segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Vinil

Hoje falou-se de discos. The Wall dos Pink Floyd veio-me de imediato à cabeça, e eu lembro-me como se fosse hoje. O gira discos era plano e os vinis pequenos e grandes arrumavam-se ao lado, no móvel branco e azul. Do lado de cima repousavam medalhas arrumadas criteriosamente, exactamente ao lado do prato onde se liam dizeres de louvor. Nas molduras haviam fotografias séphia, onde os chapéus existiam nas cabeças das senhoras e os lenços emergiam de dentro dos bolsos dos senhores. Eram antigas, hoje não sei se ainda existem, dado que também algumas antiguidades se finam no tempo. Eu agarrava o disco sempre com primor, enquanto o borrifava com um liquido milagroso que o limparia do pós, dos grumos e das impurezas que pudessem prejudicar a recta leitura do som. Posteriormente colocava-o com cuidado, logo depois fazia descer a agulha com muita delicadeza e a música sempre tocava, sem demasiadas demoras. Nesse dia e perante um descuido meu, o disco riscou e passou a emitir um barulho estranho, sempre no mesmo local, que o fazia saltar devagarinho e continuar a marcha, uns acordes depois. Acho que nunca me perdoei desta inadvertência e a partir daí redobrei os cuidados. Na colocação da agulha iniciei uma manobra ao corpo, que me permitia espreitar o exacto momento em que a agulha tocava a superfície do disco e o começava a tocar. O movimento da minha mão era finalmente feito com o máximo primor que a minha destreza permitia, e nunca mais risquei um disco. Faz hoje anos, sei disso, muito embora não saiba bem quantos, nem vem ao caso.
O esmero das minhas mãos entretanto perdeu o préstimo. Para nada é preciso perante as modernas tecnologias que assolam as casas, as grandes superfícies, as lojas da especialidade, robustas e duráveis o suficiente para resistirem a atrozes provações. Mas não é igual a magia, ressalvando sem dúvida a supremacia da qualidade. A agulha no disco a começar, lentamente, enquanto o som nascia devagarinho debaixo das minhas mãos pacientes e prendadas, dava-me um sabor de triunfo que nos entretantos morreu. Porque há sentimentos onde só chegamos com o rigor da dedicação. 

2 comentários:

  1. Para além do rigor e da dedicação, o som do vinil continua puro e impar, face à avalanche digital. Igualmente puras e impares,as sensações de ouvir em primeira mão, e na época, estes vinis. Com os P.Floyd comecei pelo pouco conhecido "Obscured by Clouds" mas foi mais que suficiente para me tornar fâ. Estava-se em 1972, e o gira-discos, um Philips daqueles tipo mala, que muitas agulhas gastou :)

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  2. Não me lembro da marca do meu. Mas agulhas, sim, gastou muitas. Mais do que muitas... :)

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