domingo, 31 de julho de 2011

Do fim de semana

De ontem para hoje, já
- Fiquei com o carro fechado dentro de um parque de estacionamento, o que me fez lá voltar hoje, à boleia, para o buscar;
- Parti a varinha mágica;
- Quase parti a fechadura da porta, que abre e fecha, mas não está de boa saúde;
- Voltei a ver uma luz no meu carro, que há uma semana me fez deixar 80 euros no mecânico;
- Voltei a ouvir um barulho na máquina da roupa, que há cerca de dois meses, me fez gastar 150 euros.

Pronto, tinha de dizer isto em algum lado, sob pena de desatar aqui aos berros, se tal não fosse feito.

Da liberdade...

Desde a nascença, crescemos inundados de uma liberdade fictícia que chega a ser quase real. Gostamos de a apregoar ao infinito, dá-nos um conforto sedutor, do podermos escolher o que queremos, quando queremos, conforme nos aprouver. Esquecemos, por vezes, que a vida nos tolda. Em regras, em respeito ao outro, em opções, em sentimentos. E nos deixa com frequência num leque circunscrito, que analisamos, percorremos, e nos permite uma escolha que mais não é do que ínfima, e por demais limitada, perante a imensidão do mundo. Hoje a ser verdadeiramente livre em escolhas, não estaria neste sítio, estaria noutro. Juntamente com um outro conjunto de mudanças que faria, assente na tal liberdade que não tenho. Mas que por vezes julgo ter. Liberdade, é uma palavra estranha, que vai-se e ver nos limita, quase sem darmos por isso, para nos deixar no estado ilusório, mas muito agradável, do poder. Quantas vezes não deixamos de trilhar certos caminhos, porque quem nos acompanha, os não quer? Ou quantas vezes não somos nós mesmos, porque a sociedade nos aponta? Entre outros inúmeros exemplos. Mais não somos, na nossa essência, do que seres pequenos, circunscritos a um corpo e a uma mente construída por tantos outros, e donos de uma pequena margem de manobra, moldada, castrada. Mas gostamos muito de pensar que não, e somos tão mais felizes quando acreditamos nisso.

sábado, 30 de julho de 2011

O Piano

No meio da sala repousa um piano empoeirado, que denuncia a ausência de dedos a calcá-lo, tal e qual o corpo dela. Mesmo ao lado, um conjunto de pessoas conversam animadamente, no que lhe parece ser um aniversário de uma senhora, alta e roliça, que se pavoneia deliciada entre os convidados, envergando um vestido azul turquesa, muito curto e decotado. Os copos, tilintam numa orquestra sentida e ouvida, num movimento permanente de risos e de goles, uns doces, outros amargos, todos eles muito frescos. No tecto, inúmeros panos coloridos guardam um ambiente que se quer calmo e de cheiro forte, apenas perturbado por um ruído sombrio de vento, que entra nas frestas estreitas das janelas. Apetece-lhe sentar e tocar o piano. Ela, que nunca na vida tocou num. O banco, redondo e nivelado, parece-lhe de um conforto imensurável, no qual poderia por certo fechar os olhos, que ainda assim, sentiria e veria todas as teclas, unidas, lado a lado, mas tão particulares como nada mais. As mais graves, as mais agudas, as brancas, as pretas. Sente um desassossego. Passeia os olhos mais um pouco, na vã esperança de encontrar algo ou alguém, com mais intenso chamamento, temendo acabar por ceder, que o seu fraco corpo, dirige-se com força para aquele imenso objecto musical, numa ausência de vontade nunca vista. Perde-se um pouco no terraço, onde uma chuva miúda e teimosa fustiga uns candeeiros acesos, que abanam ao vento. O fogo da fogueira arde devagarinho, quase a sumir-se na agrura do inverno, que por vezes julgamos dormente, mas que sempre se encontra no exacto local onde deve estar. Volta com o olhar para o piano, e leva-lhe o corpo também. Afasta a flor que o enfeita, senta-se, e inicia uma melodia doce, e ao mesmo tempo intensa e muito ritmada, como se sempre se tivessem pertencido. Na envolta, ninguém a ouve, continuando o cenário centrado na loira viçosa que sorri. O piano, por sua vez, e sedento de toque, escorrega-lhe nos dedos. Fundem-se num tempo impreciso, de companhia perfeita, num instante infinito. No final da noite, deixam-se. Ela, abraçada por ele, como se das entranhas lhe tivessem nascido mãos, braços, e todo um corpo, ao invés de música. Ele, crivado de dedos pequenos e magros, no meio da densa poeira que o cobria.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Mar

As dunas vêm-se longe. No jardim, algumas palmeiras, muito altas e secas, descasca-se aos poucos, quase parecendo que lhe fazem jus à existência, que também ela, a cada dia, perde um pouco da carapaça que lhe segura as entranhas, os ossos, a alma. Debaixo delas, bancos de cor violeta servem de assento a quem procura uma sombra escassa, preciosa nos dias assim, que fora da guarda, um sol escaldante penetra nos corpos de quem se aventura à travessia, forte e violenta, da qual apetece fugir. Uns sozinhos, outros acompanhados. Ela está sozinha. Atravessa o caminho quente e húmido, e no fundo, umas escadas íngremes dão-lhe o acesso a um areal branco e fino, cravejado de nada. O mar, de um tom azul forte, zanga-se muito. Ela fica a a ouvi-lo, e quase que o escuta. Disseram-lhe em tempos sabiamente, e se há coisa que sempre lembra, são os ensinamentos de quem muito já viveu, que a natureza nos diz muitas coisas. Queira-mos nós ouvi-la. Este mar diz-lhe que é grande, e ela pequena, mas ela, não acredita, que sente-se imensa, ainda que crivada de nascidas negras e dolorosas, daquelas que ninguém vê, mas capazes de a espremerem até à mais ínfima gota de sangue. Põe um chapéu de palha azul, e deixa-se estar, perante a afronta. Ele, ao invés de fraquejar com a estranha fortaleza que emana daquele pequeno ser, insiste, mostrando-lhe a zanga nas rochas duras e maciças, que a pouco e pouco, e não obstante a solidez que demonstram, nele se desfazem esvaindo-se em areia, pequena e mortiça. Ela, ao invés de o aceitar, de lhe reconhecer a supremacia mais do que notada, e o poder descabido, sorri-lhe. Ao longe, passa um velho, que devagarinho se aproxima. A pele está escurecida e rija, tal e qual o reflexo do que lhe vai dentro. Sorri-lhe quando passa e segue caminho. Ela levanta-se e vai embora. No jardim das palmeiras e dos bancos violeta, tudo se encontra no mesmo sitio, ou, se tanto, ligeiramente mais ao lado. Entra e aninha-se no quarto fresco. Adormece. Quando acorda, relembra o mar que tanto lhe quis dizer. Pensou com uma clareza espertina, que nada novo lhe trouxe. Resolveu ir ouvi-lo outra vez.

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