O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Compras
Mandei vi umas coisas de um conhecido catálogo. Os tamanhos são estranhos, as cores são outras, o material um nadinha ao lado. Poderá a essência do facto centrar-se na modelo, que no catálogo, a coisa de facto parecia outra, mas não me apetece focar-me aqui. Posto isto, reitero apenas o que há muito já sei. Compras, é ali ao lado. Se não gostar à primeira, não tenho de pagar um euro para devolver.
Mãos dadas
Júlio é Médico. Todos os dias, fiça chuva ou sol, o seu destino é aliviar quem de maleitas se queixe, sejam elas das mais diversas ordens, desde que o doente seja o corpo. Nasceu um tanto ou quanto enfraquecido, tendo sido necessário o recurso frequente ao óleo de ricínio, coisa amarga que o enforteceu, que sua mãe sempre diz, que se não fora tal cura, nem lhe teria sido permitido crescer, que o raquitismo quase que o levou deste mundo, ainda criança, muito magra e enfezada. Nem bem se sabe que destino se lhe deu, as divindades devem tê-lo tomado ao colo, benzeram-no só pode, e deixaram-no um homem digno, de fazer reluzir o olho, e ainda para mais, prestável e capaz, sempre pronto a auxiliar quem dele carecia. Uma raridade. Não se lembra de todas as pessoas às quais já deitou as mãos, lembra-se de umas e de outras não. Mas lembra em especial o caso do Jovenaldo, pobre criatura enjeitada, criada nos braços da avó, que após deitar corpo, voz e tamanho, se iniciou num desfalecimento sem igual, o que o transformou num rapaz mirrado e frágil, muito perto da rendição. Fosse sua avó ter crido nas vozes da terra, que o julgavam possuído pelo demónio, e por certo o pobre já nem estaria cá neste mundo, mas não. A pobre da velha tinha um olho ligeiro, e logo julgou a medicina capaz de o ajudar, ao invés das rezas e dos atamancos, dos ligamentos que viram o bucho, e dos fumos que salpicam os corpos, preparos bons, é bem certo, mas insuficientes. Foi Júlio que lhe valeu, acabadinho de cursar Medicina, e já pronto o suficiente de lhe diagnosticar o mal, que imediatamente atacou, deixando o jovem de novo forte e robusto, quase capaz de casar. A avó de Jovenaldo, concedeu então a Júlio um agradecimento eterno, vindo em forma de azeite que ilumina a Santa padroeira da terra, todas as noites do ano, em prol de sua alma, o que lhe dá o sossego tranquilo, de uma existência guardada. De noite, e enquanto a candeia arde, Júlio lê livros de medicina.
domingo, 18 de setembro de 2011
Saltos altos
Por vezes escapa-me a nossa pequenez. Em momentos estranhos, tingidos de forte, julgo-nos grandes, julgo-me a mim, até. Julgo poder controlar o meu corpo, tal e qual como controlo a minha alma, esquecida que anda da imensidão do acaso, do além, da grandeza divina e do poder do mal. Julgo que tais sentimentos constituam uma defesa, um mecanismo interno que me mantém sã o suficiente para andar em algum sossego, tranquilidade, ambição. Fosse eu a ter presente, em todos os momentos da minha vida, a volatilidade da existência, e por certo nem me endireitaria, perante a ameaça a que incorro a cada dia, a cada passo, a cada sentimento, direccionado ao bem ou ao mal, por vezes, nem isso sei. Felizmente, a acompanhar estes perigos, somos dotados de capacidades provavelmente criadas para nos proteger da loucura, na qual entraríamos sem dó nem piedade, se não esquecêssemos a cada hora, minuto, instante, as nossas moderações. Ainda assim, nem sempre esta suficiência me segura, que existem dias, cismas, épocas e situações, nas quais sucumbo, na impossibilidade de aí me julgar gente, com grandeza suficiente de escolha. É nesses momentos que entristeço, de uma forma cruel e fria, capaz de me atingir em sítios medonhos, frágeis, quebradiços. Que vai-se a ver, e já nem lembrava a existência. Por norma, é aí que me cuido, que me consciencializo pequena e confinada, a coisas que o mundo me dá e me tira, conforme entende, ou não fora eu uma mera habitante que o ocupa, nem sei se clandestina, se não. Mas gosto de cá andar. Em apertos, calço uns saltos altos, e tudo passa.
André
Em tempos fui chefe, após um período em que fui verdadeira escuta, de saia azul ridícula, e lenço ao pescoço. Sim, gostava da farda, mas nunca compreendi a saia. Limitações. Com orgulho exibia algumas insígnias que atestavam competências conseguidas, normalmente relacionadas com alguma prática digna de realce em termos humanos. Cansei-me deles por alguns exageros, porque cresci e questionei a Igreja, entre outros. Guardo memórias imensas. Uma delas, o André, um garoto magro e enfiado, que chegou sem farda, construída posteriormente por nós na sede, com a boa vontade de todos. Era loiro e de olhos verdes, iguais aos de uma mãe linda de morrer, mas corroída por males do mundo, aos quais se entregou levando os filhos de arrasto, que os pobres, e muito embora nem se encontrassem em real contacto com o que os levava à miséria, sentiam-lhe o encosto todos os dias, sendo que o verbalizavam aqui e ali, incluindo numa frase que me ficou para a vida. "Olá chefe, hoje viemos ao supermercado. Quando isso acontece, é porque lá em casa já não existe mesmo nada." Ao lado, a mãe, e um avô, que quando já não havia nada lá em casa, socorria os netos, numa obrigação que assumia já cansado, mas ao mesmo tempo, sempre pronto. Enquanto o carrinho se enchia de compras, o André sorria, perante uns pacotes de leite com chocolate, e umas bolacha Maria. Pequenos nadas, podem parecer.
Ontem vejo um jovem alto que me pareceu o André. Passaram anos e não me atrevi. Um erro, talvez, mas poderia eventualmente estar enganada, coisa que me parece realmente difícil. Sorria num grupo de rapazes, e estava feliz. Gosto sempre de encontrar passados que de alguma forma resistem robustos, ao passar dos tempos amargos. Já encontrei alguns que me estiveram perto, e sinto-me inundada de um sentimento de paz. Poderá ser até, quiçá, e lado a lado com a felicidade, uma fraqueza. De lhes encontrar no corpo a imensa verdade de reiterarmos, que é mesmo possível crescer nas dificuldades. Nós sabemos, é certo. Mas é sempre bom constatar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)