domingo, 4 de setembro de 2011

Sossegos

Todos os dias bem cedo, distribui migalhas de pão seco aos pássaros, que se abeiram dele em bandos de largo número. Os seus cabelos, muito brancos e fartos, adornam-lhe uma cabeça cansada, malfadada pelos dias duros, pelos anos longos, pela frieza das horas. Mais logo, no fim da tarde, os restos da casa servem de alimento para os cães que se vagueiam nas ruas, faça chuva ou faça sol, e que se aninham de mansinho debaixo dos carros e das varandas, desdenhados por donos ingratos e cheios. Mal o avistam, e na iminência do alimento para o dia, correm em sua direcção, de rabos alçados, numa manifestação de agrado típica daqueles animais, tão dados como mais nada, a quem os trata, e até, por vezes, a quem os destrata. O velho, numa paciência vinda do fundo da alma, dá-se-lhes por inteiro, agachando o costado, já doente e retorcido, a fim de poder cumprimentar os seus fiéis amigos. Ao longe, costumo mirá-los, e reflicto. Reflicto no desprezo que sinto darem-lhe, como se ele de nada valesse ao mundo, porque é velho e isolado, e porque recebe dos animais o que mais ninguém lhe dá. É azedo, oiço dizer, de bocas que não abrangem que o azedume das palavras, nasce amiúde dos destratos recebidos, que se transformam cá dentro, em gestos rudes e defensivos, que facilmente expelimos, se ameaçados. Reflicto ainda na nossa carência de afecto, continuamente rebuscada onde quer que o consigamos buscar. Não vivemos sem ele, é um facto. Em última instância, e já em divagações mais profundas, penso o altruísmo em estado puro. Inexistente, julgo poder dizer. Esperamos sempre o reverso, nem que seja em forma de sorriso, lambidela, ou outra que nos possam dar. Coisa que de imediato arrumamos por dentro, e transformamos em sossegos. Não trata egoísmo, mas necessidade.

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