sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

busca

Grupos de mulheres são um mundo que reúne a veracidade dos opostos. Ali convergem inúmeras reacções, que encerram construções, ambições, sentimentos, projecções. Há alguns com os quais me identifico, elegem o amor e o sonho, posso acreditar ou não, mas gosto muito. Há os que se concentram na prática do quotidiano, os filhos, a casa, o supermercado mais acessível, a receita mais eficaz para a tosse. Há os que se concentram na futilidade, um território alargado e inexplicável que por vezes mata tudo quanto é verdadeiramente importante, uma espécie de vazio vestido ao rigor de uma festa com direito a passadeira vermelha, dress code, e discursos que falam sobre a fome no mundo, os animais em extinção e a fragilidade do planeta. Não sei porquê, quase todos me confundem, quase todos me fazem afastar o quanto posso da generalidade do meu género. Escapam-se muitas, novas, velhas, analfabetas ou universitárias, ricas ou pobres, sociais ou solitárias. Que conseguem olhar para a consubstancia do mundo e falar dele com o sentir de uma mártir, com a sensibilidade de um toque ao de leve, com a consciência, clara, das forças opostas, e com a vontade, inabalável, de ainda assim continuarem em busca delas. 



quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

mundo

A moral do ano é infinita. O balanço pertence a cada um, que não exista ócio na hora de nos debruçarmos sobre nós e sobre os outros. Retirei dele inúmeras situações, poucas conclusões, algumas memórias internas e eternas para a minha vida. Estou grata por tudo, é um facto, curiosamente muito grata por algumas coisas menos boas que sucederam. Nunca como hoje tive definido com tanta certeza, o que quero ter longe de mim. Com respeito, porque o mundo abraça todas as opções de vida, claro. Mas eu não sou o mundo, sou só o meu mundo e o dos meus. E é tanto, que me chega.

sábado, 12 de dezembro de 2020

certezas

As certezas absolutas são mais privadas do que o nosso corpo, por isso acreditamos tanto nelas. O nosso corpo é partilhado pela vida, pelos outros, molda-se a um abraço, a um toque, a uma esquina cheia de gente ou a uma rua vazia, carregada de nada. As certezas não. Formam-se na mais interna existência, ganham consistência com os dias, com a verificação da verdade, com o cristalizar da guarda e com as crenças que se afiguram como o caminho preciso a seguir: é por ali. Curiosamente, traem-nos à velocidade da luz. Quando menos esperamos, quanto mais certos estamos, à custa de pouco ou de nada, eis que se anulam a elas próprias, fátuas como a neblina, como se nos quisessem fazer consciencializar que a volatilidade é a única certeza do mundo ( o que transforma a dúvida, na única e permanente verdade).

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Vitória

Sentado à minha frente, com o seu metro e sessenta, quase me aniquila o engenho. Sorridente, bem falante, bem disposto e bem sucedido, articula as palavras com uma simpatia inusitada, como se de repente deixasse de ser quem é e se tornasse em outro alguém, distante da prepotência usual. Estou habituada a eles há muito tempo, mas curiosamente senti-me fraquejar. A primeira sensação foi de medo. O que seria aquilo, estaria eu doente, fraca, dependente ou pouco eficiente? Por que raio agora, anos volvidos, experiência feita, postura identificada, diagnosticada, atestada e comprovada, vergo que nem uma vara, capaz de dar o benefício da dúvida à cruel criatura que se senta à minha frente? Parei para pensar. Sosseguei as dúvidas, serenei a esperança, recuperei o fôlego tropeço e levantei a guarda, a única que sempre me salvou em aflição. Funcionou, contas feitas, tudo acabou bem. A criatura, imponente na astúcia, mas parca em real engenho, terminou a guerra ciente da vitória. Eu, cabra velha e manhosa, deixei-a a acreditar nela.   


Não há nada que me dê mais gozo, do que as medalhas que ninguém vê.  

segunda-feira, 27 de julho de 2020

calor

O calor apanha-me sempre desprevenida. Nunca o espero, tento sempre trocar-lhe as voltas, finto-o, recuo, escondo-me na esquina da primavera, disfarço-me dentro de casa, à guarda dos livros, das paredes, ou na rua, ao abrigo de algumas árvores que me olham de perto, barulhentas e vivaças. Hoje alcançou-me ao fim do dia, quando já menos se espera, quando o sol já se escondia e o vento tentava entrar, mortiço e apagado. Na natureza as forças encontram-se todos os dias, numa batalha invisível a olho nu. Num dia vence a força, no outro a inteligência, no outro a verdade, no outro o amor. 

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