sábado, 11 de fevereiro de 2017

respeito

Lá fora chove uma chuva muito fria que insiste em baptizar-me a testa. Sou descrente nestas coisas, já lhe disse, mas parece que se esconde sempre nas nuvens que estão mais perto, na mira de que eu apareça. Chego a pensar que é defeito de profissão. Aquele, que me obriga a perdoar quase todos os males, a tentar compreender a maioria das incompreensões, desculpar todos os pecados, todas as ambições, grande parte das dificuldades, muitas obsessões. E sendo assim limpo sempre todas as águas que pingam de olhos, venham elas carregadas de bem ou de mal, misturadas em lixo ou em amor. Deve ser disso, concluo, perceberam que me debruço sobre elas sem discriminação e vertem-se frias, sem medo nenhum, molhadas, furam-me o chapéu de chuva, os cabelos, escorrem-me pela testa e caem velozes no chão. Na porta estava um homem incompreendido e mutilado de muitas formas. Nunca compreendi a divisão do mundo, nunca lhe dei amparo na minha compreensão, escapar-me-à sempre ao meu entendimento. O senhor é órfão de pais desde criança. Não tem uma perna desde adolescente, o resto da saúde deixou-o nem sabe quando, no inicio da idade adulta. Um dia destes morreu-lhe a gata, clandestinamente, sem aviso de chegada, muitas faltas para um corpo só. Agora e devido a isso tem medo de encomendar outra, diz-me de olhos perdidos, no meio de uma sala cheia de livros, que devora no meio do pó. Foi estudante de sociologia, mas nunca percebeu a sociedade, confessa-me, muito certo da sua inteligência, nada convicto nos valores que o levaram a enveredar por tal orientação. Vim com esta na cabeça, com a gata e com o pó. Será que decidimos estudar o que gostamos, ou será antes o que nunca na vida compreenderemos? Terá várias interpretações, suspeito. Pela minha parte é a segunda, nunca compreenderei a humanidade. A natureza, por exemplo, e apesar de distante da minha inteligência, consegue fazer-me muito mais sentido: hoje chovia muito, faz falta ao ambiente. A morte faz parte da vida, seja de bichos ou de pessoas, dói sempre muito mais do que o esperado. A nossa capacidade de imaginação está longe de abranger a realidade, quando esta resolve impor a forma da força. Talvez por isso não concebo que necessitemos de incrementar o mal a nosso prazer, nunca deveríamos ter o direito de deturpar qualquer coisa na vida e na natureza, elas chegam por si só. Resumindo: onde não posso mexer, respeito. Onde posso tocar, respeito também. 

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