sexta-feira, 18 de março de 2011

Convento fechado

Vi a Maria. Perdida que andou nos terrenos do Mundo, encontrou-se algures, e parece outra. Ambicionou ajudar gente que precisava muito, dedicou-se a um curso na área das Humanidades e enfrentou um chorrilho de jovens sofridos e sabidos, que em três tempos, a enviaram para uma casa de repouso e recuperação. Chorava de dia e de noite, alternando com uns períodos de euforia, quase como se ali, na emoção, se perspectivasse a real mudança do mundo, tal era a força e a presunção. Toda aquela vontade, concentrada dentro de um ser frágil e confuso, deu na loucura, que o embate foi forte, e o corpo não suportou. Não raras vezes, o transbordo é feito da forma inversa, esquecendo o impulso, a coragem, a vocação. Deixa-se entrar a fraqueza, nobre repouso ao qual por vezes recorremos, deixando nós próprios de ser o real suporte, para nos deixarmos à mercê de alguém que nos pegue e nos leve, que disso mesmo precisamos. Aguardamos então que nos organizem os dias, que nos sosseguem, nos curem as feridas e nos escolham caminhos. Quase esquecemos, que um dia, fomos nós a fazê-lo. Nem bem sei por que mãos lhe surgiu o empurrão. Soube-a desde sempre ligada à igreja, às rezas diárias e à missa dos Domingos e dias santos. Aproximou-se dela ainda mais, que como sabeis, não raras vezes, é ela que substitui mãos que não surgem, colos que não existem, orientações que atrasam na chegada. Algo a chamou de lá bem de dentro. Não um algo qualquer, ligado a alguma congregação pacífica, das que tratam velhinhos, ou das que curam mazelas, mas algo mais forte, onde o silêncio impera, em grande parte dos dias. Julgo ter sido pelo espaço. Ao abrigo dos muros altos e densos, pouco chega para além do sol. Os comeres, beberes e outros bens de primeira necessidade, entram clandestinos pela porta de uma cozinha escondida, longe dos olhos de quem ora. Nos jardins, crescem flores coloridas, hortas viçosas, e canteiros de arbustos desenhados a preceito, por alguma que se incumba de tão nobre tarefa. O dia começa cedo, na capela, e acaba tarde, exactamente no mesmo sítio, com inúmeras passagens pelo meio, com o fim de sempre, rezar pelas desgraças do mundo, para dentro, em silêncio. Na envolta, os muros dão-lhe o colo e contêm-lhe a alma.

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