domingo, 22 de abril de 2018

gerra conjugal (Dalton Trevisan sabe mais disto do que eu)

O meu marido é muito melhor do que eu a ultrapassar uma crise conjugal. Chega sempre muito feliz a casa, mesmo quando na manhã anterior me chamou de rameira, de sem vergonha, de gorda, barriguda e feia. Tem razão, tem toda a razão, eu compreendo-o perfeitamente. Um homem digno desse nome não tem de aturar os caprichos de uma mulher, são sempre um aborrecimento. Ainda para mais os caprichos de uma pseudo-senhora, com tamanha crosta associada. Interna e externa. Um homem digno desse nome quer uma mulher alta e esbelta, loira, vistosa, de preferência de poucas conversas perturbadoras. Deve dizer que sim a quase tudo, ou, se contestar, deve fazê-lo na medida certa, para que no final de contas o ajuste seja conduzido na medida exacta da elegância. Deve juntar no mesmo corpo dependência suficiente e independência quanto baste, deve amá-lo muito e ter um sorriso sempre aberto, mesmo quando no calor da briga saia um incontrolável és uma vaca, já se sabe que o impulso é inimigo das palavras doces. Continuo a compreendê-lo perfeitamente, se há coisa que irrita um homem são conversas sobre a razão, o que, convenhamos, agravadas pela escolha da hora errada, dão direito legítimo a um vernáculo desenvergonhado, solto depressa e bem. Hoje pela tardinha, logo após uma crise moderada, ainda o sol aquecia o vidro do carro e o meu corpo flácido e cansado, informou-me que vai recorrer aos serviços de uma prostituta. Não está satisfeito com os meus préstimos, devo-lhe mais assistência, e não importa se a mesma se presta entre um beijo e uma carícia, ou entre uma ofensa e uma ausência. Há mulheres que parecem esquecer disto, mas é um erro de uma ferocidade violenta. Nunca deveremos esquecer que os nossos maridos necessitam de sexo como do pão para a boca, e que se assim não entendermos, correremos o risco de procurarem profissionais do assunto, só por questões higiénicas, sem que nada se coloque em questão no romance do casamento. É um facto, comprovadíssimo pela história, das nossas mães, das nossas avós, de muitas mulheres e de muitos homens. Ainda assim olhei-o nos olhos, pois fiquei ligeiramente perturbada, confesso. Tentei que me explicasse melhor a razão, mas logo me calei perante os seus mais sérios argumentos; a assistência é diminuta, quando há, não é satisfatória, e claro que não é compreensível qualquer tipo de afastamento da minha parte, apenas e só porque na noite anterior saiu de casa de rompante, mandando-me encostar no vizinho da loja do lado, enquanto tenho rabo para isso. Era só uma pequena guerra conjugal, vale o que vale, só eu pareço não compreender, afirma. E portanto hoje, quando regressou pela manhã, eu deveria ter sucumbido às suas vontades, pois só assim seria uma esposa digna desse nome, e totalmente merecedora de fidelidade conjugal. 

Olhei pelo vidro e estava um dia lindo lá fora. As famílias passeavam os cães, os gatos espreguiçavam-se nas ervas, e os pombos defecavam felizes no vidro do nosso carro. Eu, devagarinho, ajeitei o meu corpo velho no banco, mas quando abro o espelho reparo que o batom vermelho que eu tinha colocado com jeito e paciência, tinha sido comido pela nossa conversa sobre putas e cama. Que valente maçada. Ele mantinha-se irredutível, quieto, tão convicto na sua escolha acertada. O meu marido tem razão, e eu continuo a compreende-lo perfeitamente, ainda para mais, porque com muito jeitinho, avisou-me do que pretende fazer. Sou uma verdadeira privilegiada, nunca serei uma mulher enganada. É claro que retoquei o batom vermelho, tão nosso amigo quando a idade já não nos eleva. É ele e os livrinhos de auto-ajuda, que ensinam como ninguém truques para sermos felizes.

domingo, 26 de novembro de 2017

castigo

Há dias em que esquecemos para nós o que damos ao mundo. Como se eu fosse uma mãe que ensina a andar sem me mexer e sem depositar confiança, como se eu fosse uma cozinheira que não sabe ao certo o que deveria colocar no tacho de barro, onde o coelho guisa devagarinho, na receita única e intransmissível do café da avó. Intriga-me e assusta-me, e é num ápice que toco o tormento do que me atormenta, o medo, o escuro, o corredor comprido que dividia o meu quarto do resto do mundo, na minha infância. Houve tempos em que me entreguei a ele. Percorria pé ante pé o que me separava dos meus pais, e sem que ninguém escutasse escutava eu, o som da televisão da sala, mortinha de frio, até que os dois resolviam recolher para mais perto. Nessa altura fugia de mansinho e enfiava o corpo de criança nos cobertores, certa de que os monstros teriam muito respeito à proximidade dos adultos lá da casa, os guardadores de todos os perigos, até dos imaginados. Soube fazê-lo, nunca ninguém deu por mim. Nem pelos meus medos. Houve outros tempos em que fingi que não o sentia cá dentro do meu corpo. Era hábil em escutá-lo só ao longe, numa distância de segurança que me protegia da realidade do aperto que aperta quando menos queremos, quando menos esperamos, invariavelmente, quando menos precisamos, porque tal como outras grandezas supremas de carácter inatingível, surge sempre na altura errada. Sempre sempre. Na sala de análise mais profunda,o diagnóstico foi de evitamento. Nada que me espante, nada que me atormente, nada que me tire o sono, ou não fora eu uma mestre em fingir que sou muito maior do que o que me alaga, muito mais forte do que um leão. E eis que de repente, num eco insistente e persistente, escuto por dentro do meu ouvido, e descubro que o que encaro no meu dia me ataca muito além do que eu consigo arrumar na minha noite. Me aniquila os pequenos passinhos que dou no caminho da escada, comprida, curta, estreita ou larga. E é nestas alturas, inconstantes no tempo e repetidas pela vida, que o encontro de frente no mais simples quotidiano dos dias. Nos olhos de uma amiga antiga. No cheiro de um livro descrito a preceito por quem o viveu. No corpo do velho que já se esqueceu de quem é. Um dia destes passa, claro, não sou dada a choradeiras demasiadas, aprecio mais uma serenidade. Estou errada, estou totalmente equivocada, vou no caminho totalmente inverso ao que sei ser a tábua do equilíbrio. Não serei burra, acho, demorarei a aprender, serei certamente a experiência pura da inércia de acção. E até lá, castigo, terei medo dos monstros e das bruxas medonhas que me levam durante o sono. É merecido, sim senhor.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

lugares do mundo

Há sempre um momento em que a dúvida toma conta de um bocado exposto do nosso corpo. Aquele bocado que deambula entre um segredo e uma esconderijo, uma palavra inventada e uma traição, daquelas que se alojam no lugar onde os calos crescem à volta a doerem muito, sempre que um pé toca no chão. Nesses momentos, em que a pergunta assusta mais do que o breu de todos os breus, calamos a voz, na esperança de que as certezas que certificam a dúvida, não sejam mais do que uma imaginação fabulada de um conto ou de uma canção. Há histórias que retratam as nossas com a exactidão de um livro que só uma mulher sabe escrever. Nelas consigo sentir o cheiro do amor que se persegue com jeito de mansinho, discreto, doce e delicado, que nem todos sabem guardar. Consigo decifrar os segredos que engolem os homens que pensam que a única verdade do mundo, é a carne que os compõe. Consigo apanhar com uma mão cheia de letras as frases que contam as diabruras da incerteza, aquela maldita clandestina que bate até nas portas do céu. Nunca soube bem o que fazer com ela, admito, faz parte integrante do meu lado obscuro, cá bem dentro do meu peito. Já tentei várias coisas, posso garantir. Encará-la de frente foi uma delas, mas morri de morte matada. Escusar-me à sua entrada, fechar-lhe a porta, fingir que a não sinto, dar-lhe com um pau seco que apanho no caminho. Até abatê-la com um tiro, à traição, quero lá saber das honras quando o assunto me come as entranhas mais longínquas do meu ser. Nada feito, tende ao pior. A malvada adensa-se, aloja-se, cresce sem ser regada, rebenta sem ser querida, vinga, mesmo quando o meu desejo é que se esvaia já ali, numa poça de lama, numa toca de um bicho, numa maré de azar. O desejo, há, essa palavra fugidia que pertence ao vocabulário do prazer. Disse prazer? Mas que tremenda ousadia a minha, falar de um assunto que pertence ao território dos medos, de muitas mulheres em relação às vontades de todos os homens. Mas por quem me tomo eu? Continuando. Outro dia li um destes, muito apaixonante. Contava a história de uma mulher entre tantas mulheres, esposa de um homem como tantos homens, que a deixou em dúvida, como tantas dúvidas. No silêncio do quarto ela chorava lágrimas como tantas outras, enquanto aquecia um lugar vazio, como tantos vazios, cheio de nadas, como tantos espaços. O lugar aberto para a imaginação do pior era povoado por todo o mundo dos vivos, desde cobras a mulheres, desde despojos e toda a poluição. Preferiu, como tantas outras preferem, amansar o cheiro do lixo. Perfumou-o com violetas lilás do quintal de uma certa senhora, também ela na incerteza do cansaço. E na ânsia de cobrir o grito, chorou baixinho, como só uma mulher sabe chorar. Ninguém a escuta, ninguém a vê, ninguém a sente. Na verdade, ninguém sabe de quantas lágrimas vive cada uma delas. Em cada lugar, como tantos outros lugares do mundo.

domingo, 22 de outubro de 2017

conto

Não sei ao certo se me viveste ou se me imaginaste. Nunca descobri se faço parte da tua vida ou dos teus sonhos, que uma qualquer tempestade externa um dia pudesse acordar. Confesso que nunca me preparei muito a sério para a desconstrução do que seria o nosso amor. Muni-me, também eu, de um livro de capa dura, muitas páginas, uma espécie de mil e uma noites impossíveis de terminar, nem no mundo real, nem nos contos das fadas, nem na ideação do teu corpo. Talvez por isso me tenhas apanhado desprevenida, incauta, entregue à sorte de um despertar clandestino. A culpa foi minha, foi  inteiramente minha. Nestas histórias de encantar o permitido é lê-las com muita atenção, monitorizar os pontos, as vírgulas, os parágrafos, as páginas, não saltar letras nem fingir que não se percebe uma entoação. Não se pode descansar dele, é para ler um bocadinho de cada vez, dia após dia, nem que na folha em questão esteja escrito um qualquer conto que nos pique e que faça sangue, porque o sangue que corre é sinal de vida, enquanto o sangue que pára, será sempre sinal de morte. Nesse livro as lágrimas deveriam ser secas sem cair, morrerem no caminho entre o rosto e o papel. As folhas das flores deveriam perfumar sem partir, e a leitura deveria ser marcada com uma delicada fita de cetim, sem dobrar folhas de história que possam ficar vincadas para todo o sempre. Para os ingénuos desprevenidos, estes são uns livros perigosos, muito além do entendimento, muito mais velozes do que a velocidade do meu coração, parvo, pequeno, que bate ingénuo no meu corpo já triste. Não sei ao certo se me viveste ou se me imaginaste, repito. Nunca descobri se faço parte da tua vida ou dos teus sonhos, que uma qualquer tempestade externa um dia pudesse acordar, relembro. Talvez por isso quando adormeço e sei que dormes, enrolo-me com cuidado nos meus sonhos, não vão eles tocar os teus e haver então um encontro. Neles coloco o livro imaculado do conto das fadas, mesmo ao lado da cabeceira da minha cama, imediatamente antes do copo de água que serve para me refrescar neste verão tardio, um cansaço. O verão cansa-me o corpo, já sabem. A minha sorte é que os contos de fadas, me devolvem sempre à realidade.  

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

terra molhada

Os livros ensinaram-me a teorizar os sentimentos como quem matematiza o impossível. Explicaram-me que na mente humana existem doenças e faculdades, desejos e vontades, disseram-me que a empatia terapêutica é a melhor arma contra o terrorismo da solidão, logo a seguir ao amor de quem gosta mesmo muito de nós. Aprendi tudo sem grande dificuldade. Decorei compêndios enormes, recito-os de uma lado para o inverso, canto de cor mnemónicas que me auxiliam a memória, não vá dar-se o caso da dita me atraiçoar na hora das provas finais. Mas o pior, o grave, a mais complexa dificuldade de todas, é a inexistência de quem me tenha ensinado a fixar alguém que olha de frente para a morte, todos os dias que lhe restam de vida. Alguém que sabe com uma exactidão lúcida do que padece, que conhece, muito melhor do que eu conheço o DSM, os sintomas do fim. Alguém que conta pelos dedos de uma mão os meses nos quais vai poder continuar a respirar todos os dias, quem sabe até ao Natal, quem sabe até ao ano bom. E então o que  me acontece é que eu olho para estas pessoas muito devagarinho, como se o tempo tivesse parado num lugar onde a vida não acaba nunca, e onde os minutos podem ser vividos com a calma quente da eternidade. Olho com um sentir de esperança vã, que me guarda muito mais a mim do que a ela, porque se eu não fizer assim desfaço o corpo num mar de impotência que me colheria a voz, os gestos, os sorrisos e a direcção. Olho com uma dificuldade de quem bate muitas vezes de frente com a dor, aquela que engole pessoas num trago maior, rápida, certeira, capaz de vingar até o mais forte de todos os fortes de todos os fortes. Nestes dias, em que a minha profissão me pesa mais do que os anos, os quilos, os sonhos ou os desejos, encolho-me um bocadinho e regresso a casa mais veloz do que um pássaro que se esconde da caça. Abro a porta, espreito, e se a fechar com jeito deixo tudo no vão da escada. Tudo menos o que insiste em vir comigo. Que chega a ser muito, que chega a ser demais.

Felizmente chove. O cheiro da terra molhada sempre me deu colo, desde o dia em que eu nasci.

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