terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

marido

O meu honrado marido informou-me ontem que me tinha trocado. Disse-mo com cuidado e jeitinho, ao ouvido, enquanto me passava as mãos pelos cabelos e repousava os olhos satisfeitos nas minhas pernas. Não o pude levar a mal, muito menos quando ele me disse que a menina era muito novinha, mais quente, mais bonita, certamente muito mais interessante do que eu. Ouvi as suas palavras e fiquei a chorar baixinho, não fosse ele perceber a ânsia que me engolia o corpo, velho e já cansado, submisso, longe dos tempos em que acordava para lhe satisfazer as vontades. Fiquei a mastigar o assunto durante toda a noite, sozinha, enquanto a folia carnavalesca percorria as ruas do sambódromo, com mulheres semi-nuas a dançar para os foliões. Não consegui espreitá-las, eram muitas, lindas, esbeltas, vestidas de plumas de pássaros mortos, com lábios vermelhos e pernas longas, um hino ao desejo que morrera ainda agora, mesmo ao meu lado (tive muita pena, não deve haver no mundo um espectáculo mais bonito). Mais ou menos a meio da noite, cansada das minhas próprias palavras, decidi ir bebericar um chá. Sentei-me na mesa da cozinha, levantei as persianas e espreitei para a rua, enquanto continuava a repetir, devagarinho, a despedida. À medida que as palavras se reproduziam na minha cabeça, fui-as escutando sempre de forma diferente. Umas vezes vinham com um sabor avinhado, outras com um travo mais amargo, tudo dependia se olhava para a noite, se imaginava o dia, se encarava os olhos do meu marido ou se imaginava a menina, escurinha, esbelta, de cabelos longos e sorriso forte, a olhar para ele num desassossego. Escutei-lhe as palavrinhas todas, uma por uma, as dele e as dela, gemidas no silêncio da noite, no leito bastardo, do lado de dentro da minha imaginação. A dada altura levantei-me e fui para cama cansada de ouvir as vozes, mas em minuto nenhum algum deles se apagou em mim. Ressoaram os dois noite adentro, muito para além do cansaço, já o Carnaval ia longe e os copos estavam vazios, já a madrugada crescia, já o sujo comia o chão. Não há realidade pior do que a imaginação. Corta, entranha-se, vive-se e sente-se o cheiro forte da traição. A dor ganha cada vez mais forma, sempre mais direcção, num desgoverno sem morte certa, sem que alguém lhe deite as mãos. Liguei-lhe, e ele foi muito meu amigo. Deixou-me encará-la, precisava de a sentir, de lhe escutar o corpo, de ver a fonte da perdição, de matar de uma vez por todas o motivo do meu delírio sem fim. -Tem calma, disse-me, mais uma vez com cuidado e jeitinho, muito perto do meu ouvido. -Preciso de cuidar dela como quem cuida de um flor, faz-me feliz. Sorri-lhe e deixei-os em paz. Um homem que cuida de uma mulher deve amá-la de verdade. Nenhuma outra tem o direito de se atravessar no caminho. 

4 comentários:

  1. Respostas
    1. :) eu engulo muitas histórias, todos os dias. Ficam um bocadinho minhas e por vezes acontece isto...

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  2. Eis o perigo das imaginações férteis e delicadas, é-lhes tudo permitido, da imensa dor à mais fervilhante alegria. Gostei muito deste texto delirante - às vezes esqueço-me como o meu Amor escreve bem. Culpa minha. Beijos por aqui também. :) **

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    1. A imaginação é grande parte do mundo interno de cada um... :) Ó, um elogio todo o tamanho, vindo de um mestre... Deixa-te disso, anda... Beijos...*<3

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