domingo, 13 de março de 2011

Lúcia

Os olhos eram de um azul difícil de definir. Grandes, esbugalhados, quase parecia, que em algum estrafego mais forte, lhe poderiam saltar da órbita, deixando-a cega para o mundo.
Ela dedicava-se. A ele, e a eles, descendência vinda por vontade de ambos, antes de algo forte lho ter roubado de si. Eram eles ainda pequenos.
Da primeira vez, encontrava-se no quarto de banho, exterior à casa, quando o sente chegar em cambaleio. Larga a pequena numa cadeira de madeira carunchosa, para lhe poder prestar socorro, passara mal, só podia. A pequena, assustada, grita de lá de dentro, de estranha que estava para o que afinal, dali em diante, passaria a ser parte dos dias. O cheiro que lhe vinha, já não o lembrava, mas num ápice, lhe veio à memória. Não percebe como o podia ter esquecido. Não tinha, constatou afinal, que os terrenos internos nem se efectivam esquecidos, adormecem, isso sim, e nem sempre. O tempo recuou-lhe naquela hora para um mundo vivido, um mundo onde entrou mal chegada, e onde cresceu, na sombra de gritos abafados, e de tombos vencidos no calor da discussão. E era exactamente assim que cheiravam.
Naquele mesmo dia os olhos recuaram. Parecera que naquele instante, algo de dentro a sugou com toda a força, como que numa auto protecção imposta por um corpo fraco, que vai-se a ver, e de pouco ou nada lhe valia, perante a força com a qual lutava. O cheiro, forte também ele, não mais a deixou. Anos a fio, viveu-lhe na sombra, deixando que aquele sentido a consumisse aos bocadinhos, em cada palavra, em cada encosto, em cada briga. E teria ela esquecido, que outros cheiros haviam?
Um dia, acordou e foi. Não a soube tempos longos, que a ida foi longínqua, ou não fosse o odor, não deixa-la de vez. Soube-a entretanto. Está velha, mantém os olhos lá dentro de um rosto mirrado e entristecido pelo tempo. Os cheiros estão limpos, cheira-lhe até a Primavera. Podem mudar-se, afinal.

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