terça-feira, 30 de outubro de 2012

Rimas

Lembro por exemplo as lengalengas de infância que eu ouvia até à exaustão da boca da minha avó. Ou as histórias, sempre as mesmas, as minhas. Um conforto para o corpo, vá perceber-se. Representarão eventualmente uma precoce precisão de familiaridade, de interiorização, de embalo por continuidade, uma acomodação do corpo e do espírito ao que conhecemos e nos soa tão bem. Será isso? Será que, e extrapolando, nos fazem falta sucessões de rimas que se afiguram nossas, e que repetidas nos amenizam as ânsias da alma e do corpo, e nos transportam em permanência para o que sabemos, mas que necessitamos amiúde, de voltar a saber? E a sentir?

(por rima entendo o que na vida se encontra em harmonia comigo, inteira. é pessoal e intransmissível, o que faz com que seja sempre somente minha. porém no seguimento é possível, isto quando olhos olham para dentro de outros olhos, como que numa astúcia da magia, encontrar uma única onde cabem dois corpos. e haverá lá conquista maior do que esta?)

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Se o arrependimento matasse havia muita gente que não estaria aqui. Já se teria esvaído, feito em partículas de nada, voado numa ventaneira daquelas que não se vêm mas que se sentem com uma força capaz de arrancar corpos ao mundo. O senhor Vítor, por exemplo,  um velho alto e muito magro é uma dessas pessoas. Desde há muito que presenteia a mulher todas as segundas, quartas e sextas com arrepiados de amêndoa, celestes de Santarém, broas com nozes e cálices pequeninos de vinho do Porto que a ajudam a empurrar para baixo as gulodices trazidas em mãos e entregues na boca, as mesmas mãos que em tempos lhe deram outros tratos menos meigos, menos atentos, menos dedicados. Fala porém nisso com uma clareza de cortar a respiração. Entrega-se ao passado, revive os dias, as horas e os minutos, deixa que lhe escorra pelo sangue os actos que cometeu e encarquilha-se perante o próprio génio, diria até que quase que lhe sucumbe, tentando então e em desespero confiar-se ao perdão, não ao de alguém, mas à sua própria absolvição. Os ensaios de remissão de culpas perante nós mesmos devem de ser uma das cargas maiores que poderemos transportar em peso nos ombros. Não deve ser fácil esquecer o delito, não se deve mitigar com procedimentos abonatórios dirigidos ao alvo da culpa, não se deve afrouxar com o passar dos anos, pelo menos enquanto se encontrar nos olhos em questão o peso da pena. O peso da pena parece nascer tardiamente em alguns corpos que vieram ao mundo. Aliado à contrição é qualquer coisa que não deveria existir, por acartar dores evitáveis. O peso da pena aliado à contrição deve vergar em demasia, que só isso justifica excessivas dedicações nascidas em completa inversão dos actos, e em consciência. Este, e em particular, vive imergido em bolinhos doces e bons que adoçam a boca de uma mulher que vive encolhida num sofá de braços castanhos, enquanto o marido entra e sai, às segundas, quartas e sextas e em mais dia nenhum, sem direito a qualquer excepção, que os restantes servem para arrumar a casa, estufar ganso de vitela no tacho e zelar pelo arejamento das divisões. À quinta, invariavelmente, compra rebuçados de mentol verdes numa mercearia da cidade, que distribui à sexta por todas as pessoas pelas quais passa, quem sabe se para tentar sufocar ainda mais alguma interna questão.

domingo, 28 de outubro de 2012

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A sala não caiu de velha nem de êxtase, aguentou-se impávida e ruidosa perante a exímia voz do Manel Cruz. Misturam-se gerações perante um mesmo propósito, o que é sempre um acontecimento de relevo. Para os novos poderá ser estranho, eventualmente sentido como uma intromissão de gente muito crescida que ainda se julga capaz de ouvir música da boa. Digo eu que seja isso, não sei bem, não me lembro e hoje já estou do outro lado. Do lado que acha o máximo os miúdos de dezoito ouvirem o que eu ouvia aos vinte, muitos anos depois. Mas os miúdos de hoje estão diferentes, ou então fui eu que tive sempre muita sorte com os amigos que arranjei na minha adolescência. Sou uma pessoa de sortes, já tenho pensado e gosto muito de continuar a sentir isso. Não me parece possível que algum dos meus amigos tivesse a insensatez  de me deixar a cambalear ao Sábado à noite, com a fácil frase chega bem a casa. E se ela não chegou, como é? E se no caminho teve azar e encontrou alguém de má vontade, como terá sido? Mas o que raio é isto de se ter dezoito anos, vestir calções muito curtos com saltos muito altos, beber muito e voltar sozinha para casa? E ainda ter uns amigos que gritam chega bem enquanto a porta do metro apita e se fecha, levando-os todos lá dentro, ficando apenas ela na estação? Não sei, não sei o que é mas soa-me a estranho. Quando eu tinha aquela idade e na pacatez da cidade de interior, o grupo colocava as raparigas em casa sem ser preciso alguém ter bebido o que quer que fosse. Era barulhento e passeava pelas ruas, uma tormenta para a vizinhança mas um sossego para os pais. Agora não sei muito bem o que sossega os pais. Os pais têm cada vez menos sossego e talvez até tenham razões para isso. Não quero generalizar, acredito que haja muitos bons amigos nos jovens de hoje. Quero até acreditar que aquilo foi uma situação pontual que por um mero acaso encontrei, onde se juntaram erros típicos da adolescência, todos convergidos num único momento. Mas é que se não foi só isso, hipótese também a considerar, alguma coisa está muito errada por aí.

sábado, 27 de outubro de 2012

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

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Existimos, mas é dentro do nosso corpo. O que deitamos cá para fora é o que sabemos ser certo dizer, ou ainda, e indo mais longe, o que conseguimos converter em palavras. Não quero com isto indiciar que dizemos coisas despropositadas, mas só que o que sentimos é bem mais complexo do que aquilo que se pode expedir, ou até mesmo tentar dar, ordenado, em frases seguras e lineares. 

(Até mesmo porque as palavras, e agora extrapolando, nunca dizem tudo, por muito que sejamos detentores de um léxico surpreendente. Isto porque conseguimos sentir para além do razoável, cá dentro somos perfeitamente ilimitados. Da boca para fora obedecemos a padrões, o que é por si só uma valente contenção.)

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