segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

o caminho

Um reconhecimento, um pedir desculpa, claro ou envergonhado, têm um poder infinito. Não matam os males internos nem apagam memórias, mas fazem-nos acreditar de novo, e não há relações que avancem sem confiança. Sejam de amizade, sejam de amor. Enquanto se respira e se acredita, surge um alicerce de esperança no progresso. Mesmo que, como no resto do mundo, se ande para a frente com a consciência de que poderemos voltar atrás (para depois continuarmos, mais sossegados).

domingo, 27 de janeiro de 2019

censura

Dizem os entendidos que já nada é como antes. Que os meninos não irão conhecer o mundo como nós o conhecemos, e que a ausência de trocas sadias irá prejudicar o seu desenvolvimento, em prol de um crescimento virtual cada vez maior. Será que não nos cabe a nós, pais, controlar ligeiramente este fenómeno? 
Quando segui para a faculdade não havia telemóvel. Havia uma cabine de moedas, da qual eu ligava para casa, três vezes por semana. Ninguém sabia se eu comia, se eu bebia, se eu dormia, se eu estudei ou se eu vadiei. Se eu desaparecesse por umas horas não era grave, pois o desaparecimento não era detectado, eventualmente seria imaginado. E se eu não estivesse online horas a fio não era o desespero, porque esse estado, tal como hoje o conhecemos, não era possível. 
Em pequena, mais anos de distância ainda, eu saia em bando, de bicicleta, mal a escola terminava, com mais meia dúzia iguais a mim. Guardados por cães, gatos e cabras no pasto. Brincávamos nas árvores, nas fazendas, nas estradas, e nos baloiços construídos com uma corda e uma tábua, no tronco de uma árvore qualquer. Ninguém fazia questão de nos guardar em casa, certos do que estávamos a fazer, cientes da segurança transmitida por um dispositivo e um sofá, que não permitiriam que nos acontecesse nada. Estaríamos ao abrigo do sol, da chuva, da maldade do mundo e das nossas travessuras. Nada era assim, quando éramos livres. E é por isso que quando hoje em dia oiço falar de liberdade, o considero um conceito controverso e delicado. Somos livres num mundo que nos monitoriza os passos, como quem nos escreve a história. Livres num lugar onde se não atendermos um telefone na primeira hora, todos julgam que morremos, que fugimos, que estamos ausentes demais, ou que somos levianos, para mal do circuito normal da humanidade padronizada. 
Luto contra isto todos os dias. Não me interessa saber a vida do meu filho ao segundo, interessa-me que ele a viva. E se esse hábito já não me sai natural, se o impulso do perguntar se está bem surge mais vezes do que eu gostaria, faço um esforço imenso para que reduza, muitas vezes, todos os dias. Mais do que eu saber se ele está bem, é ele estar. E para ele estar, necessita de estar, por ele, para ele, sem a carga pronta da censura ao segundo. 

Não me parece que haja margem para crescer com limites difíceis de quebrar, comandados ao segundo por um dispositivo remoto. Houve tempos em que se pensou que esta permanente ligação era benéfica, hoje já começamos a perceber os riscos, mas não sei se saberemos o caminho do regresso.
Alguém deixou um carreirinho de pão? 

domingo, 20 de janeiro de 2019

e agora?

Seremos felizes quando conseguirmos olhar o mundo sem esperar a compreensão, é ela que nos desassossega e nos impede de sorver a simplicidade. Seremos ignorantes se nos entregarmos à preguiça da satisfação do óbvio, é na busca desmedida que evoluímos. E agora?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

doença

Nasci com pouco. A casa não tinha água canalizada, vinha de um poço, e era aquecida no fogão. O meu pai era militar por vocação, numa época em que a obrigação ainda falava mais alto do que a família. Ou o amor, ou a dor. Cresci a acreditar que a vida era feita de pão cozido no forno comido com planta, de bolachas com manteiga e café forte, de milagres que a Santíssima Trindade, padroeira lá da terra, fazia sempre que alguém estava doente, e o meu avô saia de seringa em punho para dar uma injecção, enquanto a minha avó rezava de joelhos em frente à santa, fosse por quem fosse. Quando chegou a televisão vinha a preto e branco, com dois canais, e só às seis da tarde existiam desenhos animados. E ao Domingo de manhã, antes da missa, onde eu lia os salmos às escondidas da minha família, pouco católica por sinal. O meu pai tinha um mini amarelo que nos levava à praia da Nazaré sempre que era verão, e à serra ver a neve, sempre que era inverno. A capital servia apenas para ir ao médico, e muito de longe em longe, ao jardim zoológico, e sempre que isso acontecia havia o limite do que se podia gastar. Se comêssemos uma pizza, não comíamos pipocas, se comêssemos pipocas, não havia gelados para ninguém. Se fôssemos às compras, ou havia a saia, ou havia as calças, ou havia apenas um par de meias, se fossem de lã, subidas, caras e quentes. Não fui menos feliz por isto, acho que com isto construí um orgulho gigante em quem me ajudou a crescer no seio do amor e da dificuldade. Não sinto que os dias de hoje sejam piores por haver mais acessos, mais evolução, mais qualidade de vida. Mas temo que o amor verdadeiro não consiga brotar de igual forma quando tudo parece fluir sem adversidades. Explico-me mal, talvez, não é o amor que não surge, ele eventualmente surgirá. Mas vem disfarçado de cores que ofuscam a capacidade de sentir genuinamente. Uma doença do século que turva emoções, prioridades, pensamentos, família, abraços e vinculações. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

orgulho

O orgulho pertence às categorias legítimas e ilegítimas da existência. Quando nasce a pulso, juntamente com a obra crescente, assume-se como uma vitória de quem luta, de quem avança, de quem se esforça, de quem desespera até ao último segundo de tempo, para vencer uma maratona. Quando por outro lado nasce no vazio de coisa nenhuma, não passa de um ataque sombrio de vaidade, sem eira nem beira, sem sustento ou devoção. Enquanto o primeiro é um direito, o segundo é um defeito.

Seguidores