domingo, 18 de setembro de 2011

André

Em tempos fui chefe, após um período em que fui verdadeira escuta, de saia azul ridícula, e lenço ao pescoço. Sim, gostava da farda, mas nunca compreendi a saia. Limitações. Com orgulho exibia algumas insígnias que atestavam competências conseguidas, normalmente relacionadas com alguma prática digna de realce em termos humanos. Cansei-me deles por alguns exageros, porque cresci e questionei a Igreja, entre outros. Guardo memórias imensas. Uma delas, o André, um garoto magro e enfiado, que chegou sem farda, construída posteriormente por nós na sede, com a boa vontade de todos. Era loiro e de olhos verdes, iguais aos de uma mãe linda de morrer, mas corroída por males do mundo, aos quais se entregou levando os filhos de arrasto, que os pobres, e muito embora nem se encontrassem em real contacto com o que os levava à miséria, sentiam-lhe o encosto todos os dias, sendo que o verbalizavam aqui e ali, incluindo numa frase que me ficou para a vida. "Olá chefe, hoje viemos ao supermercado. Quando isso acontece, é porque lá em casa já não existe mesmo nada." Ao lado, a mãe, e um avô, que quando já não havia nada lá em casa, socorria os netos, numa obrigação que assumia já cansado, mas ao mesmo tempo, sempre pronto. Enquanto o carrinho se enchia de compras, o André sorria, perante uns pacotes de leite com chocolate, e umas bolacha Maria. Pequenos nadas, podem parecer.
Ontem vejo um jovem alto que me pareceu o André. Passaram anos e não me atrevi. Um erro, talvez, mas poderia eventualmente estar enganada, coisa que me parece realmente difícil. Sorria num grupo de rapazes, e estava feliz. Gosto sempre de encontrar passados que de alguma forma resistem robustos, ao passar dos tempos amargos. Já encontrei alguns que me estiveram perto, e sinto-me inundada de um sentimento de paz. Poderá ser até, quiçá, e lado a lado com a felicidade, uma fraqueza. De lhes encontrar no corpo a imensa verdade de reiterarmos, que é mesmo possível crescer nas dificuldades. Nós sabemos, é certo. Mas é sempre bom constatar.

1 comentário:

  1. Se o voltares a ver, pergunta-lhe :):)não tens nada a perder :)

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