sábado, 24 de setembro de 2016

comer

Há alguém que de momento me atenta o espaço de escrita. Mune-se de impropérios ofensivos, esquece-se da regra da sensatez e da convivência, deixa-se exceder por um ódio gigantesco e ataca, sem dó nem piedade, nem qualquer ponta de jeito, nem nenhuma réstia de elegância. Uma vergonha, quem se presta a tão minguada empreitada. Por cá, respira-se igual. Desembrulha-se e deita-se fora o que não presta, chega a sorrir-se perante a fúria desconchavada, há ratos a cuspir, baratas a rastejar, bílis a circular em lugar de sangue, chega bem a meter dor, podem acreditar no que vos digo. Meia volta volver, é que era. Mas compreendo. Há vícios que não se matam, e precisões mais fortes do que a fome. É seguir em frente. Aqui também se cospe, mas é aquilo que não se come. 

E continua-se, claro. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

em casa de ferreiro, espeto de pau...

Equilíbrio é um estado emocional básico do ser humano, preciso para que o corpo e a mente funcionem numa sintonia quase perfeita, mais veloz do que uma nave, mais serena do que uma folha que cai lá fora, no outono. Cada um sabe do seu, é pessoal e intransmissível, constrói-se em cada escolha, num ou noutro desafio, nas aprendizagens e nas quedas, nos caminhos que escolhemos ou precisamos de percorrer. Ninguém funciona plenamente em descompensação constante, chega a uma altura em que o corpo cede ou a mente estonteia. Ninguém consegue porém o estado pleno da grandeza, não há estruturas puras na mente, há mudança e há hábitos, há desejos e uniões, solidão e partilha, em doses distribuídas de funcionalidade e simbolismo. Gosto de dar beijos à minha gata, faz parte do meu equilíbrio, por desequilibrado que o acto vos pareça. Gosto de comer cereais enquanto vejo um filme trivial, e de me concentrar horas a fio em leituras consequentes, nenhuma delas efectivamente salutar, na verdadeira acepção da palavra. Saudável deverá ser comer saladinhas de rúcula verde e fruta, e ler coisas proveitosas que nos ensinem a caminhar sempre a direito, com regras e horas marcadas, a mais terrível de todas as existências: as construídas por alguém, para um outro alguém que nunca serei eu. É esta a magia do que faço, é isto que me encanta no trabalho que executo nos dias. Procuro sem cessar o que cada um pode querer para se equilibrar, sem comparações, sem avaliações, sem censura, sem réguas que me tentem dizer onde mora o normal e onde cabe o patológico. Quando saio à porta para fora e viro gente outra vez, fico meio zonza, um tanto ou quanto abananada, ligeiramente desequilibrada, profundamente pensativa, e sempre muito desengonçada. Em casa de ferreiro, espeto de pau. Em casa de padeiro, pão duro. Em casa de contabilista, más contas. Em casa de enfermeiro, feridas ao léu. Em casa... Em casa...

Na minha casa comem-se muitos chocolates, nos dias em que o Outono não chega, quando já se deveria ter instalado. Não aprecio atrasos exagerados, tolero uns minutos devidamente justificados, quando não se tornam repetitivos. Para a semana, antecipo, estarei que nem posso, num arriscado ponto capaz de explodir. Se o sol não se acalmar de uma vez, posso jurar-vos, atiro-lhe com a minha zanga à cara, será uma morte certa. E Santa, que não gosto cá de alaridos. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

solitária

Tenho pacientes que, sem saberem, me curam a alma. Olho para eles sempre de baixo para cima, eles é que se julgam precisados, estão redondamente equivocados. Miro-os de muito perto, escuto cada pestanejo, espreito por cada encanto, cresço em cada tremelico. Bem sei, sou uma profissional egoísta que se alimenta da infelicidade alheia, mas não é esse o fundamento, e na verdade esta visão não passa de um humilde reconhecimento. Ainda hoje, por exemplo, só tenho de agradecer à Dona Regina. Viúva há muito, ronda uns setenta mais inteiros que muitos quarenta. Traça-me o perfil dos filhos e dos netos com um rigor de raciocínio que me chega a espantar. Confessa-me uns pecados insignificantes, com uma censura brutal. Espreita-me por entre os óculos à procura de respostas que não tenho, e dá-mas, de bandeja, no minuto exacto da circunstância. Não costuma colocar pés em falso, raramente despe o casaco, fica sempre com a mala no colo, e chora poucas vezes. Lê compulsivamente todos os livros que pode, e nem sempre em papel. Passeia uma vez por semana para fora do retiro, por obrigação, julga que morre menos em vida, se o fizer. Apadrinha cães e gatos, fala com um vizinho que é a única fonte de ligação ao mundo, muitos dias da sua vida. Descobriu há pouco, há muito pouco, um pouco tarde demais, que se enganou, e que afinal não é tão feliz como julgava ser em tempos, quando tudo parecia engrenado numa carruagem. Hoje, e após a terrível descoberta, concluiu que não quer morrer tão cedo, e que gostava de cá andar por muitos e bons anos. A comer latinhas de atum, que cozinhar não é lá com ela, a passear umas vezes por ano, a descobrir as novas tecnologias e a percorrer livros sem fim, pelo início, pelo fim, mais rápida do que um avião, mais lenta do que uma tartaruga, mais ardilosa do que uma pulga. Pela parte que me toca, acho-a mais feliz do que o que ela julga ser, mas posso estar a exagerar. Que gosto muito de a encontrar, para partilhar as boas leituras, é um facto. Não há melhor conselheira no mundo do que uma mulher solitária que goste de ler.  

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

encontros

Que o caminho se faz caminhando todos sabemos, mas antes de lá chegarmos andamos sempre meio perdidos. Recordo-me de ser a garota que entrava para a faculdade, mais ou menos com o ar das que hoje acompanho, cheinha de sonhos maravilhosos, desarrumados e empoleirados em raminhos verdinhos que minavam a minha cabeça de folhinhas e minhoquinhas, todas idas ao engano. Nessa altura a psicologia era uma profissão limpa, onde um livrinho de notas e um lápis pequenino faziam parte do trabalho, à luz de um candeeiro de pé alto, com um peixinho num aquário mesmo ali ao lado, e com uma planta de plástico que parecia muito natural. O tapete era de pêlo fofo, o cadeirão de um conforto que só visto, a janela daria para o Tejo numa Lisboa ao entardecer, por onde entraria o som de gaivotas que dançariam a música dos Deuses. As minhas coleguinhas enfermeiras, tal como eu, também percebiam muito disto tudo. Umas batinhas brancas, uns velhinhos simpáticos e bem-falantes para curar. Uns joelhitos esfolados, umas vacinas nos bracinhos de uns bebés, na loucura uns pontos na testa de algum adolescente desgovernado. As fardas também tinham o seu quê de interessante. Branquinhas e curtinhas, limpinhas e justinhas, adornadas pelo clássico casaco azul escuro, meio aberto no decote, meio preso na calça roliça, a deixar a anca a passear. Enganos, descobri entretanto, traições, é o que demais a vida tem para nos dar. Muito depressa nos consciencializamos que não é nada disto que trata a nobreza de cada uma das profissões, e que o que têm de bonito temos de ser nós a construir, cá dentro, onde mora o coração. Não há cá cadeirões e cenários de delirar até aos anjos, há salinhas de consultório onde se espremem borbulhas do inconsciente, onde se chora a baba e o ranho, onde se cheira a merda e a morte, a dor e a pavor. Não há cá livrinhos, há empatias e olhos nos olhos, taco a taco com a purga da alma, tu cá tu lá com os medos e os horrores. As batinhas brancas das enfermeiras também não são nem limpas nem justas. São largas para permitir ao corpo acudir depressa, quando o sangue insiste em jorrar. Porque muitas vezes não há só picas e pontinhos na testa, há golpes fundos, há corpos dilacerados, mal-cheirosos, sujos, pestilentos, doentes e amarelos, na iminência de deixarem de guardar um ser vivo, porque para além do viver e do sofrer, também há o morrer. Bem vistas as coisas ninguém vai à partida preparado para isto tudo, eu pelo menos não vim. Nunca imaginei no meio da limpeza dos livros científicos, a crueza do que me comeria a seguir, mais depressa do que um gigantesco gole de café quente, que me queimou a garganta até ao estômago, passando devagarinho pelo esófago. Que o caminho se faz caminhando já todos sabemos, mas antes de lá chegarmos andamos sempre meio perdidos, a julgar que estamos encontrados. 

Mas na verdade só depois, na espuma de todos dias, nos perdemos realmente. Aí, plenamente conscientes de que certamente, nunca mais nos encontraremos. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

cocó de gata

Não paramos muito para pensar nisso, mas a maioria do mundo gira ontem. Gira ontem pela nossa história e gira ontem pela nossa pressa. O meu mundo tem girado especialmente atrasado. Nunca estou na hora h, chego sempre muito depois do minuto exacto, o que surge para fazer já deveria estar feito há muito. Os males da alma que supostamente irei curar estão mais do que consolidados, alicerçados, escondidos e cristalizados por um tempo que insiste em apurar todos os espacinhos do medo, cada canto do rancor, todos os traços da vergonha, a maioria dos rabiscos da tristeza. Por vezes sinto uma gana indómita de mudar de profissão. Cansa-me o bafio embutido nas roupas que vejo a entrar pela porta adentro, o branco dos cabelos que caem nas testas cravejadas de rugas, os tropeços nas pernas coxas e a surdez da sabedoria, que nem sempre sabe tudo quanto quer. Nestas alturas gostava de criar bebés. Gostava de esquecer que o passado é a génese disto tudo, e empenhar-me na criação de qualquer coisa que me faça esquecer a história que já foi um dia. Nunca chego a mudar de ramo. Nunca ouso procurar outras simetrias de encaixe futurista. Acabo por nunca abandonar a figura que se abeira de mim, sem eira nem beira, nem sorte nem fado. Ainda há pouco, por exemplo, ouvi alguém em gritos surdos de meter dó. Um esbracejo insistente, um despejo inconsequente, um irónico pedido abafado, camuflado de fogo de artifício deitado aos céus em noite de festa, um desperdício, tenho a dizer. Deveria pensar assim: daqui vai nascer um dia qualquer coisa menos má do que isto. Mas na verdade só me ocorreu: deves ser mais miserável que o cocó da minha gata. 

Esse ao menos dá-se a cheirar. 

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