quarta-feira, 2 de março de 2011

Etapas

Ontem falava-me em sílex, material com o qual tomei contacto já adolescente, aquando de um programa de arqueologia promovido pela Câmara Municipal da minha terra, o qual já tinha esquecido, mas que infelizmente, lembrei. O responsável de tudo era o Pereira, um homem cabeludo, barbudo, grande e barrigudo, que fumava cachimbo desde manhã até ser noite, enquanto jogava cartas com o seu colega Miguel, outra figura do género. Nós chegávamos primeiro, que o horário de entrada de suas excelências era tardio, que a labuta era pesada e penosa, pelo que não se podia começar cedo. De joelhos no chão, escavávamos um enorme buraco de onde saiam pedaços de objectos usados em tempos, espólio valiosíssimo com necessidade de resgate, tarefa fielmente cumprida por nós durante os dias de duração do programa, ou seja, exactamente quinze, que nos eram pagos com a módica quantia de mil escudos a cada, mais coisa, menos coisa. A nossa manhã, começava com um cigarro na beira da Santa que guardava a casa ( seríamos nós um projecto de Pereira? Fica a questão.), ainda Pereira não tinha chegado. Logo após, o pacote era estrategicamente escondido atrás do altar, e tenho para mim, que a referida Santa se sentiu com tal afronta, e me tomou de ponta para todo o sempre, mas enfim, é só uma ideia minha, posso muito bem estar enganada. Quando Pereira e Miguel chegavam, já nós escavávamos. Nos dias bons, já tínhamos descoberto muitos pedaços, nos dias maus, poucos, motivo mais do que suficiente para que Pereira e Miguel nos bradassem aos ouvidos a nossa inutilidade, mais do que comprovada, que aquela hora, já deveríamos ter desenterrado, sei lá, uma qualquer estatueta inteirinha, ou um qualquer utensílio intacto, ainda que nada disso por lá existisse. E eis que seguiam para a empreitada, enquanto o rádio tocava alto, na Renascença ou assim. Não sei o que é feito deles. Provavelmente, e caso lá tivesse ido, encontra-los-ia nas manifestações de revolta contra a redução de salários. Nada a opor quanto à função pública no geral e aos seus direitos, que se entenda. Não simpatizo muito é com Pereiras e Migueis, mas isso, já é um problema meu.

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