sábado, 26 de março de 2011

Comer

Come torradas de pão da terra, e delicia-se nelas. O pão do Alentejo é um pão especial, esburacado e com um forte sabor a fermento, não há outro que lhe chegue perto. Enquanto mastiga, escorrem-lhe da boca fios de manteiga gorda, que não lha poupa, quer lá ela saber, do excesso de gordura que lhe povoa o corpo, isso, são preocupações para o Dr Venceslau, o médico da aldeia, que desde sempre lhe controla os açucares que come, os quilos de gordura que lhe povoam o sangue, os raios de fumo que lhe atravessam os alvéolos. Nem bem percebe tamanha aflição, que vai-se a ver, e Natalina, que morava mesmo ali ao lado, que comia brócolos e peixe cozido ao jantar, e que lanchava chá de cidreira e pão com dentes, deixou-nos há muito por mor de uma paragem de coração, daquelas que nos levam sem cerimónias e sem preparos. Nem se dá por isso e já se foi, puff, uma maravilha. Temos ainda Agostinho, um caso sério de oposição, que começa o dia com o mata bicho, que o termina com um bagaço bem aviado, e que o entremeia com cigarros aos maços e com copos de três, que tudo junto, deveria já constituir sustança capaz de o ter levado para o outro lado há muito, e afinal de contas ainda por cá anda, há anos a fio, a viver às custas do estado.
Nem questiona a veracidade da boa vontade do Dr Venceslau, pura, genuína, e não atida a um qualquer interesse menos nobre, que lhe justificasse a devoção e o zelo. Sempre foi médico dedicado às maleitas da aldeia e redondezas, conhecedor profundo dos podres e das virtudes de cada um. Fossem todas as terras detentoras de um médico assim, e nelas nem haveria cabimento para determinadas desgraças acontecidas por faltas de assistência ou de recursos, que haveriam poucos males, com excepção dos poderosos e galopantes tais como o que levou Natalina, que não se detectassem atempadamente, e para os quais não se delineasse de imediato uma intervenção adequada, que poderia ir da dieta ao comprimido, passando pela injecção, ou até mesmo, em casos mais graves, pela operação. Veio a este mundo para fazer o bem, e que cada um, faça o que lhe está pré destinado, é um percurso divino, uma jigajoga incontrolável a nós, comuns mortais. Ela, por exemplo, não duvida de que veio cá para comer. Conhece muitas outras nobres tarefas atribuídas por quem de direito, e que vão desde a execução exacerbada de determinadas obrigações, passando por rezas, ou ainda por outras dedicações. Muito mais aborrecidas, com toda a certeza.

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