Os treinos da bola estão suspensos. A grupeta desresponsabilizou o lombo, foi de férias, foi esquecida, foi demitida, achou por bem encostar ao sossego no dia da competição. Houve quem dissesse que a mãe não quis acordar cedo, é uma necessidade como qualquer outra, e o Domingo é dia de descanso, excepto para quem reza cedo na casa do senhor. Sinto-me mais ou menos no meio da guerra, estou careca disto no dia a dia, mas desta feita tocou-me cá dentro. Parte considerável da criançada investe com responsabilidade. Treina com afinco, acorda cedo para jogar, veste a camisola e atira-se de cabeça quando o adversário insiste, dá gosto de olhar a garra de equipa e, quando necessário, o bom perder. Eu, mãe, vou de arrasto e por dedicação. Coloco o despertador mais cedo do que na semana, visto-me de ténis e casacos quentes, percorro os pavilhões do pais e sento-me nas bancadas geladas, enquanto o vento uiva lá fora e a claques gritam cá dentro. Antes levava o jornal, depois deixei-me disso. Agora via tudo do principio ao fim, e batia palmas a todos, vencedores e vencidos, sem qualquer ponta de distinção. Fiquei no meio da barricada, insisto. Os treinadores não perdoaram as faltas sucessivas sem avisar e avançam com paragem obrigatória: não há mais treino, pelo menos por enquanto. Os pobres resistentes choram no carro enquanto me esperam. Os fugitivos do costume já fugiram há muito, são previsíveis os que se escondem para sempre. O desporto de equipa é isto mesmo, convém saber: ou há equipa ou não há jogo. A vida também caminha neste sentido, é um facto, e também convém ensinar desde cedo que por culpa de quem falha, perdemos todos. É justo? Não, não é. Mas não é possível mudar o mundo, nem no campo nem na estrada. É perder, aprender, chorar e avançar.
O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
segunda-feira, 4 de abril de 2016
regresso à escola
O regresso à escola foi animado. As comparações de notas surgem em primeiro plano, os cinco injustos, os quatro assim assim, os três à rasca, os dois misericordiosos, os uns verdadeiros. Gosto muito de matemática para compreender o mundo científico. Aprecio a medida onde nos leva o conhecimento da biologia, os mapas de genes, as fórmulas que descobrem a cura do cancro, que permitem combater as demências, que nos possibilitam aperfeiçoar a técnica perfeita do rigor universal. Mas transformar conhecimentos em simples números absolutos nunca me fez muito sentido. Até porque, e bem vistas as coisas, ainda encontro poucos professores preocupados com a contabilização do que os jovens realmente necessitam, e ainda descubro, infelizmente, muitos pais pouco atentos à percentagem de alcance de felicidade. Vivemos todos numa era em que é mais importante um 100 a português ou a matemática, do que um 70 a satisfação pessoal, crescimento saudável e paz. Estarão certamente enganados, equivocados, centralizados no foco errado. Se todos caminhássemos para a evolução abrangente da diferença, em vez de corrermos para a uniformização das criancinhas, todas vestidas de igual, no colégio da elite, chegaríamos muito mais acima no conhecimento interno de cada um: o que mais importa para o crescimento do mundo, só os cegos do capitalismo não conseguem ver isto.
(O meu afilhado tem dois anos. Trouxe uma checklist infinita de pequenas aquisições, divididas entre quase conseguida, não conseguida, conseguida e perfeitamente conseguida. Fico feliz ao saber que ele consegue saber três cores, dizer um número de palavras que não me lembro bem qual é, reconhecer alimentos, e agarrar nos talheres como gente grande. Fico também bastante satisfeita pelo facto dele obedecer a algumas regras. Mas agrada-me muito mais saber que ele não obedece a todas, foge do comboio quando lhe dá na real gana, cospe as carninhas da sopinha, e berra quando lhe tiram os brinquedos porque "ainda não sabe partilhar". Um dia vais aprender meu querido, tens todo o tempo do mundo. E não, não tem de ser quando a tua educadora quiser, tem de ser quando a vida te ensinar e tu estiveres na altura de aprender.)
Não fui à reunião de notas do meu filho, que por sua vez só hoje foi espreitar a pauta. Irei assinar o papel um dia destes. Ele não se lembra muito bem o que teve ao quê, esqueceu-se, mas sabe que é suficientemente responsável para crescer, e que no meio desta selva toda vai bem, obrigada. Fico feliz por ele, por mim, e por toda a comunidade escolar que consegue manter-se saudavelmente em paz, no terrorismo educativo da sociedade.
domingo, 3 de abril de 2016
dedicação
O processo é usualmente rapidíssimo. Há instantes que se cravam na memória e ganham toda uma vida, na mira de se tornarem realidade todos os dias, como se se repetissem sem cessar, um martelo, só podem ser um martelo que insiste e persiste à revelia do querer. Adornam-se de um conjunto de artefactos de um poder incrível, os nossos sentidos, e assim permanecem no corpo, intrusivos, sempre que calha, que acontece, lhes apetece, lhes dá para aí. Deveria ser mais fácil matá-los, mas na verdade conseguem ser mais consistentes do que o presente que me entra pelos olhos, simples e quase perfeito, e ganham toda uma existência própria dentro da minha cabeça embotada. Sou por isso capaz de os reviver vezes sem conta, sinto-lhe o cheiro peçonhento, o ruído ensurdecedor, as cores de um negrume impossível, a lentidão com que me percorrem por dentro, como se de uma tortura se tratassem. É claro, sei de fonte seguríssima que os posso matar de uma vez. Sei que é possível atordoá-los com veneno, qualquer um dos mais mortíferos, e prosseguir sem que os segundos danados continuem a rodar no filme que teima, excessivamente grande, cá dentro. Um dia destes dedico-me a mim, preciso de me dedicar também a mim. Nesse dia talvez volte a escrever, muito sossegada.
domingo, 13 de março de 2016
sossego
Quando existem avós, os pais deveriam ser "obrigados" a incentivar a relação destes com os netos. Não sei se consigo imaginar o que eu seria hoje sem ter passado por eles, e há marcos que ainda me seguram ao colo. O colo, ao contrário do que muitos julgam, pode ser muita coisa para além de uns braços e umas pernas, onde nos sentamos quando temos medo, quando lanchamos ou quando ouvimos uma história. Um colo pode ser tudo o que se guarda no peito, enquanto o tempo passa e nos leva as pessoas que afinal permanecem para todo o sempre na nossa memória. Tive os melhores avós do mundo, e duas delas, já mortas, faziam anos neste mês. Delas guardo a máquina da qual vos falei ainda agora, guardo tapetes de Arraiolos, guardo receitas de doces mas aguardo, acima de tudo, todo o amor que elas tiveram para me dar, com a paciência que só os anos agiganta dentro da pele, das mãos, dos cabelos e dos olhos. Há coisas na natureza quase perfeitas. Os tempos em que existimos, por exemplo, é uma delas. Somos filhos primeiro, pais depois, avós na hora em que a perfeição do amor ganha corpo e espírito. Com dedicação, calma e tempo. E por isso constroem-se rostos que nunca mais se apagam, escritos pelo tempo que passa sem parar. Uma pressa que só a memória guarda em sossego.
terça-feira, 8 de março de 2016
máquina de costurar
Veio cá para casa a máquina da costura da minha avó. Antiga, a pedal, envernizada e pintada, pronta para coser calças, camisas, saias, botões e folhos, joelheiras e cotoveleiras. Nada me fez cair ao chão, até ao momento em que abro a gaveta e encontro os pertences velhinhos da sua dona. Carrinhos de linhas de várias cores, um dedal, uma fita métrica, um saquinho com botões, tudo com um fortíssimo cheiro a Albertina. Não posso dizer que caí redonda, mas devo confessar que precisei de sentir as tábuas do soalho a ancorarem-me o corpo frouxo e o espírito. Não sei ao certo para onde fui naquele momento. Se para o sótão da casa dela, se para o hospital onde a vi respirar pela última vez, se para o cemitério onde o meu avô chorava com olhos de horror, quando a viu descer à terra. Somos pequenos, somos mais pequenos do que um bago de milho, dizia ela. Se ela não tivesse sido tão infinitamente grande, seria obrigada a concordar com isto que dizia. Completamente.
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