domingo, 25 de setembro de 2011

Acordar tarde

Ele gosta de dias iguais. Nem bem entende o motivo do conforto dessa existência, entende e explica apenas o desconforto da falta da ordem, quando ela lhe sucede. Sabe que o seu amanhecer tem de começar sempre cedo, mais ou menos à mesma hora, exactamente antes do relógio tocar as sete, que se for depois, aquele tempo que rouba ao dia, faz-lhe uma falta de morte, capaz de o deixar à mercê de um descontrolo, apenas banido na manha seguinte, aquando de um novo despertar. A ordem a que se obriga é suficiente para lhe tirar o sossego, que a organização extrema dão-lhe um trabalho dos sérios, sendo que carece de uma grande organização, para que a sua vida se encontre dentro dos limites do tempo, que o agarraram, quem sabe à nascença, para não mais o deixarem ir. Tivessem-lhe destinado outro destino... Porém, e no lado oposto, e se ousar deixar de a ele se entregar, permitindo que a desordem lhe entre no corpo, o desassossego sentido é consideravelmente maior, pois aliado a ele vem a dureza do desconforto, a vontade de arrumar um mundo que lhe escapa das mãos, sem que lhe seja possível habita-lo assim. Oxalá soubesse como. Sente amiúde que ninguém o percebe, que o julgam um louco exasperado pela vida, que nem sabe que lhe faça ao senão repeti-la, sempre igual, a cada dia, a cada minuto, a cada instante por onde passa. Não é o caso, que não é louco, apenas precisa de ordem. Mas ainda assim, nem deseja mal a quem de tal forma o apregoa, e o inclui no mundo dos desgraçados que por cá deambulam, sem préstimo ou sem valor. Não lhes deseja mal, nem qualquer um outro tipo de sentimento menos bom, que a dor que lhe invade o corpo, já lhe chega para a amargura, não carecendo de raivas ou sentimentos de injustiça, querendo-lhes a eles distância. No fundo, aquilo que mais queria, era conseguir a cada dia girar devagarinho, ao invés da pressa que o assola, quer ela lhe urja, quer não. E gostaria ainda de não albergar dentro, todas as regras a que se impõe, numa entrega desmedida a si mesmo. Que vai-se a ver, e nem sabe mandar. Conhecer-se então, talvez seja isso. Sim, é isso. Sente medo, e ainda não. Mas gostava muito, de um dia poder acordar tarde.

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