em que caímos de nuvens macias, corremos em fuga sem nunca sair do lugar, somos engolidos por ondas gigantes ou por buracos infinitos que nos fazem acordar num salto, para logo no minuto seguinte nos encontrarmos na nossa cama a sossegar o corpo atordoado. São medos daqueles que nos perseguem a raiar a loucura, mas que bem vistas as coisas acontecem no mundo onde vivemos, para nos lembrar que nos dias da existência, pode mesmo mesmo, morar o abandono. Uma criança morreu de fome agarrada à mãe, que faleceu de doença súbita, e ninguém deu por falta dela. Ou melhor, deu, mas não se procurou o suficiente para a encontrar, e ela, agarrada a uma mãe morta, morreu também, sem nunca a largar. Fiquei aflita, engoli em seco, respirei muito fundo e trouxe à minha memória aquele que talvez tenha sido o meu maior medo, desde que fui mãe. O meu maior medo durante muito tempo foi estar sozinha com o meu filho, e ruminar insistentemente no que lhe aconteceria, se algo súbito me ocorresse a mim. Hoje os anos serenos ensinaram-me que eram delírios exagerados de uma ansiedade mórbida, quiçá originada na inexperiência e no stress materno da primeira viagem. Aquela mãe aprendeu de outra forma, bem mais violenta, outra coisa completamente diferente. Por esta hora, alguém já lhe deve ter dito que os medos maiores podem não ser delirantes, que a vida é um imprevisto duvidoso, e que não há medo de mãe que seja maior do que a realidade. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

silêncio

Escorreguei numa piscina e espalhei-me ao comprido no chão do hospital. A culpa foi da vaidade, escovava o cabelo com muito jeito, entre uma água no chão, um casaco no braço, um batom na mão, o objectivo era mesmo estar linda quando saísse para a rua. Não consigo, já não sou capaz. Já não há rimel que me erga as pestanas ao infinito, penteado que se segure firme, blush que me torne as maças do rosto salientes o suficiente, e corrector de olheiras que me aligeire os papos dos olhos, construídos uma noite de cada vez, devidamente adensados pelos dias, esculpidos pelo Inverno e corados pelo verão, que acaba sempre por me ir passando sorrateiro pelas frestas das janelas. Olhei em volta e percebi que estava sozinha. Não havia vivalma que por ali estivesse, certamente alguém tinha tomado banho no lavatório e tinha ido à sua vida, quem sabe era uma armadilha devidamente elaborada por algum ser descontente. Sendo assim levantei-me depressa, sacudi as vestes do corpo, sequei as pernas e os pés e fui andando pelos corredores, direita, como se nada me tivesse acontecido, muito embora as dores se instalassem devagarinho como uma praga, no meu pé esquerdo. Foi há quinze dias, e o dito lembra-me a toda  hora que a vaidade custa caro. De cada vez que dou um passo, tremelico. Se ouso colocar um salto, grito. Se os ato num atilho elegante e fino, abano para todos os lados, e de momento, a única coisa que me permite com a placidez do seu orgulho é um ténis jeitosinho, com umas risquinhas douradas, discreto, invisível, sossegado. A senhora amorosa da fisioterapia já me informou que vou ter uns meses penosos, mas pela parte dela, estamos quase despachadas. Fiquei muito feliz ao ouvir isso, nem imaginam quanto. Ela não sabe, mas eu tolero bem a dor residual. Consigo abandonar a vaidade, teimosa e já inglória, consigo encontrar no conforto de um calçado baixo, o suficiente para me sentir segura e satisfeita. Neste preciso momento, só não suporto mais os desabafos das senhoras que bondosamente me afagam os pés. São monótonos, monocórdicos, pouco interessantes, centram-se nas receitas da cozinha, nos arrufos com o marido, nas dificuldades de gerir os velhos da família. Há locais, como por exemplo estes, nos quais deveria ser proibido conversar, sob pena de morarmos num mundo profundamente desequilibrado: ela precisa de falar, na exacta medida em que eu preciso de silêncio. O silêncio não é de ouro, o silêncio é de vidro, parte-se a cada instante, morre em quase todos os locais que eu conheço, debaixo de umas palmas ensurdecedoras. Com todos de pé, altos e elegantes, a gozar o prato do meu pé torcido, dorido e inchado. Barulhento que só visto.  

domingo, 14 de maio de 2017

importâncias

Eu e o meu marido hesitamos muito em ir comer sushi. Ouvimos dizer que as larvas podem crescer dentro das pessoas, e na verdade nem um nem outro aprecia esse tipo de parasitas a comer-nos o intestino, é qualquer coisa de muito assustador, mesmo que as ditas sejam selectivas e se abasteçam apenas de uma pequena parte. Ainda assim arriscamos, o Benfica tinha sido campeão, deveríamos celebrar, e não há nada melhor do que peixe cru e vinho branco, devidamente equiparado a pizza e vinho tinto. Percebemos logo à chegada que a rotunda estava invadida por adeptos, um dia perderei uns minutos do meu precioso tempo a perceber o fascínio do meu País pelas rotundas, um circulo, muitas  vezes miserável e esquecido, à volta do qual usualmente circulam carros, e que se torna um monumento de culto quando alguma grandiosidade acontece, no campo futebolístico, e eventualmente noutros territórios de orgulho nacional ou parcial. A festa da vitória vivia-se muito a sério, com saltos, gritos, foguetes, foi difícil caminhar lá no meio mesmo pertencendo à equipa vencedora, a euforia estava ruidosa, ligeiramente histeriónica. De resto o dia para nós ainda não tinha acabado, faltava saber de mais uma grande proeza, o festival da Eurovisão, o Salvador, o Amar pelos dois. À medida que engolimos devagar os peixes molhados com soja e Wasabi, fomos dando palpites sobre a canção que se dedica a convencer o público de que alguém pode amar por duas pessoas, e fizemos até questão de nos incluirmos nesse processo. Concluímos ser um dispêndio de energia desnecessário, amar por um é complicadíssimo, pelos dois deve ser uma tarefa impossível, com exigências fortes em termos emocionais, capaz de matar de vez fora dos contos e das poesias. Mais lá para o fim da noite, já a mousse de chocolate tinha aninhado o estômago no conforto do sossego, eis que somos vencedores, e o 13 de Maio assiste a mais uma festa, desta vez muito abrangente. Considerações finais dignas de realce: as ténias não nos impedem de comer suchi; o país é maioritariamente benfiquista, e consequentemente, fortemente efusivo e excessivo; o Salvador, o Benfica e o Euro são muito importantes porque vencemos, sendo que o valor real de cada um deles é simplesmente subjectivo; ao fim do dia, já ninguém se lembrava do Papa, das normas de segurança, da fé e da humildade; somos um seres particulares, eu incluída, pois a única coisa que realmente me apetecia era brindar a todas as vitórias; a humildade, a bondade, o espírito de sacrifício e a derrota, são enormidades que realmente cansam muito, não deveremos perder muito tempo útil com elas, é muito mais satisfatório desta forma: primeiro o banho espiritual, depois os prazeres da carne, da gula, do orgulho e da vaidade. 

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