Uma Mulher não chora

O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.

Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

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Este avanço, será eventualmente o melhor. Não demite a controvérsia, mas quantos casos não existiam já, não regulamentados? E quantas crianças não foram criadas, uma vida e até ser preciso, por uma mãe e uma avó? E isto citando apenas um dos inúmeros exemplos... É natural? Não, não é. É desejável? Pode ser. É que o desejável é um lar, feliz e sossegado. 

( Vejo o assunto mais como uma solução para a criança do que como um filho para o casal, e perdoem-me a franqueza. A vida são sempre opções, escolhas e consequências. No seguimento e no meu foco, impõe-se a efectiva remodelação da lei da adopção. Mais urgente do que qualquer outra.)

Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

sarilho

Hoje por entre os papéis da secretária descobri-me num tom seríssimo, crescente até nos nós dos dedos que seguravam a bic cristal azul, continuo a gostar delas, para escrita escorreita não há nada melhor. Não preciso por norma de outras minuciosidades com detalhes insignificantes, chegam-me eu e ela e os óculos de massa preta e graduação significativa, que me transformam os olhos em qualquer coisa de útil e me deixam capaz para o dia. Não todos, claro, há dias e dias. Hoje por exemplo, não havia raminho de espiga naturalmente completo, malmequer, papoila (jamais dispensaria a papoila), oliveira, espiga, videira e alecrim, ou pássaro que desde ontem me debica o vidro da janela, que me fizessem nascer expressões no corpo. Ontem nada tinha sido assim, e foi agora, ainda ontem conforme disse. O animal primeiramente assustou-me, que seria a insistência intermitente cuja sonoridade vinha de longe, julgava eu. Depois percebi-o logo ali, enquanto o raminho do lado de dentro do vidro, levianamente mal posicionado, o atraia insistentemente, quase tanto como ele a meus olhos que o seguiam nos saltitos teimosos e débeis, como se a fragilidade se visse assim simplesmente. Foi um ver se te avias, é o que vos digo. Uma festa a três, festejada em coisíssima nenhuma para além de dois seres vivos e um ramo já morto, por tradições que acreditam na sorte sobre a qual não tenho fé alguma. Foi-me dado, atenção, nada de fabulações falaciosas de mim para mim mesma, era um dever aceitá-lo em sinal de gratidão. Eu a mim dou-me antes chocolates, tiras de milho, queijo ou outros acepipes salgadinhos, que se há coisa em que eu acredito piamente é no meu palato. 
Hoje, tudo igual. O raminho no mesmíssimo lugar, uns pingos de chuva que não molham ninguém e o passarito saltitante a bater na janela aberta aos dias. Nas camas dos quartos ainda havia quem dormisse. Nas ruas os candeeiros apagaram-se a horas e deixaram os dias alumiados sem sol. Havia luz, é o que nos basta. Eu aqui, sem tirar nem por, ou quase quase, num quase cá dentro movido a uma falta estapafúrdia, um grandessíssimo sarilho, num baptismo que agora me pareceu apropositado.

(Eu sei, eu sei, o ramo é atrás da porta e até para o ano. O meu está à janela e até que eu queira. Os acepipes são para o futebol, mas agora não se fala mais nisso. E o sarilho, esse, nem queriam saber.)         

Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

maus agradecimentos

Raramente oiço os ensinamentos que me pespegam com vozes sabedoras daquilo que é "o certo". Estou-me nas tintas para as verdades absolutas vividas em corpos que não são o meu, oiço com o respeito que devo aos que me são próximos e me têm zelo, ainda que eu não queira o excesso. E não quero vezes sem conta, manias, oiço por aí dizer. Desde há muito que me convenci que as coisas acontecem e desenvolvem-se em mim num ritmo certo e sem demais impaciências, não havendo lugares a prévios avisos do que é certo ou errado, não há nada mais frágil no mundo do que a ferocidade das próprias certezas. Acolho as minhas, a meu tempo e a meu modo, e não trata esta aprendizagem nenhum desdém pequenino por consciências alheias. Valem o que valem para quem as sente no lugar exacto onde devem de ser sentidas: no corpo e no tempo de cada um. 

(Saber esperar é realmente uma virtude. Saber esperar pelos outros, é uma virtude ainda maior.)

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A patologia é sempre um desvio à normalidade, mas não retira excelência ao visado. A patologia mental in extremis estende-se ao mundo e a cada Homem, desde o primeiro ao último que habite um mundo real. E era tão bom que a abrangência desta verdade, também. 

Terça-feira, 14 de Maio de 2013

(...)

O miúdo sobreviveu aos exames e eu sobrevivi a uma semana maior do que o meu corpo. O meu corpo não chegava só para ela, quanto mais para ele e para os exames dele, quanto mais para os quereres dele, quanto mais para os meus. Um dia esqueci-me de mim e tento sempre que isso não se repita, assim muito à séria, mas a verdade é que se repete todos os dias. Um engano assumidíssimo com custos elevados para os meus quereres, que quase morrem de desgosto, na consumpção do esquecimento. Quase que me morreu o meu querer sair para passear, o meu querer comprar livros para ler até de madrugada, isto porque deixei de querer madrugadas, passei antes a querer dormir sempre que posso e enquanto posso, em horas intercaladas, logo eu que aprecio completar ciclos sem interrupções e sem saltar preciosas fases de sono R.E.M. Passei a comprar só uns poucos para as também poucas férias, que deixaram de ser tranquilas para passarem a ter banhos de água fria de manhã cedo e assim de repente. Uiiii, não funciono nada bem com repentes que envolvam água fria e salpicos salgados com areia incluída. Ainda para mais de manhã cedo. Deveria, eu sei disso, mas que se faça, não funciono. Esses poucos no inicio eram lidos nos intervalos em que a sesta dele me dava uns minutos que eu aproveitava ao instante, poucos segundos até que as letras se começassem a misturar dentro dos olhos, nunca percebi, sei que a seguir adormecia sempre e acabava por não pensar seriamente o assunto. Calculo ser um qualquer fenómeno sem explicação exacta, mas que justifica por exemplo eu ter demorado uns meses a ler a máquina de fazer espanhóis, não mais me esqueço, um livro delicioso de Valter Hugo Mãe que sorvi com extrema parcimónia, não fosse acabar depressa. Sim, deve ter sido também por isso, quero que tenha sido também por isso. Também me esqueci de ir ao cinema e por isso perdi filmes premiados que nunca mais acabam. Às vezes tentava vê-los em DVD, numas noites que pareciam maiores do que as outras, mas que ia-se a ver e afinal tinham o mesmo tamanho. Tinham sempre todas o mesmíssimo tamanho, ou seja, muito pouco tempo. A esplanada foi outro dos esquecimentos. Soa mal vindo de uma senhora, eu sei, mas sabe bem e eu não sou dada a cuidados excessivos com a sonoridade das questões. Não preciso de grandes apanágios, mares ou imperiais com tremoços salgadinhos, nem sequer preciso de sol. Contento-me com a frescura matinal ou de final de dia, desde que o silêncio apareça pelas redondezas dos meus ouvidos e me deixe escutar pouca coisa ou coisa nenhuma, um som raríssimo na minha vida, mas possível, mesmo no meio de gente. Não me incomodam as folhas nem as conversas das senhoras do chá das cinco, mas gritos para que eu compre gelados ou jogue basquetebol sem cesto, são qualquer coisa capaz de me escrutinar o cérebro vezes sem conta e dias a fio. Não me lembro muito bem da cor do silêncio, mas deve ser branco. Há mais coisas que eu estou esquecida, mas vamos ficar por aqui, até porque não pretendo que achem que me lamento, não é o caso, eventualmente precisava de me esvair em letras no meio de horas que me fazem falta ao trabalho que se estendeu noite afora, malvado. Nunca quereria trocar os sentimentos pelos esquecimentos, é somente uma questão de retrospectiva. Os dias deveriam ter mais tempo, será eventualmente a misera verdade que concluo de tanta coisa, e prometo não falar mais no assunto. Umas obrigações a menos, incluindo ainda umas dedicações, que isto de me esquecer que existo levou-me com certeza bocados que não resistiram. Quereria eventualmente um tempo que me permitisse arrumar dentro dele os sentimentos e os esquecimentos que me fizeram falta e que de novo fariam, caso regressasse. É que nunca inverteria o ciclo de prioridades, vividas em sua época, e continuadas hoje em dia. Gostaria ainda que me deixassem dormir os vinte seis minutos que a NASA recomendou ainda ontem. Desculpem-me mas isto é importante, foi a NASA que disse. Vinte seis minutos por dia, nem que fossem só mais esses. Vinte seis minutos por dia, é o que mais falta me fazia, por volta das catorze, se houvesse o direito à opção. E se eu não dormisse lia um livro ou escutava o silêncio, ou então andava de bicicleta a pedais ou cheirava papoilas ao sol. Ou fazia qualquer outra coisa, que o tempo quanto mais há mais nos desaparece da frente dos olhos que o cobiçam por entre as frestas do tanto que queremos fazer. Podia também jogar basquetebol com o meu filho ou lamber um gelado de pau, enquanto ele me pergunta perguntas de história de Portugal e se indigna com a minha ignorância. E  podia ainda namorar, faz-me tanta falta tempo para namorar. Devagar e em silêncio.

Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

de volta

Olha, olha, quem voltou. Gosto, gosto muito que escrevas e que eu possa ler-te, dear T. De hoje em diante, de olhos bem abertos.

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( até em separado, quanto mais. ide para longe, ide, que eu corro atrás. correr faz bem à saúde...)

Domingo, 12 de Maio de 2013

enfermeiro


O corpo físico não é um lugar bonito. Nem pensamos sobre isso quando nos embrulhamos em farpelas coloridas adornadas a pormenores cuidados com requinte e bom gosto, um sapato, um lenço ao pescoço ou na lapela do fato, o cabelo, um exterior nosso por direito que nos permite a existência enquanto ser social, eu aqui, vocês daí, a pele cobre o que ninguém precisa ver. Raramente nos lembramos do que nos escorre cá dentro. Nunca perdemos tempo a pensar no sangue que nos percorre as veias, na bílis que escapa do fígado, das mucosidades que nascem nos brônquios e nos excrementos que libertamos do corpo para que este funcione sem mazelas de maior cuidado, somos quase perfeitos, não haja dúvidas quanto a isso. Em funcionamento e em alheamento. Quando muito, consciencializamos as nossas próprias e as de quem nos está perto, com mais ou menos repugnâncias imiscuídas na panorâmica, por vezes demasiada para quem sente, depende de várias factores. Eu, por exemplo, já vi muito boa gente fugir com os olhos e com o resto ao doente que vomita sangue, ao que tomba numa morte que se vê chegar a olho nu, ao que deita da fralda um cheiro nauseabundo, como se a podridão em vida fosse possível. E é, eventualmente limites da perfeição. É essa a realidade, mas nem todos podem com ela. Não por falta de mérito, mas só porque não somos todos iguais. Eles podem. Eles desapossam-se da segurança e integridade do self para deitarem a mão à desgraça, para cuidar feridas, para limpar corpos, para acariciar peles empestadas de degenerações, bactérias e outras moléstias que nos podem desfazer aos bocados num par de horas. E para dar caminho aos corpos que não aguentam e morrem no caminho. É por isso que o dia deles me faz tanto sentido. Porque não existem muitas profissões onde a capacidade de entrega vá além do razoável. É por isso também que me repugna o desvalor que lhes dão, como se fosse pouco a integridade que repartem por toda a gente que dela precisa. Os menos bons não serão para aqui chamados, haverão, como em qualquer profissão. Mas os bons, esses de que falo, merecem muito mais do que um dia. Merecem um reconhecimento efectivo em diversos domínios, porque são grandes enquanto pessoas e pequenos enquanto classe. O mundo gira ao contrário, mas oxalá haja sempre um para nos socorrer na aflição.

( e um sorriso, muito especial, à enfermeira do meu coração.)

Sexta-feira, 10 de Maio de 2013

Os romeiros amontoam-se nas madrugadas desassossegadas do País, é cedo e o treze está à porta, no mês cinco do calendário, é preciso chegar antetempo. Chegarão? Até hoje, nunca consegui perceber de forma concreta a minha fé, impunha-se, ainda que trate invisibilidades. Nem mesmo quando a minha avó me trauteava a história dos pastorinhos, que tinham visto com os olhos o que mais ninguém viu. Acende-se quando calha, vinda de incertezas que esperam respostas viáveis pouco explicadas em lugares terrenos, como por exemplo os peregrinos que percorrem distâncias impossíveis em cima de dois pés calejados e coxos, para rezarem terços, novenas, encomendarem trintários ou só orarem a Nossa Senhora, o que não é nada pouco, convenhamos. Haverá o que os mova, e não será somente vontade. Já os vi a chegar em romaria cansada e inquieta, enquanto chovia água fresca nas trovoadas de Maio, e para que à noite se acendessem velas que alumiam caminhos, santos e almas, e mais tudo o que se quiser alumiar. Não há chuva que mate a luz. Olho-os normalmente com uma distância que me permite ver a fé que paira, que talvez não visse tão claramente, se estivesse crente apenas nos santos. Assim, e na minha vasta fé, creio numa superioridade que me justifica o mundo. Jamais lhe chamaria alienação, a fé enquanto entidade nunca nos tirará o que quer que seja, isso são más línguas. Pelo contrário, dá-nos o que nos faz falta, no preciso momento em que precisamos de explicar, de acreditar, de compreender, de justificar. 

Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

artes

Hoje encontrei dois namorados na escada do prédio. Ele falava. Ela sacudia-o enquanto ria e saracoteava os cabelos compridos, que lhe tapavam os olhos. As pernas estavam visíveis debaixo de uns calções muito curtos, deveremos esconder apenas o que não precisa de ser visto. Abrandaram quando me viram, mas ainda assim percebi perfeitamente a insistência dele e o evitamento dela. Haverão pouquíssimas outras coisas que caracterizem tão afincadamente cada um dos géneros. Juntando ainda no feminino, a plena consciência do efeito da graça esquiva e sorridente, numa astúcia precoce. Ser mulher, é toda uma arte.

Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

amore


(Quando me agarraste no queixo, começaste a tirar-me tamanho. Simplesmente quem sente amor não está  inteiro, e nem nunca está só. Ninguém respira como se nada fosse, ninguém vive como se não fizesse parte, ninguém anda como se anda quando não se é de ninguém. Não se acorda com os mesmos olhos, nem se adormece com os mesmos medos, e a liberdade da qual se fala são sempre só palavras. Quanto mais sentimos mais provimos, e o constructo do discurso que parece soar correcto, anuncia-se só em bocas, sabedoras de que assim não é: vaidosas, mentirosas, marias vão com as outras. Quando perdemos, ganhamos, e tudo se opera no mesmíssimo compasso. É por isso que o mundo funciona e que o amor vale o que vale: por pequenos que fiquemos, tornamo-nos sempre maiores; e inteiros.)

Oiçam Sakamoto, espreitem o mar e sintam, andem. Palavras, levas o vento, e eu ando pouco nessa.

Domingo, 5 de Maio de 2013

filhos

Um dia nasceu-me um filho. Cresceu cá dentro e prosseguiu cá fora, mas como se continuasse em mim, no espaço do corpo. Falou, andou, disse mãe e disse não, ganhou forma enquanto pessoa, mas a verdade é que será sempre meu. Ninguém consegue idear um filho antes de ser mãe. Ninguém imagina a dicotomia entre a integridade e o desespero, que nos ganha forma no corpo no exacto momento em que os sentimos, antes disso até. A minha mãe dizia-me coisas que eu ainda não sabia e ela já. Soavam-me só, o que convenhamos, vale o que vale e não vale tudo. Palavras belas tem o dicionário aos molhos, mas o corpo, esse é que sabe. Nos olhos, nos gestos, nos sítios que ninguém vê e nos espaços livres, que nos separam as distâncias que nos ligam: para sempre. 

Para onde vou sorrir...

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