quarta-feira, 21 de setembro de 2016

solitária

Tenho pacientes que, sem saberem, me curam a alma. Olho para eles sempre de baixo para cima, eles é que se julgam precisados, estão redondamente equivocados. Miro-os de muito perto, escuto cada pestanejo, espreito por cada encanto, cresço em cada tremelico. Bem sei, sou uma profissional egoísta que se alimenta da infelicidade alheia, mas não é esse o fundamento, e na verdade esta visão não passa de um humilde reconhecimento. Ainda hoje, por exemplo, só tenho de agradecer à Dona Regina. Viúva há muito, ronda uns setenta mais inteiros que muitos quarenta. Traça-me o perfil dos filhos e dos netos com um rigor de raciocínio que me chega a espantar. Confessa-me uns pecados insignificantes, com uma censura brutal. Espreita-me por entre os óculos à procura de respostas que não tenho, e dá-mas, de bandeja, no minuto exacto da circunstância. Não costuma colocar pés em falso, raramente despe o casaco, fica sempre com a mala no colo, e chora poucas vezes. Lê compulsivamente todos os livros que pode, e nem sempre em papel. Passeia uma vez por semana para fora do retiro, por obrigação, julga que morre menos em vida, se o fizer. Apadrinha cães e gatos, fala com um vizinho que é a única fonte de ligação ao mundo, muitos dias da sua vida. Descobriu há pouco, há muito pouco, um pouco tarde demais, que se enganou, e que afinal não é tão feliz como julgava ser em tempos, quando tudo parecia engrenado numa carruagem. Hoje, e após a terrível descoberta, concluiu que não quer morrer tão cedo, e que gostava de cá andar por muitos e bons anos. A comer latinhas de atum, que cozinhar não é lá com ela, a passear umas vezes por ano, a descobrir as novas tecnologias e a percorrer livros sem fim, pelo início, pelo fim, mais rápida do que um avião, mais lenta do que uma tartaruga, mais ardilosa do que uma pulga. Pela parte que me toca, acho-a mais feliz do que o que ela julga ser, mas posso estar a exagerar. Que gosto muito de a encontrar, para partilhar as boas leituras, é um facto. Não há melhor conselheira no mundo do que uma mulher solitária que goste de ler.  

2 comentários:

  1. eu também gostaria de encontrar essa senhora para partilhar livros :)

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    1. :) É maravilhosa, de facto. Toda ela é uma história, Laura...

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