sábado, 12 de março de 2011

Arrependimentos

Hoje, num dos cinco sentidos de Carla Hilário Quevedo, encontro uma referência a um artigo do New York Times, sobre Christian Longo, um assassino, que matou a mulher e três filhos, e que luta por poder doar os seus órgãos após a pena morte. Estranha atitude, que me suscita inúmeros pensamentos. Um assassino, incluído certamente numa estrutura de desorganização ao nível da psicopatia, encontra-se num patamar de evolução precoce, tendo em conta as teorias de evolução psicológica que se debruçam sobre estes assuntos. Não deixa de ser bizarra, esta súbita vontade de fazer o bem. Precisará ele de se sentir benfeitor? Necessitará o seu eu mais primário de um perdão impossível, que ele ambiciona levar consigo, se por cá deixar algo de si, em prol do mundo? O que terá feito esta mudança de padrão de acção? Terá sido uma evolução? Ou um receio exacerbado do divino castigo, que poderá assim, tornar-se mais brando, ao invés de lhe ceifar a existência eterna em terrenos do paraíso? Será apenas e só isso mesmo, ou um verdadeiro arrependimento? Ou ainda, nada disso, constituindo uma mera forma de se tornar visível, devido à estranheza da conduta, ou ao facto de necessitar de adequação ao processo da morte, uma vez que as injecções letais, tal como refere o artigo, destruiriam tudo, e impossibilitariam a doação.
E por fim, deverá a sociedade permitir a um condenado assassino, ilibar a consciência perante o mundo, que no fundo, e numa análise muito primária, parece-me ser o móbil do que ambiciona? Julgo que sim, modestamente. Não se recuperam as que ele aniquilou, recuperar-se-ão algumas outras, logo, o ganho existe. O sentimento de algum sossego, ainda ilusório, que lhe possa acompanhar a partida, nem me incomoda. Todos deveríamos partir daqui sossegados.

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