terça-feira, 17 de janeiro de 2017

gentes

Sou cada vez mais pessoas. Não me contento apenas com uma, não que me sinta demais para um só corpo, mas porque no meu corpo cabem tantas gentes quantas os outros quiserem ver, por vezes, sim, gente demais. Posso ser uma pessoa calma aos meus olhos. Posso ser amiga de quem me ama, responsável por quem está perto de mim, confiante em quem me cerca. Posso ser preocupada, atenta, quem sabe exagerada. Mas isto é só uma de mim, eu própria, vista pelos meus olhos, hoje mesmo. Aos olhos de outra pessoa posso ser inimiga de quem me ama, irresponsável por quem está perto, simplesmente porque as minhas prioridades são outras divergentes. Posso ser por isso mesmo despreocupada, desatenta, irresponsável, pessoa de pouca importância, sem valor. E sendo assim nasço outra num mísero segundo, muito mais rápido do que um nascimento real, que demora um acto, uma fecundação, nove meses de gestação, muitos anos de idade. Posso ser neutra, a outros olhos. Posso ser mediana, sem importância, posso ser alguém que não se vê quando caminho em passos apressados, por entre o café e o trabalho, entre o sol e a sombra. Posso ser especialmente inteligente aos olhos da minha mãe, carinhosa sob o crivo delicioso do meu filho, chata nas considerações do meu pequeno afilhado, que beijo insistentemente à exaustão do permitido, muitíssimo além do divertido. O senhor da pastelaria acha-me extremamente eficiente, só de me ouvir falar e de me ver correr. O meu patrão considera, eventualmente bem, que sou um tanto ou quanto desorganizada com papéis, enquanto os meus pacientes me olham com toda a confiança, como se eu constituísse a orientação em pessoa. A senhora da loja de roupas onde me visto, considera-me um pouco rígida, arrisco sempre pouco aos olhos dela, ao passo que a velhinha que acompanho, excessiva, rigorosa, acha-me sempre ligeiramente descomposta, a necessitar de um lenço ou de um colar, de mais um filho e de um marido. O meu pai fala pouco, não faço ideia do que acha de mim. Para a minha querida avó era uma salvação, para o meu avô uma preocupação, para a minha tia um investimento garantido, para a minha irmã uma companhia e, eventualmente, alguma identificação. Não me canso deste enumerado de gente que encontro nas minhas entranhas. Não me incomoda esta abertura indefinida de portas que me ligam ao outro, livre de me julgar coisa pouca, ou pessoa muito a sério. Só me faz uma ligeira impressão que insistam para que eu seja apenas uma, a dos olhos que me olham, de esguelha, turvados por uma glória inexistente. Nem eu própria sei toda a verdade. Se é que há uma, se é que há milhares.

sábado, 14 de janeiro de 2017

mofo

Leio todos os dias um conto que persigo há meses. Leio um livro de Afonso Cruz, Jesus Cristo bebia cerveja, uma obra monumental que faz rir o mais irado. Leio ainda mais um ou dois livros que encontrei num caixote cá dentro de casa, arrumado no fundo de um armário de roupas impróprias para consumo. Uma vez por ano costumo deitar um olhar atento às caixas abandonadas. Nelas encontro sempre uma mala que merece voltar à vida, um livro que preciso de reler junto com todos os outros, um vestido que já é moderno outra vez, umas calças com quinhentos anos que estão rasgadas nos joelhos, nada de muito preocupante, a moda encarrega-se de reciclar o que outrora era divinamente obsoleto. Nesta última visita encontrei ainda um relógio azul dentro do forro de um saco velho, e um casaco de pele velhíssimo, preto e gasto, carregado de um charme que só a idade sabe ter. Deparei-me com umas moedas de escudos, umas fotografias amareladas, uns cadernos de psicanálise escritos por Freud e uma lanterna, dos meus tempos de escuteira. Fiquei por ali um bocado a cheirar as peças. O odor do pó era ligeiro, a história que carregavam, muito embora invisível aos sentidos, era bem mais interessante. Lá no fundo da caixa, escondido por todo o material digno de feira de velharia, estava uma cassete de James. Ó, meu Deus, mas que frente a frente mais impossível: a modernidade não vai tão longe, e mesmo na minha casa, um tanto ou quanto desprovida de tecnologia adequada, já não existe nenhum leitor onde a dita se oiça, muito embora disponha de muito espaço para dançar Sometimes, Born of frustration ou Sit down, e alguma vontade de o fazer. Hesitei no que seria a acção mais adequada. Ponderei se deveria ir a casa do meu avô, mestre em cassetes, fiel depositário de todos os álbuns de Amália, Tonicha, Maria da Fé, entre outros de origem poeticamente lusa. Recuei a tempo, achei por bem poupar-lhe o gira-discos a tamanha afronta, nunca na vida deve ter rodado uma cassete em língua estrangeira, poderia morrer na hora, engolir a fita, cuspir as músicas sem sonoridade adequada, quem sabe até atacar-me por tal deslealdade, a mim e ao velhote, facilitador do delito. Pensei numa atitude mais sensata e decidi ouvi-las no local de sempre. Não sei ao certo o porquê, mas o efeito não saiu o esperado. Ao ouvir Sometimes, por exemplo, não consegui sentir que os olhos de alguém me levassem à sua alma, e fiquei arrependida de não ter ousado a escuta activa, em frente ao guarda-fatos do meu avô: aquele espelho, colado à porta de madeira com parafusos cheios de ferrugem amarelada, serviu em tempos para que eu dançasse a acreditar no impossível. Valeu-me por fim um livro dos que trouxe comigo. Há palavras escritas pelo tempo, colocadas em papel por algum dedo erudito, que valem por mil coisas. Quer tenham sido lidas há anos, quer tenham sido decoradas ontem, quer sejam relidas hoje, quer sejam descobertas daqui a séculos, por outra vida qualquer, que goste do cheiro do mofo. 

(Não vos ponho em escuta os James. A valer seria ali, entre quatro paredes, há muitos anos, onde tudo era do tamanho dos meus olhos. O resto, esqueçam. É tudo mentira.) 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

abelha

Por vezes descobrimos que não conhecemos os outros. Não os outros que passam depressa, na sua vida, mas os que dão passos bem perto, num ziguezague impossível de acompanhar, dentro da nossa. Lembro-me muito bem de ser pequena e apreciar pensar que acompanhava os cubos pretos da calçada branca. De saltitar de quadrado em quadrado, de tentar correr nas as ondas do desenho, de dar passadas gigantescas que me permitissem não dar parte fraca e não cair no chão da diferença. Conseguia quase sempre, e como prémio no final do corredor trabalhado, estava um senhor que vendia pipocas. Nessa altura esquecia tudo e dirigia o meu corpo para o doce que cheirava a mel. Mel faz-me lembrar muito os favos que Manuel trazia desde sempre das colmeias das abelhas. Nunca fui com ele, tinha medo das picadas, como se a dor de um ferrão fosse alguma coisa perante a vida. Nunca me tocaram em altura alguma, talvez porque os animais são nossos amigos e me quiseram resguardar as forças para os dias seguintes. Uma vez pousou uma no meu ouvido, falando em abelhas. Zumbiu zangada durante muito tempo, eu tinha-lhe invadido o roseiral, fez com que eu estivesse quieta uns bons minutos até se decidir abandonar o meu corpo. Fiquei assustada, mas ainda assim, e vencido o medo, fui atrás dela. Espreitei-a de perto. Percorri-lhe os voos, cheirei-lhe as flores, saltei de canteiro em canteiro, e quando dei por isso estava num quintal alheio de uma casa estranha, onde morava uma bruxa má, diziam as vozes do povo. Era uma velha cega que naquele dia comia maças, num cenário fantasma e mais velho do que ela. Cheguei-lhe bem perto e toquei-lhe o nariz. Sacudiu-me, deve ter-me julgado um insecto, uma mosca, uma melga, uma borboleta, um zangão, qualquer coisa que ainda não descobri ser certo ou errado. Soprei de longe os seus cabelos, e ela fez um gesto brusco, como se esperasse matar alguma coisa que lhe tivesse poisado a velhice. Nesse exacto momento, recuei. Senti-lhe a fragilidade, comecei a cheirar-lhe o medo, li-lhe nas entranhas das rugas a preocupação, a tristeza, o desalento. Pé ante pé fui à minha vida. 

Não é certo importunar a fragilidade, devemos respeitá-la. A abelha tinha tido esse cuidado, mesmo sem me conhecer. 

domingo, 8 de janeiro de 2017

indomável

Não me lembro de há quantos anos subo aquela escada íngreme que me leva às ondas. Em pequena contava os degraus de pedra molhada, tentava não escorregar pelas rochas, fixava os olhos no horizonte e pensava, com a liberdade da criancice, que para além do que eu via havia um mundo encantado. Hoje faço tudo ao contrário. Fixo o horizonte em primeira instância. Sei que os contos são dos livros e que por muito cuidado que eu tenha posso escorregar, pelo que evito embrulhar-me no xaile para o frio e concentro-me no corrimão, que não me deixa os olhos libertos para me proteger da maresia que chega sempre sem se avisar. Fez-me lembrar quando uns óculos do meu primo nadaram pelo mar adentro, desprevenidos, engolidos de um trago sem arroto, sem volta, sem redenção. O choro da avó foi tal, que o alívio da mãe ao saber que o filho estava vivo e intacto, tapou a despesa das lentes graduadas, caríssimas, trazidas há dias com fama de inquebráveis, como se a vida se medisse apenas pelo impacto no chão. A sorte sentiu-se na hora, e o almoço foi agradável, o menino estava ali. Aleluia. Voltando à rocha. Lá em cima há um santo que a guarda, nunca percebi bem que santos guardam o quê, ou a qual deles devo pedir alguma bênção. Conheço alguns, houve tempos em que rezei a outros tantos, já os venerei nos locais divinos, arrumados em altares floridos espalhados pelo mundo, nos pontos cardeais da religião católica. Falo-lhes sempre como se me ouvissem, e por vezes esqueço-me que não creio em Deus nenhum, quanto mais num santo. Fico confusa nestas alturas. Por muito que encontre um santo em cada local, por muito que os procure, a fé sempre me nasceu mortiça, fraca, prematura, já na beira de uma qualquer morte. Mas respeito-os a todos com muita devoção, e o de hoje deu-me uma fala muito especial. Estava poisado num local da minha história, acompanhou mortes e vidas, nascimentos e casamentos, baptizados e funerais. Ouviu sempre com muita atenção o que lhe disse sem me duvidar, não é coisa para vivos, e isto deu-lhe um enorme voto de fé. Ficou parado e não me segurou ao colo, não se mexeu do lugar, ficou fixo no altar erguido em tempos muito idos, guardado a flores brancas e madeira velha, puro, imaculado. Senti-o tão meu, que custou-me virar-lhe as costas, demorei uns minutos. Foi lento e bonito.

O silêncio fala comigo desde sempre, e ergo-o cada vez mais ao lugar divino da minha fé. Simbolicamente refectido numa imagem de um santo, ganha um significado na minha organização mental. As respostas ganham corpo, numa bruma, cravejado de espadas e com uma capa vermelho sangue. Um corpo barulhento, batido pelo vento, bravo, forte, indomável. E eu ali.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

saúde e lágrimas

Escuto sempre com muita atenção o que me dizem os olhos dos meus antepassados. Concentro-me em meia dúzia de almas espelhadas pelo tempo, impressas em papel velho e a preto e branco, debruado a um bordado muito irregular (como a vida). Há sempre alguns que me olham directamente como a Mona Lisa nos olha nas paredes do Louvre, apontados à nossa menina do olho, que não é mais nem menos do que tudo o que trazemos dentro e carregamos no corpo que nos acolhe a seiva. Gosto muito dos olhos de Israel, são sempre ligeiramente abertos, verdes cor de azeitona, enquadrados num perfil que se dizia ruim, mas do qual eu não conheço a ruindade. Aprecio os olhos de Albertina, a senhora dona de si, que tarde percebeu que não era dona de coisa alguma, nem do seu nariz, nem da sua vida, nem muito menos da sua morte ( ninguém é dono senão do nada). Dizia-se dela a luta, conheci-lhe bem melhor o abandono. Carmina, a mais bela de todos, a mais branca, a mais delicada, tinha uns olhos pequenos e amendoados, e essa olha-me todos os dias, sem falhar um, no papelinho em homenagem à vida que guardo desde o dia da sua morte. As festas trazem-mos sempre, muito embora já não haja Natal há mesa com todos,  nem lugar ou espaço para se falar deles, as defesas da maioria não permite que nos encontremos frente a frente. Todos apreciam mais a fuga no Bolo Rei, no frito mal amassado ( ninguém amassa como Albertina), no cabrito mal assado ( ninguém assa como Carmina), no vinho mal escolhido ( ninguém escolhe vinho como Israel). Não raras vezes encontro ainda os olhos de Rosalina, mais pretos do que o breu. Neles aprendi a cozinhar em lenha, a cozer bucho de cabra, a entrançar cabelos, a matar coelhos com um murro no lombo e a roubar ovos às galinhas, para o pão de ló. Nas festas sinto que me pertencem só a mim, num egoísmo que se fez ao hábito de guardar cá dentro o que poucos querem ouvir. Hoje, e para encabeçar a época, deparei-me com todos eles em casa próxima, sem esperar, uma espécie de encontro combinado pelo divino, sem comida, sem mesa, mas com olhos a olhar para mim. Estavam a sorrir-me, emoldurados em álbuns muito velhinhos, descolorados, e mais uma vez pude chorá-los sem que ninguém me visse chorar. Não tenho vergonha das lágrimas que verto, são um sal que me pertence e que solto sempre que me apetecer, regulam-me a alma, lavam-me o rosto, devolvem-me o chão. Mas não gosto de embaraçar o mundo, que teima em viver longe de tudo quanto dói. Como se a morte fosse um espinho que mata. 

Neste novo ano desejo-vos a serenidade de viverem com tudo o que a vida vos tem trazido. E que chorem e riam à medida do que vos for preciso. Contrariamente ao que possam julgar, podemos ser mais felizes se chorarmos mais ( Frase de autoria identificada, de uma amiga muito querida).

E saúde a todos, também.

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