domingo, 30 de junho de 2019

o trajecto

Percorro o trajecto para o trabalho devagar, escondida atrás de um transporte perigoso com combustível inflamável. Subo a serra ao encontro da história de uma menina perdida, que ambiciona que a vida futura lhe traga um curso perfeito, um trabalho perfeito, um marido perfeito, uma vida perfeita. As lágrimas que deita escorrem-lhe velozes, pronúncio de que os melhores dias da vida dela estão a ser engolidos depressa, pela sua boca e por vontades alheias, esquecidas de que o caminho é sempre o nosso maior encontro com a felicidade. Quem sou eu para matar sonhos. De resto, compreendo-lhe perfeitamente a necessidade da orientação definida, encaixada no padrão escolhido pela mãe, linda, esbelta, de sorriso estudado e fato engomado. Professora, digo para mim, entregue ao preconceito, obviamente antes de saber. Enganei-me por um triz, é dona de casa, a vida foi-lhe fácil, a única dificuldade parece ser tornar a filha, digna de ser sua filha. Nunca percebi ao certo o porquê da natureza ser tão madrasta para certas pequenas. Que desde cedo, muito além do rigor das etnias culturais, são prometidas a uma vida vazia de escolhas e de sentido, de liberdade e de avanço. Das duas uma, ou o grito surge depressa, difícil e condenado, ou o ciclo vinga sobre a sua capacidade de ser pessoa. E daí em diante será mais do mesmo: mais frustração, mais submissão, mais (im)perfeição e mais beleza estereotipada. A única perda será a genuinidade e a paz de ser o que ela quiser ser, um balanço tão óbvio quanto impossível de se ver. Não sei se me explico.  

segunda-feira, 10 de junho de 2019

silêncio

Todos os dias leio o jornal. Oiço notícias, folheio crónicas, passo os olhos por receitas que alimentam a gula que acolhe os dias vazios de tudo, numa correria que só quem não corre, vê. Hoje encontro o silêncio na ordem do dia. O silêncio onde nos encontraremos outra vez enquanto pessoas, se ousarmos retirar num hotel por 48 horas seguidinhas, sem interregnos, sem telemóvel, sem televisão, sem conversa ou qualquer chamamento para o mundo exterior. O interior é o foco total, numa busca desenfreada por um caminho que nos foge das mãos, vezes demais. A moderação é feita usualmente por especialistas, que prometem o devido casamento connosco próprios, mesmo quando o par encontrado seja taciturno, mal disposto, enfastiado ou deprimido. Fico feliz com esta oferta, que rapidamente, suspeito, será parte integrante do Booking, do Airbnb ou outros semelhantes, que prometem pacotes completos ao melhor preço do mercado, com pequeno almoço incluído, e, certamente, vista para o mar. Esquecem-se, num erro maior, que o encontro connosco mesmos não se vende em pacotes enfeitados com lacinhos cor de rosa, formatados para o fim de semana, com acepipes e convívios ao fim da noite, na hora da palavra solta. O encontro que vale a pena, o silêncio que nos leva ao encontro do que procuramos, pode vir na calada de uma noite fria, encharcada de lágrimas, ou debaixo do sol de uma serra árida, quente como o lume, a cortar os pés. Pode despertar numa cama, vazia, calada e abandonada, ou numa outra cheia de voz, acompanhada, lida no corpo de quem amamos. O encontro que vale a pena não tem receitas escritas, com quantidades definidas por alguém que julga saber, o que outro alguém precisa. O silêncio que faz crescer, surge-nos dos soluços internos da mente, quando o que sorvemos tropeça no que sabemos e no que sentimos, altura em que, às vezes, desenhamos mais uns escassos metros do caminho. Mas o mundo é de quem sabe, também já sabemos. E hoje qualquer receita rumo à felicidade ganha simpatizantes a mais, nem que para isso se pague um salário redondo, é só um preço. E se tentassem perceber porquê?

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia da Mulher

Inês é minha prima desde que nasceu. Brincávamos sempre sozinhas, num vão de escada de acesso a um sótão, com bonecas nuas que vestíamos com as obras de arte que Albertina costurava, tardes a fio, na bernina que hoje habita em minha casa, restaurada, polida, como que a desafiar a morte que lhe roubou a dona. Inês era uma rapariga ingénua, tal e qual eu, tal e qual as outras primas que surgiriam na família, até ao dia em que o pai, à sua frente, mata com dois tiros a sua mãe. Maria caiu no chão imóvel, para todo o sempre, e Inês, apesar de viva, caiu com ela. 
Foi nesse dia que eu soube que há pessoas que matam outras pessoas sem ser em guerras, e que a vida de quem perde assim outro alguém, muda para sempre, porque a perda vai muito além de uma mãe. Inês perdeu a mãe, perdeu o pai, perdeu uma avó feliz e umas tias serenas. Perdeu a esperança no mundo, a tal que nenhuma pessoa deve perder, muito menos aos treze, muito menos nunca. Perdeu o local onde morava, perdeu a confiança na família, perdeu muitos colos, muitos sorrisos, muitos abraços e muitas histórias. Ganhou outras, demais para lhe caberem no peito, que rebenta ao pensar no que o pai, que a devia guardar, lhe arrancou das mãos num segundo. 
Dali em diante fiquei de olhos mais abertos. Descobri que à minha volta moravam outras vítimas, menos violentas, ou talvez igualmente, sem concretizar. Moravam vítimas em casas conhecidas, em casas distantes, em histórias que eu escutava como se nada estivesse a ouvir, num fingimento que me valeu muitas verdades assustadoras. A violência de um crime para quem a lê num jornal, é de uma atrocidade tremenda. Projectamos as nossas vidas, analisamos o perfil do agressor, especulamos o motivo, choramos a infelicidade da desgraça alheia. Longe, muito longe de quem vê ao perto os olhos de quem perdeu a vida como ela era, mas continua a viver, como alguém escolheu. Muito mais longe ainda, creio eu, de quem vive todos os dias sob o medo da morte. Talvez ainda tão longe de quem vive sem ele e o descobre, inesperadamente, num dia qualquer. Não há respostas, nunca se sabe o porquê, e por isso não me revejo no discurso da igualdade, da evolução, da mudança. Enquanto não educarmos sempre pessoas, teremos atitudes animais. Enquanto focarmos as celebrações no exterior, e esquecermos o interior, caminharemos sempre para lado nenhum. Enquanto a vida da família valha tanto como um nome ofensivo, que sai da boca com espinhos na direcção de um corpo sofrido, teremos sempre desrespeito. Enquanto o valor da Mulher, continuar a ser menor, e se vista apenas de flores e vaidade, não chegaremos ao destino. E assim, longe, muito longe de ganhar batalhas merecidas, vamos morrendo, a mãos alheias, um dia uma, outro dia outra. 

- O marido da Maria matou-a com dois tiros, era a frase da minha mãe, repetida à exaustão da loucura. A minha Maria, a minha Maria, gritava ela, com as mãos na cabeça. E eu olhava, incrédula, ainda sem saber bem o que seria aquilo. Aquilo, era a morte.

sábado, 2 de março de 2019

certezas

Somos seres de pequenos actos, embora na nossa humilde inteligência gostemos de pensar que somos donos das grandes obras. Todos os dias, nestes em especial, em que o sol nasce para nos comprar as vontades, acreditamos que conseguiremos mudar o que está mal, acrescentar ao que falta, remendar o que se possa. O mundo não passa, porém, de um embuste disfarçado de saber incauto. Mal a noite caia, mal o copo esvazie, mal o corpo se relaxe e se encontre num segundo, e não seremos mais do que a nossa fraca compleição, enriquecida e empobrecida por todas as histórias. É por isso que pouco me importa o que me dizem. Sei de fonte segura que a realidade vai muito além do que se encontra num dia claro, cheio de certezas aleatórias e lugares comuns. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

o caminho

Um reconhecimento, um pedir desculpa, claro ou envergonhado, têm um poder infinito. Não matam os males internos nem apagam memórias, mas fazem-nos acreditar de novo, e não há relações que avancem sem confiança. Sejam de amizade, sejam de amor. Enquanto se respira e se acredita, surge um alicerce de esperança no progresso. Mesmo que, como no resto do mundo, se ande para a frente com a consciência de que poderemos voltar atrás (para depois continuarmos, mais sossegados).

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