segunda-feira, 14 de março de 2011

Dos doces reencontros

Lá do cimo avista-se tudo. É um local privilegiado da aldeia, de onde a vista nos leva até a um horizonte longínquo, desde que alcançável pelo limite dos nossos olhos, ou pelas imposições dos altos montes que se insurgem. Diz quem sabe, que num deles, existe uma capela com uma Santa, que se deve alumiar dia e noite, sob pena da pobre adormecer no breu, e deixar de velar pelas almas do mundo, que tanto precisam. Nunca minha avó lhe faltou com o azeite prometido, que se por azar houvesse, em que a Santa perdesse a luz, nunca, por nunca ser, seria tal agoiro fruto de suas mãos. A fechar os olhos, e a deixar desamparo, que se virasse pra outros, que a si, já tanto mal a vida trouxera, que de mais nenhum precisava. Avista-se ainda o cemitério, no alto da encosta defronte, com ciprestes altos e pontiagudos, exactamente os mesmos que povoam o meu jardim. Não concordo que atribuam os ciprestes aos cemitérios, como se só aí pudessem viver, e em mais local algum pudessem crescer livres e altos, sem o cheiro dos mortos e da podridão. Podem. O meu jardim assim o prova. Lá bem no alto, e dada a envolta que circunda o depósito, ser um esconderijo ideal para quem do mundo se resguarda, casais de namorados encostam-se, num encosto livre e despretensioso, daqueles encostos de cor, que cheiram a flores e a beijos. Dizem que com o tempo, os encostos mudam a tonalidade e o aroma, mas eu, não acredito nisso, julgo serem palavras perdidas de línguas amargas, que ao invés de se adocicarem com a envolta, experimentam outras estranhas sensações. Um desperdício, tenho a dizer, que se há coisa que temos sempre à mão, é um pincel ou um rebuçado, que nos permite tingir o que nos apetece, da cor e sabor que nos aprouver. Eu, gosto de rosa, e de mentol. É também de lá, do depósito, que se avista a casa dela. Uma menina, não mais do que isso, que perdi em tempos para agora reencontrar. Disse-me um dia, numa perfeita desarmonia com tudo o que eu conhecia, que tudo o que era dela, era meu também, e que todos os seus brinquedos, também podiam ser meus. Os meus ouvidos de criança sorriram dentro de mim.

2 comentários:

  1. Ó páááááá tãããããããoooooooo bonito este texto. Gostei tanto de o ler! Levou-me para um lugar bem mais bonito do que este onde hoje tenho vegetado.
    Obrigada

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  2. E que feliz fico por isso Antígona. Toma mil sorrisos :):):):)

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