domingo, 28 de outubro de 2012

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A sala não caiu de velha nem de êxtase, aguentou-se impávida e ruidosa perante a exímia voz do Manel Cruz. Misturam-se gerações perante um mesmo propósito, o que é sempre um acontecimento de relevo. Para os novos poderá ser estranho, eventualmente sentido como uma intromissão de gente muito crescida que ainda se julga capaz de ouvir música da boa. Digo eu que seja isso, não sei bem, não me lembro e hoje já estou do outro lado. Do lado que acha o máximo os miúdos de dezoito ouvirem o que eu ouvia aos vinte, muitos anos depois. Mas os miúdos de hoje estão diferentes, ou então fui eu que tive sempre muita sorte com os amigos que arranjei na minha adolescência. Sou uma pessoa de sortes, já tenho pensado e gosto muito de continuar a sentir isso. Não me parece possível que algum dos meus amigos tivesse a insensatez  de me deixar a cambalear ao Sábado à noite, com a fácil frase chega bem a casa. E se ela não chegou, como é? E se no caminho teve azar e encontrou alguém de má vontade, como terá sido? Mas o que raio é isto de se ter dezoito anos, vestir calções muito curtos com saltos muito altos, beber muito e voltar sozinha para casa? E ainda ter uns amigos que gritam chega bem enquanto a porta do metro apita e se fecha, levando-os todos lá dentro, ficando apenas ela na estação? Não sei, não sei o que é mas soa-me a estranho. Quando eu tinha aquela idade e na pacatez da cidade de interior, o grupo colocava as raparigas em casa sem ser preciso alguém ter bebido o que quer que fosse. Era barulhento e passeava pelas ruas, uma tormenta para a vizinhança mas um sossego para os pais. Agora não sei muito bem o que sossega os pais. Os pais têm cada vez menos sossego e talvez até tenham razões para isso. Não quero generalizar, acredito que haja muitos bons amigos nos jovens de hoje. Quero até acreditar que aquilo foi uma situação pontual que por um mero acaso encontrei, onde se juntaram erros típicos da adolescência, todos convergidos num único momento. Mas é que se não foi só isso, hipótese também a considerar, alguma coisa está muito errada por aí.

4 comentários:

  1. Também não sei se é o padrão, mas que já vi muita menina pequena, às muitas da manhã, no seu carrinho de janela aberta no semáforo, vi...

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  2. Pois... E é preocupante. Ou sou eu que exagero, por vir do tempo em que não era nada assim...

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  3. E se é preocupante quando têm carro próprio e conduzem, ao contrário do que muitos pais pensam, é tão preocupante andarem de transportes públicos, sozinhas, à noite. E quanto aos amigos, creio que não são as amizades que estão em causa, mas as independências e as capacidades...

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  4. Percebo isso da independência, mas ainda assim, parece-me tão diferente a preocupação de uns com os outros. Presentemente, e tirando em contextos mais profissionais, não tenho adolescentes perto. Olha, espero estar enganada. Seria bom para toda a gente...

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