quinta-feira, 17 de março de 2011

O pão

A envolta não entende o prazer que lhe dá as segundas feiras. É nelas, bem cedo, que o amassa. A farinha, a água, o fermento, uma pitada de sal... Junta tudo no alguidar de barro envernizado, e procede com delicadeza à feitura do processo, com o preceito vindo de há muito, preceito esse, com tendência a esmorecer, pudesse ela ensina-lo, houvesse alguém nas redondezas capaz de lhe guardar a sabedoria, e já ela a teria passado há muito, que se há coisa de que não gosta, é de levar para a cova tal saber. São Vicente te crescente, São João te ponha a mão, Deus dê saúde a quem comer este pão...
Após a bênção pedida aos seres divinos, deixa-se repousar. Resguarda-se a massa do frio e do vento, para que cresça sob as mãos do Senhor e de outros Santos que lhe peguem por bem, que enquanto isso, é hora de preparar o forno, velho e chamuscado a preto, feito há muito por seu marido, mestre na área deste saberes. A pá, preciosa ajuda, trabalha afincadamente a envolta que há-de cozer a massa, entretanto quase leveda. Antes porém, é necessário reservar uma pouca, a fim de constituir fermento para a próxima. Começa o processo. Moldam-se os pães com a ajuda da farinha, enfornam-se e aguarda-se, numa paciência digna de quem já nada espera deste mundo. Aqui, chego a perder-me. Bem sei que a envolvência da vida, não nos permite esta ausência das hora, mas invejo-a ao infinito. Adiante. Criticam-lhe esta devoção. Este esforço que atribuem penoso, por algo que ela faz com uma dedicação sem limites. O ar franzino e enrugado, as vestes pretas, o xaile apertado, não ajudam. Está cansada, precisa de sossego, dizem-lhe vozes. Não percebem, pobres delas, que a feitura e distribuição do pão que lhe nasce das mãos a gosto, é uma das coisas que lhe dá vida. Deixem-na fazer, e deixem-na dar, e é tudo o que lhes pede. Gosta ainda de ver, quem se delicia a comê-lo.

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