domingo, 11 de setembro de 2011

Lamego

Ainda me lembro dos seus olhos quando falava em Lamego. Uma terra já muito distante, como distante lhe era o resto do mundo, que pouco se lhe dava, desperdiçando-se por outras gentes, outras paragens, que não as suas. O seu mundo era pequeno, numa improbabilidade estranha, pelo impossível de ser, e ao mesmo tempo tão real como a dor que lhe corroía o peito todas as noites, quando se deitava na cama de madeira carunchosa, e se tapava com o cobertor mordido das traças que lhe invadiam o espaço de roupeiro que lhe competia, e lhe comiam a roupa, tal e qual a vida lhe comia a alma. Sorria pouco. De quando em vez, deixava escapar dos olhos verde mar uns laivos estranhos de contentamento, quando falava da sua avó, perdida naquela terra onde um dia iria voltar. Mas só aí, e mesmo assim, o sorriso dos olhos era abafado pela rudeza do rosto, que não se atrevida a tal emoção, não fosse o seu corpo, ingrato, penitencia-lo por tal afoite, tal e qual como o penitenciava quando chorava, ou arriscava. Ficava triste, e não podia. A única coisa que lhe era permitida, era a apatia dos dias, que poderiam surgir frios, quentes ou amenos, que em toda e qualquer situação se adaptava em jeito de acomodação, pacífica e silenciosa. Precisava de sossego, para conseguir esperar pelo dia em que voltaria a casa de sua avó, em Lamego. Cheguei a pensar o que lhe traria aquela terra de nome pouco bonito de tranquilo à existência. O que lhe daria de tanto, ao invés do resto do mundo, que lhe fugia, é certo, mas que ao mesmo tempo nem queria conhecer. Os sonhos também têm disto. Permitem-nos fazer caminhos, ou então, ao invés disso, fecham-nos a vista, e seguram-nos para sempre. À espera.

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