O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
segunda-feira, 7 de março de 2011
Da dúvida
Tratou alguns que envergavam um fato branco de bolas pretas. Eram dálmatas, passaram por vacas. Escuso-me a estes riscos. Não houve qualquer dúvida, de que eu era bruxa.
domingo, 6 de março de 2011
Divagações

Olho a envolta e quase admito a harmonia, podendo salpicar de paragens o meu caminho, num embalo de berço, num beijo doce, num afago à cara de um velho. Meros exemplos, bem sei, para um mundo que se recheia destes mas também dos demais, quase parecendo, que nada o satisfaz, que nada lhe chega, que nada o preenche, numa sofreguidão descabida de tão ambiciosa, quando no fundo, ambicionamos, nem bem sei o quê. Prossigo, e ainda que admitindo as consideráveis hipóteses de respeito e compreensão, chego, inevitavelmente, aos meandros opostos. Nem necessito de grandes divagações para compreender os mecanismos, que basta debruçar-me nos interesses, nas vontades materiais do Homem, para compreender e justificar todas as injustiças terrenas, todas as atitudes menos nobres, todos os actos insanos. Ainda assim, não deixa de me intrigar esta extrema ignorância, pela lonjura em que nos coloca, face ao que verdadeiramente nos interessa.
Pegando nas diversas teorias desenvolvimentistas, verificamos um, entre outros traços comuns, situado na interacção, na partilha, na comunicação. Admitindo o interior como parte integrante no processo, não podemos porém centrar aí os nossos olhos, ou pelo menos, aí fechá-los, que é mais do que certo, sabido e comprovado, que desde a nascença até à morte, o nosso caminho se contrói em partilha, numa dádiva e num recebimento constante, num agora tu, agora eu, que nos permite a organização interna-externa, de forma harmoniosa e coerente. Que nos permite sermos Pessoas. E agora pergunto, precisamos nós de nos tornarmos indignos desse tão fácil caminho, entrando muitas das vezes, num vulgar percurso sem final à vista, admitindo aqui, que o único fim plausível, seria a nobreza de nos constituirmos Gente, em prol de interesses menos nobres, que nos toldam a existência? Ganharemos nós novas sensações, que nos transportam a outros patamares, superiores aos sentidos quando mantemos a pureza de sentimentos, o respeito ao próximo e a nós mesmos? Que procuramos, quando nos esquecemos que o mundo é um local habitável por todos os que cá chegaram, existência que tentamos manipular de forma severa e egoísta, com vista a um reinado de interesses descabidos e vazios de conteúdo? Não nos faltará uma consciência social, capaz de nos reger em prol de algum sossego, só possível passando pela aceitação da vida tal e qual ela é, num respeito ao que verdadeiramente interessa? Não teremos nós capacidades de mais, quando no fundo, consciencializamos esta realidade todos os dias, se nela pensarmos?
Nem me surgem grandes dúvidas, de que este é um caminho urgente, que ironicamente, teima em começar. Necessitaremos, quiçá, de um caos sociológico, idêntico a outros já vividos. Não deveríamos precisar de tanto.
Nem me surgem grandes dúvidas, de que este é um caminho urgente, que ironicamente, teima em começar. Necessitaremos, quiçá, de um caos sociológico, idêntico a outros já vividos. Não deveríamos precisar de tanto.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Fusões

Ela passeava-se no jardim de bancos lilases. Um jardim frio e selvagem, pouco povoado, cortado apenas por alguns velhos que se passeiam a custo, numa réstia de passos de vida. As palmeiras, altas e curvadas, dão uma sombra húmida e gélida a que delas se aproxima, quase parecendo, dada a crueza que as envolve, que o que procuram é a solidão sem fim, a ausência de gentes por perto, que mal se sente uma brisa de vento, e é ouvi-las balançar fortemente, com um entoar rude a ameaçador, capaz de assustar qualquer alma corajosa que lhes abeire a existência. As rosas, de várias cores e espécies, são mirradas e encolhidas, denunciando o destrato de que são alvo, naquele jardim quase deserto. Nenhuma bela flor merece tal desprezo.
Nem bem sabia ao certo o que a cativava ali, se o canto dos pássaros, se o restolhar dos ramos, se a corrida do rio. Deveria ser isso, a corrida do rio, que se há coisa que desde sempre a fascinou, com um fascínio digno de referência, e não uma mera atracção, pela magnitude com que se insurge, é a água. Já chegou em tempos idos, a debruçar-se seriamente sobre tal coisa, a fim de compreender a adição sentida, mas dada a ausência de justificações plausíveis, que não envolvessem reencarnações e outras teorias esotéricas, arrumou o assunto. Aproveita o prazer que lhe dá, apenas e só. Como de resto, aliás, faz em tanto na sua vida, que já há muito se esqueceu de entender tudo o que lhe acontece. Não por falta de capacidades de análise critica ou analítica, nem por falta de curiosidade sobre determinados fenómenos, mas apenas porque tanto lhe soa a estranho, que o único caminho capaz de lhe manter a sanidade, é a experimentação do que lhe apraz experimentar, sem necessidade de compreensões.
De repente, vê um pássaro cor de laranja. Anda cá passarinho, anda, diz-lhe em tom doce e pausado, esperando o óbvio, que consistiria na fuga. Nada disso se deu, continuando o mesmo num perfeito deleite, debicando calmamente algumas migalhas que se encontravam perto, deixando-a crer que a sua presença, já se fundia de tal forma com a natureza, que o bicho nem por ela deu.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Etapas
Ontem falava-me em sílex, material com o qual tomei contacto já adolescente, aquando de um programa de arqueologia promovido pela Câmara Municipal da minha terra, o qual já tinha esquecido, mas que infelizmente, lembrei. O responsável de tudo era o Pereira, um homem cabeludo, barbudo, grande e barrigudo, que fumava cachimbo desde manhã até ser noite, enquanto jogava cartas com o seu colega Miguel, outra figura do género. Nós chegávamos primeiro, que o horário de entrada de suas excelências era tardio, que a labuta era pesada e penosa, pelo que não se podia começar cedo. De joelhos no chão, escavávamos um enorme buraco de onde saiam pedaços de objectos usados em tempos, espólio valiosíssimo com necessidade de resgate, tarefa fielmente cumprida por nós durante os dias de duração do programa, ou seja, exactamente quinze, que nos eram pagos com a módica quantia de mil escudos a cada, mais coisa, menos coisa. A nossa manhã, começava com um cigarro na beira da Santa que guardava a casa ( seríamos nós um projecto de Pereira? Fica a questão.), ainda Pereira não tinha chegado. Logo após, o pacote era estrategicamente escondido atrás do altar, e tenho para mim, que a referida Santa se sentiu com tal afronta, e me tomou de ponta para todo o sempre, mas enfim, é só uma ideia minha, posso muito bem estar enganada. Quando Pereira e Miguel chegavam, já nós escavávamos. Nos dias bons, já tínhamos descoberto muitos pedaços, nos dias maus, poucos, motivo mais do que suficiente para que Pereira e Miguel nos bradassem aos ouvidos a nossa inutilidade, mais do que comprovada, que aquela hora, já deveríamos ter desenterrado, sei lá, uma qualquer estatueta inteirinha, ou um qualquer utensílio intacto, ainda que nada disso por lá existisse. E eis que seguiam para a empreitada, enquanto o rádio tocava alto, na Renascença ou assim. Não sei o que é feito deles. Provavelmente, e caso lá tivesse ido, encontra-los-ia nas manifestações de revolta contra a redução de salários. Nada a opor quanto à função pública no geral e aos seus direitos, que se entenda. Não simpatizo muito é com Pereiras e Migueis, mas isso, já é um problema meu.
terça-feira, 1 de março de 2011
O rio
Lá no cimo, o bicho olha a envolta com um ar assustado e ao mesmo tempo imponente. Parece-me um qualquer milhafre, embora seja um zero à esquerda com estes nomes de bicharada. Cá em baixo, uma ponte romana passa um rio que corre sem força, pobre coitado, que pouco tenho visto, manifestações tão fracas da natureza terrestre. Dá de si nas primeiras gotas de chuva, seca, nuns fracos raios de sol. Não suporto estes excessos de fragilidade. Lembram-me gente. De qualquer forma, querido, amanhã chove. Um bocadinho de sorte e se não pingar em demasia, ficas compostinho.
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