quinta-feira, 23 de março de 2017

beleza

Depois do abandono tive um mau pressentimento. Achei que nunca mais na vida ia voltar a ficar inteira, aquelas palavras tinham-me arrancado um bocado enorme de juventude. Ao contrário do que se pensa a juventude não morre com os anos. Com os anos morrem as células do corpo, morrem os cabelos que enfraquecem e desistem da vida, morre a pele que endurece e mirra as veias, que parecem cansar-se de continuar a correr. Com a juventude não é assim. A juventude talvez seja dos poucos conceitos que aceita a eternidade no verdadeiro sentido da palavra eterno. O meu bisavô foi eternamente jovem, e assim permanece na minha memória. A minha bisavó foi eternamente velha e nunca rejuvenesceu, nem depois de nova, nem depois de velha, nem depois de morta. O meu marido disse-me outro dia que me tinha trocado por outra mais novinha, se é que se lembram. Disse-o com um ar sossegado a olhar as minhas pernas, como se dos olhos deles emanasse um instinto protector, escondido pela força do amor que lhe nasceu por outra. Ele não tem a culpa do que sente, já o compreendi, já lho disse bem perto dos ouvidos, baixinho, tal e qual ele me segredou o terrível delito, uns dias antes do meu perdão. Mas na verdade, fiquei terrivelmente assustada. Fiquei com umas ânsias de peito aberto, como se o sangue bombeasse desorientado em redor do meu coração, como se no cérebro algum mapa se perdesse no território do inimigo, como se acabassem de me levar para sempre as minhas mãos enfezadas, as únicas capazes de me fazer caminhar na direcção do infinito. Respirei fundo e assoei o nariz com um lenço de papel lilás com cheiro a alfazema, os meus preferidos desde sempre. Dobrei-o com muito cuidado e voltei a guardá-lo no bolso, mesmo ao lado de um rebuçado de pinhão doce, e recomecei a pensar no que afinal morrera. O que morreu não fui eu, não foi a minha juventude, não foram as minhas mãos. O que morreu não foi o meu amor, não foi a minha paixão, não foi a minha vontade de percorrer os seus olhos ao infinito de mim. O que morreu não foi a minha esperança, não foi a minha sorte, não foi a minha fraqueza ou a minha força. O que morreu foi a minha arte, e com ela todos os meus quadros, todas as minhas esculturas, todos os meus livros. E morrendo a arte, morre a beleza.  

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