domingo, 22 de março de 2020

medo

Talvez não haja emoção mais visível do que o medo. Por muito que a tentem esconder escapa por entre os gestos, na ânsia do sossego que insiste em resistir. Nota-se algum esforço teatral para que a normalidade se faça transparecer, quebrada pelo indómito " temos de estar longe, temos de ficar em casa", que surge na validação da ausência do cumprimento habitual. " É a vida", dizemos todos, obedientes e impotentes perante a força maior do desconhecido, numa racionalização que não pretende mais do que acalmar o nosso interior. A alegria por sua vez é a emoção da vida, expande-se de outra forma, é natural, mais ou menos subtil. A zanga pode viver submersa em nós por uma vida, deixando marcas no corpo, mas conseguindo ser mestra em matéria de contenção e recato. A tristeza, ai a tristeza. A tristeza vive na poesia, nos dias e nas noites, nas memórias, nas luas, nas recordações e nas melancolias, e consegue ser só nossa como nenhuma outra pode ser. É o medo, sim, é o medo. O medo é a maior de todas as verdades, não há olhar que o esconda, não há passo que não o denuncie. 

sábado, 14 de março de 2020

(...)

"É a crise", dizia sempre Albertina, referindo-se à sua vida complicada e difícil, ou não fosse Israel um senhor altivo, imponente, e, por escolha, seu marido. Hoje se fosse viva faria muitos anos, num dia abençoado pelo sol e amaldiçoado por uma crise diferente das que ela conhecia. Não sei se maior, não sei se pior. Resta comemorar em memórias, em cheiros que não esmorecem, em lugares que se encontram desenhados em nós, perfeitos como só o colo de uma avó pode ser. Nunca mais se comeram pastéis de bacalhau, feijão com azeite e coscorões. O segredo era pouco mais do que nenhum, deveria ser mais da cozinha, do lugar, dos bancos da mesa e das mãos que embalavam tudo com uma mestria maior: a do amor aos netos. Os avós são logo a seguir aos pais, o início de tudo. Terminam primeiro, vão para o céu, como que para nos ensinar que dentro da nossa existência, o que nos segura é o que não se vê.

domingo, 8 de março de 2020

amola-tesouras

Estava eu a costurar quando me lembrei dela. Por vezes lembramos os nossos mortos pela falta que nos faz o que nos ensinaram com o saber da vida, nos tempos em que ainda estamos longe de perceber o que uma agulha e uma linha podem recuperar. A minha tesoura, perdida na caixinha das linhas cor-de-laranja, não corta. Morde  o tecido, morde-me as mãos, mas não separa o que tem de separar com o rigor de um corte a direito, como eu via a minha avó ordenar na ganga estendida sobre a mesa do sótão. Necessita de ser amolada, mas da última vez que ouvi um amola-tesouras, não a tinha comigo. O amola-tesouras passeava-se há muito tempo pelo Ribatejo nos dias de chuva. Tinha uma música que ecoava à distância, dependendo do vento, e ela costumava sair para a rua com a sua tesoura de costura comprida e sempre impecável. Hoje, ao deparar-me com a incompetência deste meu utensílio, lembrei-me que dentro da Bernina antiga, que mora nos quartos do fundo da minha casa, encontram-se alguns objectos da sua verdadeira e única dona. Fui lá num salto, abri a gaveta, encontrei carrinhos de linhas, botões, fita métrica e bobines suplentes, mas nada da tesoura, que deve ter seguido em herança para um outro alguém. A minha memória por vezes atraiçoa-me, estava quase certa de a ter visto lá, ao mesmo tempo que, no mesmo nível de certeza, sentia que estava longe... 

Hoje, por uma prudência de devida cautela, foi cancelada a inauguração da minha escola primária, que reabria ao público muitos anos depois, pelas mãos de um benemérito. Eu era uma das convidadas para contar aos meninos de agora como era a escola do antigamente, onde um pequeno armário de madeira guardava a fabulosa biblioteca, onde um aquecedor a gás aquecia as mãos geladas de quem calcorreava alguns quilómetros para lá chegar, onde o recreio era constituído por um pequeno pátio, sem telheiro, onde meninos e meninas jogavam ao peão, saltavam ao elástico e subiam a árvore que timidamente se erguia torta, ao lado da casa de banho, obviamente fora do edifício. Eles não iriam acreditar que seria possível viver assim, num mundo sem telemóveis, onde o momento do dia era a hora em que se bebia o leite com chocolate e se recebia a caixa grande que guardava os 24 pacotes, com um desenho para pintar que valia uma vida. Ou o momento em que chegava o senhor que vendia batata doce assada, numa mota vagarosa e ruidosa. Ou ainda, o momento em que se levava a tesoura para amolar, e escutávamos o chilrear do aparelho a roçar o metal, à distância perigosa do muito perto.

Hoje os sons não são iguais, o que desenvolve uma vida diferente, dentro de nós. Já não se costura como antigamente, e já quase ninguém sabe que o amola-tesouras vinha com a chuva, porque também arranjava chapéus.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

inquietos

Há na sociedade uma incrível tendência à perfeição. Oiço-a quase sempre em silêncio, como se ali ao lado cantasse um fado, palavras que inseridas umas nas outras produzem uma sonoridade cadente, de um lado o que é certo do outro o que é errado, uma pauta musical que se justifica pela vontade indómita da informação e do conhecimento. Nessa orquestra, e muito embora imensas verdades possam convergir, há uma convicção alicerçada no ego de cada qual, sempre devidamente fundamentada e condimentada com o que cada pessoa tem de melhor, ou do que ouviu na noite anterior de um autoproclamado erudito na matéria. No final da história a moral é sempre a mesma, e estamos longe das fábulas de Fontaine. Nestas existia uma moral a aprender, mas na história da sabedoria individual, carregada de eus indiscretos e perdidos no nada, há alvos a abater. Não há nada pior na sociedade actual do que pessoas que consigam manter-se à parte desta insana sabedoria popular e colectiva, que engloba muitos dos assuntos fracturantes da actualidade. Quem o faz, quem à margem do joio se ergue e rebenta na sábia ignorância de quem não conhece, procura respostas sem obstinações rápidas próprias da multidão, e é olhado com desdém por quem já sabe tudo o que deve saber. E o que me assusta às vezes, nem é só isto. É olhar para um sistema de educação que permite a alguns intervenientes perpetuar a continuidade deste conhecimento absoluto e irrefutável, ceifando a direito quem ousa questionar e procurar outras respostas. Como se estes inquietos não fossem o futuro, e como se quem nada questiona, não fosse a estagnação.

A boa notícia é que os espíritos inquietos nunca morrem.

domingo, 26 de janeiro de 2020

vinho tinto

A cidade estava mais fria do que o habitual. Na rotunda respirava um vento que atravessava a pele até aos ossos, os olhos das pessoas lacrimejavam num choro do corpo, consciente como só ele da agrura da nortada. Eu olhava entretida para as pedras da calçada, enquanto os meus pés, rápidos e certeiros, procuram um caminho que se queria curto, mas que parecia longo demais para se lá chegar. Parei numa escada dos CTT onde o abrigo aos pingos da chuva se fazia sentir num alvoroço de pessoas, que ao Sábado de manhã governam a vida que se viverá durante a semana. A praça, o pão, os essenciais que deverão adocicar os dias com conforto, e que só quem tem se esquece ser um dos mais importantes. Abriguei-me ali uns segundos e vi um homem sentado no chão, com barba grande, casaco comprido, chapéu alto e um olhar morto. Ao lado dele um pacote de vinho tinto de marca branca, como que a querer dizer-nos que a vida está cheia de incongruências, mesmo quando grita muito alto. O queixo do homem tremia de frio, as mãos estavam sujas e gretadas, a pele emanava um cheiro forte e incómodo, era grande, mas quase ninguém o via. A senhora perfeita e elegante, que segurava com a sua mão delicada o sobretudo beije perto do pescoço, não o viu. A velhinha que empurrava o carrinho do supermercado, apressada e encurvada, não o viu. O jovem que olhava para dentro do telefone, como se naquele dispositivo morasse um mundo, não o viu. O senhor que parou a levantar dinheiro, de gabardina cinzenta de bom corte, e postura cordial, não o viu. Ninguém o via, ou ninguém parecia ver, até que passa um homem de fato completo e passo muito acelerado. Levava por certo um destino marcado, enquanto na mão segurava com força o saco de papel com um jornal da nossa sociedade, num ondular muito certo, de acordo com o abanar da mão. Chegou-se um pouco ao abrigo da intempérie, e tropeçou no senhor de olhos mortos sentado no chão. Estou quase certa de que o viu, posso assegurar-vos, dado que vociferou um impropério pouco digno para um porte altivo, sacudiu os pés e seguiu o seu nobre caminho. O homem, movendo um só braço, deu um gole no vinho e continuou a olhar em frente. 

Seguidores