quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O sonho

Acordou num sitio estranho, onde Deus parecia nunca ter estado. Como se possível fosse, existirem recantos do mundo que lhe escapem, ora não fosse ele o criador de toda a imensidão, e o responsável pelo que se passa em cada sítio, mais ou menos obscuro. Mesmo assim se lhe perguntassem, e no benefício da dúvida, diria com quase certeza, que aquele naco de mundo lhe tinha escapado, provavelmente juntamente a outros pedaços, que muitos existem pobres de meter dó, desgraçados e mal amados, que detém cabimento em tal circunstância. Era medonha a desgraça emanada daquela casa, habitada por uma tristeza afundada numa esperança vã, eterna, de nunca preenchida. Sua dona esperava sempre a mesma coisa, coisa essa que nunca lhe chegou pela porta da entrada, ou sequer pela janela, propositadamente deixada aberta todos os dias a fio, fizesse chuva ou fizesse sol, não fosse perder a oportunidade do encontro por temor às intempéries, nunca se perdoaria por isso. Mas ainda que assim fizesse, e ainda que a fresta deixada fosse significativa, e o ouvido atento à porta, por demais perspicaz, nunca se chegou perto nada do que tanto ambicionava, ano após ano, o que a deixou mortiça e insana. Lá dentro da casa, e mais precisamente lá dentro do corpo, criou um mundo só para si, ornamentado de cores cinzentas e apagadas, onde se movimentava descomposta, num intenso deambular, à espera. De quando em vez parava, olhava pela janela envolta em cortinas, e espreitava um mundo estranho lá fora, cheio de cores e sorrisos, ao qual não pertencia. Houveram dias em que quiseram leva-la, em que da soleira da porta, lhe surgia um apelo, distinto do que queria, mas ainda assim, um apelo. Que recusava delicadamente, sempre envolta na mais pura das educações, não fossem julga-la amarga, quando ela era doce. Não era aquilo o que queria.

Saiu de mansinho, e jurou voltar. Acordou, que afinal, o despertar anterior tinha sido sonhado. Relembrou, que não gosta de acordar a meio de um sonho. E ainda, que existem sonhos, que por completos que sejam, nunca vão chegar ao fim.

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