quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Vitória

Sentado à minha frente, com o seu metro e sessenta, quase me aniquila o engenho. Sorridente, bem falante, bem disposto e bem sucedido, articula as palavras com uma simpatia inusitada, como se de repente deixasse de ser quem é e se tornasse em outro alguém, distante da prepotência usual. Estou habituada a eles há muito tempo, mas curiosamente senti-me fraquejar. A primeira sensação foi de medo. O que seria aquilo, estaria eu doente, fraca, dependente ou pouco eficiente? Por que raio agora, anos volvidos, experiência feita, postura identificada, diagnosticada, atestada e comprovada, vergo que nem uma vara, capaz de dar o benefício da dúvida à cruel criatura que se senta à minha frente? Parei para pensar. Sosseguei as dúvidas, serenei a esperança, recuperei o fôlego tropeço e levantei a guarda, a única que sempre me salvou em aflição. Funcionou, contas feitas, tudo acabou bem. A criatura, imponente na astúcia, mas parca em real engenho, terminou a guerra ciente da vitória. Eu, cabra velha e manhosa, deixei-a a acreditar nela.   


Não há nada que me dê mais gozo, do que as medalhas que ninguém vê.  

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