sexta-feira, 4 de março de 2011

Fusões


Ela passeava-se no jardim de bancos lilases. Um jardim frio e selvagem, pouco povoado, cortado apenas por alguns velhos que se passeiam a custo, numa réstia de passos de vida. As palmeiras, altas e curvadas, dão uma sombra húmida e gélida a que delas se aproxima, quase parecendo, dada a crueza que as envolve, que o que procuram é a solidão sem fim, a ausência de gentes por perto, que mal se sente uma brisa de vento, e é ouvi-las balançar fortemente, com um entoar rude a ameaçador, capaz de assustar qualquer alma corajosa que lhes abeire a existência. As rosas, de várias cores e espécies, são mirradas e encolhidas, denunciando o destrato de que são alvo, naquele jardim quase deserto. Nenhuma bela flor merece tal desprezo.
Nem bem sabia ao certo o que a cativava ali, se o canto dos pássaros, se o restolhar dos ramos, se a corrida do rio. Deveria ser isso, a corrida do rio, que se há coisa que desde sempre a fascinou, com um fascínio digno de referência, e não uma mera atracção, pela magnitude com que se insurge, é a água. Já chegou em tempos idos, a debruçar-se seriamente sobre tal coisa, a fim de compreender a adição sentida, mas dada a ausência de justificações plausíveis, que não envolvessem reencarnações e outras teorias esotéricas, arrumou o assunto. Aproveita o prazer que lhe dá, apenas e só. Como de resto, aliás, faz em tanto na sua vida, que já há muito se esqueceu de entender tudo o que lhe acontece. Não por falta de capacidades de análise critica ou analítica, nem por falta de curiosidade sobre determinados fenómenos, mas apenas porque tanto lhe soa a estranho, que o único caminho capaz de lhe manter a sanidade, é a experimentação do que lhe apraz experimentar, sem necessidade de compreensões.
De repente, vê um pássaro cor de laranja. Anda cá passarinho, anda, diz-lhe em tom doce e pausado, esperando o óbvio, que consistiria na fuga. Nada disso se deu, continuando o mesmo num perfeito deleite, debicando calmamente algumas migalhas que se encontravam perto, deixando-a crer que a sua presença, já se fundia de tal forma com a natureza, que o bicho nem por ela deu.

2 comentários:

  1. :):):) Tu sim, devias escrever um livro. Mas tinhas de mo dar para rever :):):)

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  2. :):) Se tal suceder, fica prometido :)

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