sábado, 4 de fevereiro de 2017

da ordem do dia

Mudo de opinião as vezes que considero necessárias para crescer. Não me incomoda desdizer-me, encontrar outras lógicas que me governem, cair redonda nas malhas das minhas próprias ideias e procurar outras, que neste exacto momento me orientem os caminhos. Os cuidados paliativos e a eutanásia são terrenos que já tiveram de mim vários olhos. Já os olhei com conformação, já os questionei na utilidade, já me virei ora mais para um ora mais para o outro, já fiz uma vénia forte ao cuidar do corpo, e já considerei que o melhor era matá-lo. Hoje, ao ver debates e opiniões, considerações e análises de quem sabe e de quem nunca viu, mas julga que sabe, debruço-me outra vez, capaz de considerar ambas como uma realidade do homem, mas de difícil execução. 

Cuidar de um outro é difícil. É deixar de sermos o centro para passarmos a ser o cuidador, como se na nossa casa chegasse um bebé acabado de nascer e com hora marcada para comer, para medicar, para limpar, impedindo a família de viver e redimensionando o conceito de morrer, de culpa, de zanga, de medo. O sofrimento dos que amamos, e por vezes dos que nos competem e nem amamos tanto assim, entra dentro do nosso corpo e aloja-se num locar secreto de onde não quer sair, compilado em cheiros, em experiências, em traumas e em gestos bruscos, e por vezes estranhos, muitísimos estranhos, a quem sente e a quem vê. 

Quando os vamos olhar num local paliativo onde a dor é controlada ao milímetro dói talvez um pouco menos. O barulho das máquinas dá-nos a segurança de que a dose certa bate na hora exacta, e o peso diminui na proporção do sossego: está tudo a ser feito. Mais uma hora e a visita termina, uns minutos e consigo respirar outra vez, fora do inferno da doença e da velhice, mais entranhado do que o sangue. Mas fico de fora, meu Deus; fico na culpa do deveria ter estado, deveria ter feito, deveria ter dado e deveria ter suportado.  

Não gosto de nenhuma das opções, porque não gosto de assistir ao sofrimento. Não aprecio nenhuma das ideias porque o limite da vida é um lugar onde a mãe natureza diz que podermos cair, num caminho onde as pedras da calçada furam os joelhos e as canelas, picam os choros, e empurram para o lado aquela paz, que num rompante desapareceu. Mas ainda assim, considero que serei sempre alguém a quem não competirá, em momento algum da minha existência, escolher a morte a alguém. Já vivi e vi a dor de muita gente. Já afaguei almas e vidas quase mortes, e já encontrei sofrimentos mentais tão mortíferos como o mais temível dos males do corpo. Por isto não os considero menores do que as limitações físicas que possam suceder, e talvez devido a esse facto os respeite muito além do que são usualmente considerados. Encarar um paliativo deveria ser uma ordem global, no corpo, na alma, pois matar para aliviar a dor é uma escolha delicada. Que dor se matará? Qual o valor do teu grito, o alcance do teu desespero, o limite da tua resistência? Onde dói mais? Nos teus membros parados, na tua incapacidade de movimento, ou na tua ânsia delirante que te suga a força e a vida? 

Os meus dedos não sabem avaliar quando se deve permanecer e quando se deve morrer. São de uma ignorância suprema quando se trata de considerar os meandros da natureza, os trilhos escolhidos por uma divindade, o nascer e o morrer como génese da humanidade. É indigno uma fase terminal? É indigna uma paralisia total? É indigna uma depressão profunda, com tendências suicidas? É indigna a dor de um luto, mais gigante do que um Deus maior? Ultraja-me que falem de dignidade com leviandade. Isso sim, é indigno e ignorante. 

(Um corpo preso numa mente viva pode ser brutal. Uma mente doente presa num corpo saudável, pode ser mortal.)

9 comentários:

  1. É um tema tão difícil mas muito discutido com a certeza na voz. E é um tema tão triste. Dúvidas, muitas, sobre o que será melhor, a analisar cuidadosamente, caso a caso. Certeza, só uma:terão de ser pessoas muito especiais a decidir.

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    1. Difícil sim Goldfish. Só não sei se haverá pessoas dessas, assim tão especiais...

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  2. Esperava muito mais de uma pessoa que se diz psicóloga.... com tantas licenciaturas dessas nas privadas só li floreados e banalidades. Olhe, um desapontamento este seu enorme texto! Pobre país o nosso....

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    1. Obrigada Maria. Já tinha saudades suas, confesso!

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    2. Entrei aqui no final da hora de almoço e assustei-me, tenha em conta CF que assino sempre como o meu perfil, nunca com um nome que não dá acesso ao meu espaço, portanto a pessoa que assinou como Maria Madeira, evidentemente, que não sou eu. Começo a achar isto da blogosfera um bocadinho perigoso. Enfim!

      (se tenho o seu blog na minha alista de blogs é porque gosto de a ler, no entanto a lista de blogs pode ser um passo para fazer entrar através dos links, gente com muito mau carácter, lá terei de rever isto da lista de blogs, este tipo de coisas só tira a vontade de uma pessoa gostar de escrever)

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    3. Maria, gente estranha e má, há muita. Eu tinha percebido isso do link, de alguma forma, nem dei crédito ao assunto. Obrigada por rectificar... :)

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  3. pois este assunto é muito particular, frágil e merece todo o cuidado...

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    1. Merece sim... E respeito, que nem sempre tem...

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