domingo, 19 de fevereiro de 2017

crescer

Os anos vieram dizer-me o que já tinha encontrado há muito nos livros de alguma sabedoria: o amor constrói-se por lugares e pessoas, não pela beleza essencial de cada uma delas, mas pela simbologia e significado. Voltei lá outro dia, à minha praia. Uma praia despretensiosa, com mar e com sal, com pouca modernidade, longe de águas quentes e de climas temperados. É senhora e dona de canas e azedas que se podem comer sem medo, mais ou menos como os sonhos que me desperta de cada vez que lá passo ao pé. Não serão bem sonhos, serei eu. Não serei só eu, será a minha história, que pertence a mim e a quem a viveu ao meu lado. Já fui a inúmeras praias mais belas. Já mergulhei em ondas bem menores, mais quentes, mais confortáveis, com menos cheio a abandono. Já passeei por areias mais finas, enfeitadas com palmeiras, e já me deitei debaixo de um sol mais quente, mais luminoso, mais cor do sol. Já tive menos medo de entrar no mar, a minha praia não é para brincadeiras, mas permite que eu brinque com ela, ao olhá-la e recordá-la desde que me lembro de existir. Nela vi crescer a minha mãe e o meu pai, vi crescer as minhas avós, vi crescer os meus primos, o meu filho, a minha vida. Vi todos eles a crescer dentro de mim, cada vez mais inteiros, cada vez mais meus, cada um deles num sítio do areal. O meu pai comigo ao colo, a saltar as ondas grandes. A minha mãe a construir poços na areia, a crescer ainda hoje, já avó. A minha irmã a tomar banhos gigantes de engelhar a pele dos dedos e o meu filho, a mergulhar bem fundo, enquanto eu desespero na esperança de lhe encontrar a cabeça, perdida no meio da espuma branca. A minha avó cresceu até morrer. Sempre a contar-me lendas, a fazer doce de tomate fresco e café de cafeteira bem forte, a fazer renda na areia e a apanhar sol nas costas velhas e encurvadas. A propósito, tinha umas costas lindas a minha avó. E um sorriso que, tenho a certeza, não cresceu em mais ninguém como cresceu em mim. A magia da vida deve ser mais ou menos isto: ninguém nos tira a nossa história, sempre a mais bonita, escrita pelos dedos da memória. Grande. Crescida.


8 comentários:

  1. revejo-me em cada palavra. obrigada CF.

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  2. Acho que também cresci um bocadinho ao ler isto. :)

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  3. Verdade, ninguém nos tira o que escrevemos em vida na memória. Mas, às vezes, ir às gavetas dessa memória...custa!

    muito bem escrito este texto!


    bom dia

    -___-

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    1. Obrigada Moonchild. Custa, muitas vezes custa. Custa na altura, mas o bem estar posterior ganha quase sempre. Fico tão em casa...

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  4. e a nossa memória é capaz de escrever as coisas mais bonitas!

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    1. A nossa memória é a nossa vida, Laura. É de uma beleza maior... :)

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