terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

inquietos

Há na sociedade uma incrível tendência à perfeição. Oiço-a quase sempre em silêncio, como se ali ao lado cantasse um fado, palavras que inseridas umas nas outras produzem uma sonoridade cadente, de um lado o que é certo do outro o que é errado, uma pauta musical que se justifica pela vontade indómita da informação e do conhecimento. Nessa orquestra, e muito embora imensas verdades possam convergir, há uma convicção alicerçada no ego de cada qual, sempre devidamente fundamentada e condimentada com o que cada pessoa tem de melhor, ou do que ouviu na noite anterior de um autoproclamado erudito na matéria. No final da história a moral é sempre a mesma, e estamos longe das fábulas de Fontaine. Nestas existia uma moral a aprender, mas na história da sabedoria individual, carregada de eus indiscretos e perdidos no nada, há alvos a abater. Não há nada pior na sociedade actual do que pessoas que consigam manter-se à parte desta insana sabedoria popular e colectiva, que engloba muitos dos assuntos fracturantes da actualidade. Quem o faz, quem à margem do joio se ergue e rebenta na sábia ignorância de quem não conhece, procura respostas sem obstinações rápidas próprias da multidão, e é olhado com desdém por quem já sabe tudo o que deve saber. E o que me assusta às vezes, nem é só isto. É olhar para um sistema de educação que permite a alguns intervenientes perpetuar a continuidade deste conhecimento absoluto e irrefutável, ceifando a direito quem ousa questionar e procurar outras respostas. Como se estes inquietos não fossem o futuro, e como se quem nada questiona, não fosse a estagnação.

A boa notícia é que os espíritos inquietos nunca morrem.

domingo, 26 de janeiro de 2020

vinho tinto

A cidade estava mais fria do que o habitual. Na rotunda respirava um vento que atravessava a pele até aos ossos, os olhos das pessoas lacrimejavam num choro do corpo, consciente como só ele da agrura da nortada. Eu olhava entretida para as pedras da calçada, enquanto os meus pés, rápidos e certeiros, procuram um caminho que se queria curto, mas que parecia longo demais para se lá chegar. Parei numa escada dos CTT onde o abrigo aos pingos da chuva se fazia sentir num alvoroço de pessoas, que ao Sábado de manhã governam a vida que se viverá durante a semana. A praça, o pão, os essenciais que deverão adocicar os dias com conforto, e que só quem tem se esquece ser um dos mais importantes. Abriguei-me ali uns segundos e vi um homem sentado no chão, com barba grande, casaco comprido, chapéu alto e um olhar morto. Ao lado dele um pacote de vinho tinto de marca branca, como que a querer dizer-nos que a vida está cheia de incongruências, mesmo quando grita muito alto. O queixo do homem tremia de frio, as mãos estavam sujas e gretadas, a pele emanava um cheiro forte e incómodo, era grande, mas quase ninguém o via. A senhora perfeita e elegante, que segurava com a sua mão delicada o sobretudo beije perto do pescoço, não o viu. A velhinha que empurrava o carrinho do supermercado, apressada e encurvada, não o viu. O jovem que olhava para dentro do telefone, como se naquele dispositivo morasse um mundo, não o viu. O senhor que parou a levantar dinheiro, de gabardina cinzenta de bom corte, e postura cordial, não o viu. Ninguém o via, ou ninguém parecia ver, até que passa um homem de fato completo e passo muito acelerado. Levava por certo um destino marcado, enquanto na mão segurava com força o saco de papel com um jornal da nossa sociedade, num ondular muito certo, de acordo com o abanar da mão. Chegou-se um pouco ao abrigo da intempérie, e tropeçou no senhor de olhos mortos sentado no chão. Estou quase certa de que o viu, posso assegurar-vos, dado que vociferou um impropério pouco digno para um porte altivo, sacudiu os pés e seguiu o seu nobre caminho. O homem, movendo um só braço, deu um gole no vinho e continuou a olhar em frente. 

sábado, 18 de janeiro de 2020

quedas

Não há maior rasteira do que a que a vida nos passa, discreta, sem que estejamos preparados para ela. Não avisa, não dá sinais, não nos dá tempo para devagar arranjarmos a pose, cuidarmos o passo, elevarmos o queixo, arrumarmos o casaco. De um segundo para o outro atraiçoa-nos a esperança do que já se foi há muito tempo, do que já morreu afogado num mar de tubarões, do que se enterrou há muitos anos junto com lágrimas e memórias. Ia eu a andar naturalmente, num dia sem registo, num quotidiano sem relevo, num lugar sem história. Ainda me voltei para trás várias vezes. Ainda apurei o nariz traiçoeiro, ainda procurei com os olhos cansados, ainda insisti no instinto vadio não fosse a vida desafiar-me e o malandreco estar certo. Não estava, não poderia estar, é a lei da natureza. Nesse instante compreendi o que tantas pessoas me relatam de olhos rasos e de rosto fechado. Sem por lá passar ninguém sabe o que é a ilusão do regresso do que já perdemos para sempre. É como se de repente o tampo recuasse, a história ganhasse forma, o corpo se agarrasse de novo ao conhecido. E a mente, parva como só ela, acredita cegamente no que naquele instante acontece, só até cair desamparada no aqui e no agora. 
Nunca me conformarei com a nossa fraca condição de sobreviventes. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

dúvidas

O assunto era "o amor". Ninguém sabe ao certo o que dizer sobre o indizível, o que reside nos confins do inexplicável, sem possibilidades métricas, óbvias e irrefutáveis. Muito se opinou, muito se concluiu, tudo ficou afinal de contas por dizer. Fixei-me num dos pontos de análise, não há outra forma a não ser dissecá-lo se pretendemos pensá-lo, será mais ou menos como dividir um campo de visão sob pena de perdemos a melhor parte. 

O amor fácil por exemplo, é tão simples o amor fácil. O amor sobre o qual se fala sem interjeições, limpo, claro, um amor partilhado a rodos pela humanidade. Este amor assenta num pressuposto individual, onde o que importa é o que se transmite e o que parece ser, a culpa que morre um bocadinho sempre que do outro lado da linha vem uma palavra de sossego, que aconchega o nosso ego e nos dá a sensação de dever cumprido (até breve, esperamos que assim continue). Sobre essa forma de amor há pouco a dizer, mas julgo que a deveríamos ter mais em conta, pela quantidade dispersa pelo mundo. É um amor aparentemente sadio, que parece resistir às intempéries das almas, que segue em fila pelos caminhos da vida, desviando-se das pedras, dos buracos, das dúvidas e das barreiras. Não há usualmente grandes sobressaltos, pelo menos no mentor desse amor. Já quem o recebe, pode por vezes sentir-se sacudido por um qualquer desconforto mais ou menos transitório, que parece fazer comichão quando na realidade se necessita de um colo. Mas a bem da verdade o costume engole o excepcional, e bem vistas as coisas aquela pessoa está sempre perto numa espécie de distância de segurança marcada pelo quotidiano, é melhor manter e aconchegar, não vá o diabo tecê-las. 

Depois, ensaiamos um outro género de amor, o mais difícil, aquele que se inunda seriamente dos afectos, e onde o outro assume um papel muito mais importante do que nós próprios. É aquele onde o bem estar de quem amamos importa muito acima da nossa obrigação, mas que curiosamente parece aos olhos do mundo muito menos visível. É um amor complexo em toda a sua dimensão, porque constrói uma dualidade existencial superior, e pode doer,  magoar, pode transcender o que qualquer dicionário consegue exprimir em palavras. Para este, nem todas as pessoas estarão eventualmente preparadas, é talvez um caminho pessoal, que converge numa ligação dual e profunda. A maternidade e a paternidade são bons e óbvios exemplos, mas diria que nem sempre, e diria ainda que poderão não ser necessários. Quem se encontra realmente consigo muito mais depressa encontrará este estado supremo da existência. Quem não sabe de si procurará, navegante no visível, no mensurável, no imediato. 

Resumindo, só quem se encontrou pode querer saber do outro verdadeiramente, sem procurar mais nada para si próprio. Não deve ser algo fácil de se encontrar no seu estado mais elevado, mas consideramos, no grupo da conversa, ser uma das mais puras formas de amor. 

No final de tudo bebemos um chá e entramos em introspecção, num beco difícil de digerir. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

ciências

À discussão encetada sobre a mesa do jantar, insisto na importância da história e da filosofia para o desenvolvimento humano. Repito que o carácter se desenvolve no pensamento e na viagem pelo trajecto do mundo, e que sem eles nunca seremos ninguém. O pragmatismo defendido por quem aprecia que um e um seja sempre igual a dois, sem se debruçar minimamente nas variáveis externas imensuráveis,  refuta claramente esta minha teoria. Mas ora vejamos, e sem qualquer desprimor pelas exactas, profundas preciosidades da medicina, da física, da mecânica, da informática e do mundo em geral, questiono-vos na mais profunda das ignorâncias, a quem recorrem na ânsia da paz de espírito? Ao rigor instituído de uma qualquer instituição, ou ao conforto da vossa dimensão existencial?

( As aulas de filosofia que o meu filho traz para casa, têm-me dado anos de vida. Na correria dos dias, na medição das horas de sono, de trabalho, de lazer ou de distâncias, andava esquecida do lugar seguro onde o domínio da existência nos pode levar. O senão é perigoso, mas compensa o risco. Quando conseguimos saltar da genialidade da matemática, para a genialidade dos sentidos, percebemos que nada do que se quantifica, chega para existirmos. A bem da verdade, todas as ciências fazem sentido, é o que é: o que umas arrumam, as outras desarrumam.)

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