quarta-feira, 30 de março de 2011

Libertações

Ela nem bem se entendia. Havia dias, em que se sentia grande mas leve, quase como se a harmonia a tivesse apossado e os gestos lhe fluíssem do corpo sem esforço, seguidinhos uns nos outros, direccionados ao sítio certo. Havia outros, muitos, em que a carga se tornava insustentável, como se o mero peso das pálpebras, magras e ligeiras, lhe exigissem um esforço sub- humano, um empenho de energias ali concentradas, a fim de poder abrir os olhos e olhar a envolta. Acabou por perceber, que esta analogia se rege pelas suas vontades, que quando querem relaxa, quando não querem pesa. Num treino continuado, propõe-se a controlar o seu peso. Não julguem ser tarefa fácil, sendo que podem tomar como exemplo, o controlo do peso real, não raras vezes detentor de vontade própria, capaz de contrariar intentos, apenas e só com o ar que se respira. Ainda assim, empenhou-se.

Todos os dias, quando sentia que vida lhe tinha gramas a mais, iniciava um processo de libertação. A primeira coisa da qual se libertava era dos amores amargurados, que ao invés de lhe dourarem a existência, cravaram-na de desassossegos e inquietudes capazes de lhe fazer emergir brotoejas. Calcava-os bem calcados no fundo do peito, e cosia o coração com uma linha invisível mas forte, que durava um dia, mais coisa menos coisa. Vezes havia em que isso chegava, outras, em que muito mais lhe pesava. Pesava-lhe por exemplo uma vida sem cor e sem rumo, a qual nem bem sabia onde esconder, que essa, por muito que a disfarçasse, era dotada de fortaleza e robustez, apresentando a manifesta tendência de emergir no decorrer das horas, ora aqui, ora acolá, normalmente subjugada a alguns episódios que a faziam despertar. O arrumo, por assim dizer, não se efectivava tranquilo como no anterior, pelo que lhe era exigido trabalho extra, como que um novo calcamento, a fim de conseguir levar ao fim a empreitada. Estava cansada.

Houve um dia porém em que se despojou em demasia. Pesava muito, por assim dizer, carecia de libertação verdadeira, e não apenas e só, com um dia ou menos de duração. Arredou muros impostos por uma pele imaginária que lhe cobria o ser, e mandou para fora tudo quanto a perturbava. A tarefa, nem se constituiu fácil, que a carga era tamanha, e nem bem ela sabe, de onde lhe saia tanto desgosto, julgava-se por vezes mísera, e ao invés disso, era um poço sem fim, de vivências e processos, mais ou menos penosos. Na dúvida, saíram todos.

O dia a seguir foi leve. Contudo, uma sensação de estranheza tomou-lhe conta do corpo.

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