domingo, 7 de maio de 2017

invisível

Fui mãe muito mais cedo do que aquilo que o meu corpo sabia e dizia. A maravilha da natureza é que há funções para as quais se automatizam os gestos, como se fossem um respirar, e no minuto em que o coloquei cá fora fui aprendendo, a seu tempo e a nosso modo. Aprender a ser mãe não é como se lê nos livros, não há livros, não há saberes, não há palavras sábias de quem já foi. Aprender a ser mãe é um processo dual sem fim, que se aprende em cada dor, em cada caminho, em cada vitória e em cada medo, enorme, de que o passo tenha sido maior do que as pernas que Deus nos deu. Não é, nunca é, Deus dá-nos as pernas que precisamos para andar sempre um passo ao lado de quem vemos crescer. Nunca demasiado perto, sempre numa distância segura onde o voo se equilibra na medida exacta do conforto de um colo, onde não se cai senão quando tem de ser, onde se avança, onde se olha para trás, onde se espera, sempre sempre a alcançar qualquer coisa de grande, em nós e nos nossos filhos. Não sei muito bem qual será o objectivo final de todos os caminhos desde que comecei a perder as minhas segundas mães, desde que elas me deixaram sem elas numa estrada que me liga à sua história com um traço continuo, mais grosso do que uma corda de marinheiro. Nesses dias percebi que as pessoas que amamos podem deixar de estar aqui, mas que na verdade a memória do que guardamos pode ser o bem mais precioso das raízes que nos seguram à terra, e que enquanto houver memória e narrativas de história, nunca ficarei sem colos onde me deitar. É também nesta ausência de corpo presente que preciso de me sentir, o amor também se faz na ausência física do quem nos quer todo o bem. Porque só sabendo que estamos quando não somos vistas, só sabendo que voltamos quando não estamos ali, só dando a segurança do adeus que sabem ser sempre só por um bocadinho, damos aos nossos filhos a possibilidade de crescerem num mundo onde podem ir até ao infinito, quer saibam para onde seguem, quer procurem para onde vão. O amor das mães tem tanto de visível quanto de invisível. Por isso é único, por isso é eterno, por isso acompanha os filhos num colo impossível de explicar, nas imensas palavras que a minha mãe me ensinou.

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