sábado, 17 de junho de 2017

cigano

Arminda perdeu-se de amores pelo cigano. Compreendo-a perfeitamente, é muitíssimo mal amada, ninguém a vê, passa pelo mundo demasiado depressa, por entre umas palavras aceleradas e uns gestos ansiosos, que denunciam a necessidade de impacto exteriorizada muito para fora daquele corpo farto. Outro dia perdi uns bons minutos a olhar para ela, deve ter sido em tempos uma linda mulher. Possui uns olhos verdes que não desaparecerão com o tempo, uma cintura comida pelas carnes, uns caracóis mesclados de chocolates, ainda doces, e uma boca carnuda, demasiado bem delineada para o resto do rosto desorientado. As sardas dão-lhe um ar de miúda que muitas de vinte não encontram. Ela não percebeu que eu a mirava daquela forma, implicou-se na razão do seu contacto, barafustava com as mãos e a voz, abanava-se muito enquanto eu acenava com a cabeça como se escutasse tudo aquilo que ela me dizia ( posso lá eu ouvir tudo o que me querem dizer com atenção, sem eu própria enlouquecer). Hoje soube do cigano, e fiquei muito feliz por ela. O cigano é moreno e bonito, com uma barba que faz jus à tradição e não se corta nos primeiros meses de luto, pelo patriarca da família. É pouco falador, ligeiramente envergonhado, de sorriso fácil e de ar sério e confiante. Imaginou-se nos braços dele desde que o conheceu, pois só ali, disse-me por fim, sentiu que poderia desembaraçar o emaranhado do seu cabelo. Só ali poderia descansar os olhos que não mudam de cor, mas que turvam com a velhice, e só ali a sua meninice poderia despertar de novo para os dias da existência, por entre uma cintura de excessos e umas rugas de expressão. Fico mesmo muito feliz por ela, volto a dizer, encontrou o amor num dos melhores locais onde se pode encontrá-lo: o sítio onde a sociedade condena, a inveja mata, e a paixão triunfa.  

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