quarta-feira, 15 de novembro de 2017

lugares do mundo

Há sempre um momento em que a dúvida toma conta de um bocado exposto do nosso corpo. Aquele bocado que deambula entre um segredo e uma esconderijo, uma palavra inventada e uma traição, daquelas que se alojam no lugar onde os calos crescem à volta a doerem muito, sempre que um pé toca no chão. Nesses momentos, em que a pergunta assusta mais do que o breu de todos os breus, calamos a voz, na esperança de que as certezas que certificam a dúvida, não sejam mais do que uma imaginação fabulada de um conto ou de uma canção. Há histórias que retratam as nossas com a exactidão de um livro que só uma mulher sabe escrever. Nelas consigo sentir o cheiro do amor que se persegue com jeito de mansinho, discreto, doce e delicado, que nem todos sabem guardar. Consigo decifrar os segredos que engolem os homens que pensam que a única verdade do mundo, é a carne que os compõe. Consigo apanhar com uma mão cheia de letras as frases que contam as diabruras da incerteza, aquela maldita clandestina que bate até nas portas do céu. Nunca soube bem o que fazer com ela, admito, faz parte integrante do meu lado obscuro, cá bem dentro do meu peito. Já tentei várias coisas, posso garantir. Encará-la de frente foi uma delas, mas morri de morte matada. Escusar-me à sua entrada, fechar-lhe a porta, fingir que a não sinto, dar-lhe com um pau seco que apanho no caminho. Até abatê-la com um tiro, à traição, quero lá saber das honras quando o assunto me come as entranhas mais longínquas do meu ser. Nada feito, tende ao pior. A malvada adensa-se, aloja-se, cresce sem ser regada, rebenta sem ser querida, vinga, mesmo quando o meu desejo é que se esvaia já ali, numa poça de lama, numa toca de um bicho, numa maré de azar. O desejo, há, essa palavra fugidia que pertence ao vocabulário do prazer. Disse prazer? Mas que tremenda ousadia a minha, falar de um assunto que pertence ao território dos medos, de muitas mulheres em relação às vontades de todos os homens. Mas por quem me tomo eu? Continuando. Outro dia li um destes, muito apaixonante. Contava a história de uma mulher entre tantas mulheres, esposa de um homem como tantos homens, que a deixou em dúvida, como tantas dúvidas. No silêncio do quarto ela chorava lágrimas como tantas outras, enquanto aquecia um lugar vazio, como tantos vazios, cheio de nadas, como tantos espaços. O lugar aberto para a imaginação do pior era povoado por todo o mundo dos vivos, desde cobras a mulheres, desde despojos e toda a poluição. Preferiu, como tantas outras preferem, amansar o cheiro do lixo. Perfumou-o com violetas lilás do quintal de uma certa senhora, também ela na incerteza do cansaço. E na ânsia de cobrir o grito, chorou baixinho, como só uma mulher sabe chorar. Ninguém a escuta, ninguém a vê, ninguém a sente. Na verdade, ninguém sabe de quantas lágrimas vive cada uma delas. Em cada lugar, como tantos outros lugares do mundo.

domingo, 22 de outubro de 2017

conto

Não sei ao certo se me viveste ou se me imaginaste. Nunca descobri se faço parte da tua vida ou dos teus sonhos, que uma qualquer tempestade externa um dia pudesse acordar. Confesso que nunca me preparei muito a sério para a desconstrução do que seria o nosso amor. Muni-me, também eu, de um livro de capa dura, muitas páginas, uma espécie de mil e uma noites impossíveis de terminar, nem no mundo real, nem nos contos das fadas, nem na ideação do teu corpo. Talvez por isso me tenhas apanhado desprevenida, incauta, entregue à sorte de um despertar clandestino. A culpa foi minha, foi  inteiramente minha. Nestas histórias de encantar o permitido é lê-las com muita atenção, monitorizar os pontos, as vírgulas, os parágrafos, as páginas, não saltar letras nem fingir que não se percebe uma entoação. Não se pode descansar dele, é para ler um bocadinho de cada vez, dia após dia, nem que na folha em questão esteja escrito um qualquer conto que nos pique e que faça sangue, porque o sangue que corre é sinal de vida, enquanto o sangue que pára, será sempre sinal de morte. Nesse livro as lágrimas deveriam ser secas sem cair, morrerem no caminho entre o rosto e o papel. As folhas das flores deveriam perfumar sem partir, e a leitura deveria ser marcada com uma delicada fita de cetim, sem dobrar folhas de história que possam ficar vincadas para todo o sempre. Para os ingénuos desprevenidos, estes são uns livros perigosos, muito além do entendimento, muito mais velozes do que a velocidade do meu coração, parvo, pequeno, que bate ingénuo no meu corpo já triste. Não sei ao certo se me viveste ou se me imaginaste, repito. Nunca descobri se faço parte da tua vida ou dos teus sonhos, que uma qualquer tempestade externa um dia pudesse acordar, relembro. Talvez por isso quando adormeço e sei que dormes, enrolo-me com cuidado nos meus sonhos, não vão eles tocar os teus e haver então um encontro. Neles coloco o livro imaculado do conto das fadas, mesmo ao lado da cabeceira da minha cama, imediatamente antes do copo de água que serve para me refrescar neste verão tardio, um cansaço. O verão cansa-me o corpo, já sabem. A minha sorte é que os contos de fadas, me devolvem sempre à realidade.  

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

terra molhada

Os livros ensinaram-me a teorizar os sentimentos como quem matematiza o impossível. Explicaram-me que na mente humana existem doenças e faculdades, desejos e vontades, disseram-me que a empatia terapêutica é a melhor arma contra o terrorismo da solidão, logo a seguir ao amor de quem gosta mesmo muito de nós. Aprendi tudo sem grande dificuldade. Decorei compêndios enormes, recito-os de uma lado para o inverso, canto de cor mnemónicas que me auxiliam a memória, não vá dar-se o caso da dita me atraiçoar na hora das provas finais. Mas o pior, o grave, a mais complexa dificuldade de todas, é a inexistência de quem me tenha ensinado a fixar alguém que olha de frente para a morte, todos os dias que lhe restam de vida. Alguém que sabe com uma exactidão lúcida do que padece, que conhece, muito melhor do que eu conheço o DSM, os sintomas do fim. Alguém que conta pelos dedos de uma mão os meses nos quais vai poder continuar a respirar todos os dias, quem sabe até ao Natal, quem sabe até ao ano bom. E então o que  me acontece é que eu olho para estas pessoas muito devagarinho, como se o tempo tivesse parado num lugar onde a vida não acaba nunca, e onde os minutos podem ser vividos com a calma quente da eternidade. Olho com um sentir de esperança vã, que me guarda muito mais a mim do que a ela, porque se eu não fizer assim desfaço o corpo num mar de impotência que me colheria a voz, os gestos, os sorrisos e a direcção. Olho com uma dificuldade de quem bate muitas vezes de frente com a dor, aquela que engole pessoas num trago maior, rápida, certeira, capaz de vingar até o mais forte de todos os fortes de todos os fortes. Nestes dias, em que a minha profissão me pesa mais do que os anos, os quilos, os sonhos ou os desejos, encolho-me um bocadinho e regresso a casa mais veloz do que um pássaro que se esconde da caça. Abro a porta, espreito, e se a fechar com jeito deixo tudo no vão da escada. Tudo menos o que insiste em vir comigo. Que chega a ser muito, que chega a ser demais.

Felizmente chove. O cheiro da terra molhada sempre me deu colo, desde o dia em que eu nasci.

domingo, 9 de julho de 2017

somos sempre todos

A família fala dos seus mortos como quem fala dos seus vivos. Tal como se eles ali estivessem, sentados à mesa, a comer da mesma panela e a beber do mesmo vinho. A magia da memória reside na narrativa das histórias que contamos à mesa, e que guardamos dentro de nós enquanto crescemos e nos lembramos de quem nos contou as vidas da família, que vão morrendo à medida que a terra engole as vozes da sabedoria. Hoje era migas com bacalhau, e Albertina comeu-as de faca e garfo, regadas a um gole de tinto. Israel preferiu a carne, o peixe não puxava a carroça dos homens da família, servia apenas para dar trabalho aos pescadores e às senhoras da praça, e ainda à minha avó, que amassava bolinhos de bacalhau sempre que havia uma sobra pequena, envolvida a ovo, salsa e batata moída no passe-vite. Ela esteve descalça, como sempre. Cortou fatias de pé duro com uma faca do mato, que o pobre crescia além da conta, muito mais grosso do que qualquer cardo ousasse espetar. Ele esteve avinhado, cor de rosa, e não sei se já tinha partilhado que o meu maior sentido é o olfacto. Conheço de cor o cheiro de todas as pessoas da minha história, e o cheiro dele era inconfundível, acre, meio adocicado, um misto de gosto e não gosto que nunca mais na vida me vou esquecer. O meu tio, já velho, esteve também em novo, à mesa connosco. Vestiu-se de calções e chinelos, arrancou os dentes da frente e voltou à escola, no dia em que, chumbado de ano, fugiu de casa, não fosse chover. O aviso era: - se estiver tudo calmo acenem-me com um lenço, no depósito alto da aldeia. Se não aparecer ninguém, desapareço. Apareceu, claro, a minha mãe, que hoje vestiu um vestido branco florido, cortou o cabelo à tigela, agarrou numa fronha de lençol e foi ao depósito da água combinado, acenar para o vazio. Eu estive também pequena, lá no mesmo depósito, no tempo em que os garotos não caiam nos poços nem nas alturas, podiam brincar nos cemitérios e andar em bandos soltos pela estrada, a comer azedas e outras flores que não envenenavam barrigas. Ia sempre lá ver a alvorada, na noite de São João, altura em que Israel me dava uma bola de serradura colorida, atada a um elástico, que saltitava na minha mão até se partir pela força do cansaço. Hoje, posso jurar-vos, estivemos todos ali. Os novos, os velhos, os vivos e os mortos, os de longe e os de perto. É assim que uma verdadeira família permanece no tempo: somos sempre todos, somos sempre todas as idades. Mesmo que a realidade teime em contrariar-nos, e insista na falsa teoria de que se pode  morrer para sempre.

terça-feira, 20 de junho de 2017

falhou tudo


Falhou tudo, como falha há décadas. O resto das considerações e críticas, parecem-me francamente irrelevantes.

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