Uma Mulher não chora

O q m faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Destinos

Existem pessoas que nascem com um determinado fim. Não quero com isto dizer que a nossa existência é limitada a uma genética quanto à qual nada poderemos fazer, e que devido a isso temos uma acção limitada de evolução, circunscrita ao que o nosso corpo consegue por aptidão, e a nada mais. Ainda assim, e mesmo relegando esta teoria deveras limitativa para a nossa existência, não poderemos refutá-la por completo, que existem características que nascem connosco e que nos toldam os passos, prendem-nos, seguram-nos ali, ou pelo contrário impulsionam-nos, podendo até levar-nos longe. E isto aplica-se em diversos âmbitos, sendo que não poderemos negar, ainda que com o devido respeito e limite, que enquanto seres individuais temos algumas pré destinações dadas à nascença, por factores diversos, que poderemos ou não vir a tentar contrariar, umas vezes frutífera, outras infrutiferamente. A Meryl Steep, por exemplo, nasceu para representar, sentada ao lado de outros grandes nomes, como Jack Nicholson ou Marlon Brando. Eles poderiam obviamente ter feito outra coisa da vida, a sua genética tê-lo-ia por certo permitido, mas o mundo da sétima arte seria mais pobre. Tal como seria mais pobre o mundo do futebol sem um Diego Maradona, ou o da escrita sem um José Saramago, ou ainda o mundo da música clássica sem um Beethoven. Fico feliz de haver quem descubra a sua essência desta forma pura e nos presenteie com ela, para que possamos ter contacto com o que existe de melhor em cada arte. Estou-lhes eternamente agradecida, e a outros, claro, muitos outros.

( Freud, quase esquecia Freud. Nunca a psicologia seria a mesma sem Freud. Talvez até eu fosse outra, mais limitada, menos abrangente. Muito menos interna)

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Quase

Existem coisas que existem apenas ali. Ali não é um ali fixo, é um ali que pode ser imensos lados dependendo do que seja. São lados onde determinadas coisas acontecem como em mais local algum podem acontecer. Ou porque soam diferente, ou porque sabem diferente, ou porque cheiram outro cheiro, particular, único. Ainda que por vezes consigamos encontrar substituições quase à altura, estas não deixam porém de ter esta particularidade inerente, que trata a palavra quase. Não simpatizo muito com ela, sinto-a sempre como um aquém, seja do que for. Estava quase lá, era quase isto, sabia quase assim, estava quase quase a resultar. Embirro particularmente com esta do quase quase, em modo bisado apenas para reforçar um quase, que mais não é do que um quase igual aos outros, ou seja, uma inferioridade simples e pura, mas que gostamos de redobrar, quando sentimos que de facto estávamos mesmo muito perto do objectivo. Tudo isto para dizer que hoje comi pipocas com mel. E não foram quase, foram mesmo. No sítio, com o cheiro e o sabor de sempre, o pano de fundo e a areia. E estava feliz. O quase que eventualmente me faltava era de facto um quase pequeno. Um quase quase, por assim dizer.

( Bem vistas as coisas talvez até nem me faltasse nada. O quase também poderá ser aquilo que nos falta e que nos irá faltar toda a vida, porque nos falta sempre qualquer coisa. Somos permanentemente insatisfeitos, eu pelo menos sou. Ou seja quando o quase me abandonar, é possível que eu já não saiba viver)

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Rigores

Se existe coisa no mundo pela qual me apaixonei há muito para não mais me desiludir, foi a nossa individualidade. Edificada muito devagarinho, em dias, minutos, instantes seguidinhos que nos constroem, e nos tornam seres únicos de personalidades singulares. E gosto desta realidade não só pela sua extraordinária beleza, mas também porque me sossega, e eu, como qualquer ser humano, necessito de sossego para existir tranquila. Desde o dia em que encarei essa essência deixei de me preocupar em demasia com tempos, épocas ou alturas em que determinada coisa deveria acontecer. Posso deixar-vos a exemplo o biberão que o meu filho mamou até tarde, muito tarde até, e que parecia interferir com o bem estar de alguma envolta próxima que se apercebia do assunto. Era tarde, muito tarde até. Não era sensato.
E foi então nesse dia onde a minha preocupação acalmou, que a minha vida pareceu encaixar numa cadeira de baloiço daquelas que existiam muito antigamente, situadas no meio de um jardim cheio de flores, floridas também elas. Nessa cadeira balanço ao sabor de mim ou de quem me está perto, solta para voar alto, presa o suficiente para não cair, mas apenas e só para não cair. E balanço de noite ou de dia, depressa ou devagar, por dentro ou por fora, sem critério definido a dedo ou a livro, e sem rigor matemático. Nunca me apeteceu matematizar a minha vida. Aquilo do um mais um igual a dois, nem sempre me faz muito sentido. Ou melhor, cada vez me faz menos sentido. Tal como não me faz sentido a rigidez de andar ao um, falar aos dois, socializar aos quatro, ler e contar aos seis, namorar aos quinze, casar aos vinte, ter filhos aos trinta, ficar velho a partir dos sessenta, morrer aos noventa, entre outras. Não tentem, por favor. Com esforço que façam, ninguém no mundo me vai conseguir convencer de que a vida é mais ou menos isto.

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Fátima tem nome de santa. Nada condizente com a sua postura um tanto ou quanto exagerada, apelativa, roliça. Fala de sexo como quem fala de comida, e a verdade é que não está muito enganada, é comida, não para o corpo, mas para a alma. Alimenta-o, equilibra-o, faz-lhe falta. Tenho o sexo como uma das grandezas do mundo, especialmente quando vivenciado com amor. Não gosto por isso de o ver banalizado, discutido em conversas de café e partilhado em mesas de reuniões femininas, como quem fala de uma tarde de atum que se comeu ao jantar. Em cima da mesa da cozinha.

(Sim, sou um bocadinho enojada nestas coisas. Fico meio tremelica e sem saber o que dizer, diante destas mulheres desinibidas que partilham a vida da cama umas com as outras. Umas felizardas, com imenso para contar.)

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Indecências

De uma forma ou de outra continuamos a julgar que podemos pôr as mãos nas opções sexuais dos outros. Que resilientes, se adaptam como podem. Adaptam-se e sobrevivem, fazem o que entendem, à margem de uma sociedade que resolve condenar pormenores, e deixar o cerne à disposição da desgraça. É tipicamente nosso. Defender a moral e os bons costumes, enquanto por detrás da sama correm parasitas, bolores e outros fungos. Deveriam estes ser postos a céu aberto, para que os púdicos vissem com os seus próprios olhos as realidades que se abafam em nome da decência. Nunca percebi muito bem este conceito da decência. Dúbio, de índole vã. Para mim, por exemplo, indecente é a mesquinhez, a inveja, a ganância. O amor, seja entre quem for, nunca é indecente. É amor, logo é uma grandeza, não uma indecência.

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Já me esforcei, continuo a esforçar-me, e até hoje ainda não consegui entender qual a real necessidade do engano. Nem falo do engano ao outro, coisa mais do que possível de acontecer, quando primeiramente nos enganamos a nós próprios. Falo nesse mesmo, o que se faz ao próprio. Um conjunto de artimanhas mais ou menos rebuscadas que se utilizam amiúde e de forma doseada, pelas pessoas que se querem convencer de que tem de ser assim mesmo, quando a realidade, a dura e amarga realidade, é que é assim porque não têm coragem para que seja de outra forma. Ou porque é mais fácil, ou mais cómodo. Mas não porque tem de ser. O que tem de ser é outra coisa. A vida, a doença, as necessidades básicas, a morte. O resto, quase tudo o resto, é arbítrio ou resignação.

Vontades

A resistência é uma coisa estranha. Mune-se de um tamanho infinito quando precisa, para depois, e após descanso, quase se sumir dos corpos. Já conheci casos de gente que resiste até a um determinado objectivo, e que desfalece, em forças, vontades ou vidas, mal o consegue realizar. Faz-me pensar na nossa potência interna, e no quanto ela pesa nos nossos dias. O nosso querer, o nosso arbítrio. Não sendo detentora de poder contra determinadas grandezas que possam emergir, é porém forte e importante, nada secundária. Gostaria muito de encontrar uma forma de fazer o mundo acreditar nesta verdade. Mas parece-me difícil, pois cada vez mais me cerco de gente que julga que o mundo gira fora, ao invés de girar dentro. Umas falsas crenças, que deixam pessoas à mercê dos outros e das suas vontades e decisões, ao invés de utilizar toda a capacidade adaptativa de que são dotadas. O caso chega ao extremo quando encontro, tal como hoje, uma pessoa que espera um milagre de uma qualquer mulher que reza para que encontre um emprego, enquanto ela se encontra sentada num banco do jardim. Crer na sociedade já não é bonito. Crer em poderes extraordinários, que pelas mãos de algum habilidoso se tornarão em realidades concretas, pode chegar a ser perigoso. No fundo, e o que mais me intriga, é a capacidade de se deixarem ir, e de se anularem ao ponto de nada fazerem, enquanto outros, sejam pessoas, sejam santos, o fingem fazer.

( Agora a sério, Dona Justa rezou por mim muito tempo. Também eu, alienada, julguei poder crer nas suas preces, mas até hoje continuo ao abandono. Há quem diga que é do mau feitio. Eu estou convencida de que foi a reza que não resultou.)

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

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Fez cento e um e ninguém apareceu. Ocupações, compreendo. Eu compreendo. Ele, provavelmente, não.

( Está lúcido, cantou connosco. E soprou nas três velas. Nas três velas, meu Deus.)

Vinculação

O DN de hoje toca-me numa ferida que nunca sarei. Tenho mais destas, não muitas, mas as suficientes para que determinadas partes de mim sangrem de vez em quando. E não aprecio propriamente as vozes que proferem, desconhecedoras do que falam, só pode, que com o tempo se banalizam determinadas situações, como se possível fosse, quem lida com o sofrimento alheio, se habituar a ele como se habitua a picar um ponto, a seriar papéis ou a desenhar casas de habitação. A diferença está apenas em que o encaramos, ponto final. Somos talvez corajosos, talvez realistas, mas nunca desligados.
Pegava-lhes já tarde. Doze, treze, por aí, quando a vida já lhes tinha dado voltas suficientes para que se sentissem sacudidos por todos, excluídos de muitos locais, até do seio familiar. Por motivos diversos, que eram muitos. O estudo publicado hoje, começa mais cedo. Nos primeiros meses de vida, e nas constantes perturbações de vinculação que vão emergir. Talvez seja até um termo pouco abordado, a não ser por nós e por mais uma ou outra classe que lhe reconhece a importância. Está errado. A vinculação adequada, tal como afirmava Bolby, na sua extraordinária teoria do apego, é um dos primeiros sustentáculos de uma boa saúde mental, que se inicia no berço e que evolui ao longo do crescimento, num conjunto de vínculos que construímos com o tempo. E neste seguimento poderemos pensar, que vínculos construirão crianças, e posteriormente jovens, que se encontram num permanente processo de ganho e de perca? E que segurança sentirão eles num mundo que lhes dá e lhes tira com a velocidade da luz? Como crescerá saudável um bebé, sem uma figura disponível e permanente de referência? Como receberá ele amor, de alguém que hoje está e amanhã já não está, e a quem ele não pertence, por disponibilidade que esse alguém até possa ter?
Não questiono boas vontades, mas também não vivo de ilusões. A institucionalização deveria ser sempre um último recurso, e investida, quando realmente necessária, até ao infinito, por forma a garantir a quem vem ao mundo por azar, um crescimento minimamente favorável.

( Samuel tinha treze. Uma mãe que não via há meses e que chamada por mim, estranhamente, compareceu. Entrou e saiu sem olhar para o filho. É só um exemplo, mas tenho muitos mais. E não, nunca me consegui habituar a isto.)

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Pentaminós



Tenho ali um jogo de pentaminós que me está a deixar numa ligeira aflição. Diz algures nas instruções que existem mais de mil maneiras de os encaixar, por forma a caberem dentro de um quadrado. Com excepção das da cábula, ainda não dei com nenhuma. E não, não é de hoje. É de ontem. De anteontem, vá.

( Isto não são prognósticos, muito menos diagnósticos. São meros desabafos.)

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"Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência."

Sigmund Freud

Há quem o julgue rebuscado. Eu própria, aquando do ingresso profundo nas suas teorias da sexualidade, o considerei um tanto ou quanto exagerado. Com o tempo, encontrei sentido em quase tudo o que defende. Uma visão diferente da banal, mas que não deixa por isso de ser verdadeira. Enfaixa-nos num terreno ao qual não gostamos de pertencer, nos meandros do inconsciente, das pulsões, das compulsões. Mas pertencemos, e pertencemos muito. Ando de mãos dadas com ele outra vez. Agora que o tempo acalmou, e a mente já me pede ânimo.

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Mãos e prioridades

É dona de uma voz áspera, que arranha o próprio ar quando lhe sai da boca, vinda de umas cordas vocais histeriónicas, agudas, finas. Não é fácil arrancar-lhe de dentro de corpo sons mais amenos, mais doces, menos ofensivos. Dizem que foi do crescimento severo, da educação, mas eu não creio nestas teorias a cem por cento, creio apenas em certa parte, que de resto, e na evolução, múltiplos factores se entrelaçam intimamente, fazendo com que exista uma clara impossibilidade em isolar um deles, e em torná-lo responsável por certos reveses de feitio. Quem a cerca diz que não lhe conhece bons modos, sendo que apenas profere ditos amargos e acesos, destinados a contaminar a envolta com um veneno miudinho mas muito poderoso, que lhe escorre não só pela boca mas por todo o corpo, e de qualquer orifício que apanhe, tal o aperto. Posso jurar por exemplo que já lhe vi sair fumo de dentro das orelhas, um determinado dia em que se enfureceu mais a preceito, no qual ganhei sério medo que rebentasse, que por certo me atingiria com força bem como a toda a envolta. E o que lhe saltaria de dentro deveria ser suficiente para matar uns quinze ou vinte, de porte considerável, quanto mais a mim, uma pobre alma pequena e mirrada, com ar um tanto ou quanto cadavérico, conseguido com um punhado de anos em cima, e muito fastio desde a nascença. Dever-me-ia ter protegido, e desde pequena ter comido a bom comer, por forma a ganhar alguma resistência física aos males do mundo, pujança, arcaboiço, por assim dizer, coisa que de facto não ocorreu, motivo pelo qual treino a mente ao infinito, embora a pobre não aguente tamanhas malvadezas, é limitada neste campo.
Outro dia encontrei-a a esfregar as mãos com um creme gorduroso, fiquei intrigada. Por que raio haveria ela de amaciar o corpo, onde ninguém toca, ninguém sente, enquanto pela boca só lhe saem impropérios rijos e entufados, ditos austeros e poderosos, em total contraste com o corpo que cuida e amacia. Questionei-a, receosa, não fosse a malvada desconfiar da minha pergunta e arremessar-me com o frasco na testa, arremesso esse mais do que suficiente para me deixar em muito mau estado. Sorriu-me, quase que ensandeci. Resolveu explicar-me a preceito que uma mulher tem de ser macia, seja nova ou seja velha, isenta de impurezas no corpo, por forma a que o mesmo permaneça agradável ao toque, mesmo numa pele gasta pelo tempo.
Perante o meu ar intrigado pela incoerência encontrada, remata, aposto que as suas mãos não são tão macias como as minhas. Ela tem razão, eu também aposto que não.

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Ainda bem que existem grandezas no mundo fora do nosso alcance. Que não movemos nem mudamos, como o clima por exemplo. Na adversidade, treinam-se as estratégias de adaptação, uma mais valia preciosa da qual somos portadores. De outra forma e a podermos mudar tudo, tal e qual mudamos leis, acordos, vontades ou ambições, o mundo já teria entrado num colapso inevitável. E nós, por acréscimo, também. Restam-nos portanto as miudezas, que nos competem como que numa forma de consolo, e nas quais depositamos os nossos interesses e projecções. Egoístas, naturalmente.

Medo

Já esteve quase a entregar-se à razão. A deixar-se estar encarquilhada e rija nos seus braços fortes, que a sustêm num encosto certo, sempre igual, infalível. Aconteceu já por algumas vezes na sua existência as emoções encontrarem-se por demais dúbias, capazes de a enlevar aos píncaros do mundo num minuto, para que no minuto seguinte a larguem no chão, de corpo inteiro, inerte, quase morto. Nessas alturas em que se levanta a custo, quando nela descobre forças que nem sabia existirem, racionaliza o mundo que a rodeia, enfia-o dentro de uma fórmula matemática organizada, entre quadrados, arestas, linhas rectas, tudo na maior precisão. Sente-se segura nesse reino, onde manda e desmanda ao sabor da sua lucidez, uma rocha forte, uma robustez, consistente o suficiente para que não caia com facilidade nos terrenos que pisa todos os dias. Sacode as indecisões, as incertezas, as fragilidades, as possibilidades que não sabe se vãs se concretas, e deixa-se seguir assim, numa linha estanque, mas muito monótona. Não somos assim, acaba por concluir, quando o cansaço a assalta com força e a sua alma pede aconchego e emoção. Não conseguiremos nunca controlar o mundo ao minuto, sem falhas, sem quebras, sem entregas e sem pertenças. Quem ousou fabricar-nos, dotou-nos de um cariz relacional e social, e por muito que a individualização extrema por vezes nos pareça a solução para os problemas que nos cercam, por muito que a rigidez de atitude nos salvaguarde de quedas traiçoeiras, passado o tempo da cura, voltamos lá. É inevitável, não sabemos viver ausentes, e a fazermos tal entrega, a deixarmo-nos submersos por esta redoma que nos parece guardar, mais não fariamos do que aguçar a nossa fragilidade, atiçar as nossas lacunas, transformar a nossa existência num isolamento, crentes na certeza deste mundo tão incerto.
Puro desfasamento e descompasso. Uma falsa segurança, um medo de viver que nos impede o ajustamento e nos entrega à ilusão da convicção.

( Eu, pelo contrário e também desfasada, tenho medo de pouca coisa. O medo faz parte da vida, da morte, da existência.)

Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

...

O neurótico histérico talvez seja a estrutura de personalidade que mais me irrita. Sabem perfeitamente que o outro tem sentires diferentes, pode ser seduzido, e por isso tentam manipulá-lo, controlando a sua atenção. Por norma pavoneiam-se, mostram-se, abanam-se, tal e qual como o animal na iminência da conquista. Alguns conseguem controlar os espasmos de exagero, e travam quase a tempo. São uns queridos, poupam-me imenso. Outros entram numa espiral de auto valorização patética de tão exagerada, e não perdem uma de se vangloriarem de uma forma estudada e pensada para agradar. Com estes por vezes sou tramada. Dá-me um gozo imenso deixá-los ir, só para depois os tramar numa curva apertadinha, auto construída, e muito, muito perigosa.

(Só para os aflitos, que julguem que eu tramo quem de mim se socorre, sosseguem. Isto é na vida, não no consultório.)

Para onde vou sorrir...

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