E dizia-me então inchada, que se pudesse escolher não morreria nunca. Pergunto-lhe se não se cansaria, responde-me que não, que viveria para sempre. A pergunta do onde caberíamos todos, ficou-lhe a magicar nas entranhas.
- Se calhar não cabíamos, acaba a proferir.
- E para que ficava?, insisto.
- Não sei, olhe, ficava.
- Buscava a perfeição?, pergunto-lhe sorrindo, lembrando o poeta.
- Não, a perfeição não existe.
E é por isto que carecemos tanto de poesia.
O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Bolo Rei
Conversavam enquanto a massa lhes envolvia os dedos, engrumada, a carecer de liquido que a humedecesse e a tornasse posteriormente leveda. O fermento azedo dava-lhe o dom do crescimento, enquanto as rezas proferidas por bocas antigas e crentes lhe permitia, junto ao calor da manta e do aconchego, crescer. Os frutos secos eram colocados em demasia, que o bolo tinha de representar fartura, para moléstia deixemos todo o ano, as horas magras, o resto dos dias de Inverno.
Enquanto descansava sentavam-se todas, e bebiam um chá ou café longo, que as horas careciam passar. Aproveitavam e deixavam-se ir, que os encontros nem sempre se podiam, escasseavam até. - O meu está crescido, já não cabe dentro das calças. - O meu está travesso, guarda pedras nos bolsos, esconde-as na cama. - O meu homem está longe por mor da venda, que por aqui estava fraca. - O meu sai de manhã e chega à noitinha, tenho de o cuidar bem. O pobre.
O chá e o café nascido na cafeteira encardida aquecia-lhes a alma e afogava-lhes algumas mágoas, enquanto os ouvidos alheios ajudavam. São bons os ouvidos alheios. Têm uma qualquer magia entranhada, que os faz escutarem-nos melhor do que os próprios que temos. E para além disso aliviam-nos. Aliás, chego a deparar-me com isto em outras partes do nosso corpo, sendo que encontro com frequências olhos exteriores a ver muito do que os nossos não conseguem ver. E sem óculos, sem lentes, ou qualquer um outro tipo de artefacto potenciador de um aumento que se veja.
Na hora de tender a massa estavam todas muito aliviadas e felizes. Por isso a tarefa desenrolava-se de feição, encarrilada nos minutos a que pertencia, tempos doces e acompanhados. Os enfeites de fruta coroavam o melhor bolo do ano, que entrava no forno quente para sair depois, dourado e estaladiço, com ar a fartura. Era a altura do adeus e da divisão. Limpava-se o forno, arrumaram-se as almas. A tradição, esta coisa longínqua e vincada, chega já a tremelicar. É a evolução do Homem, dizem até que já não é o que era.
Nem sei se já por cá disse, mas poderia muito bem ter sido pasteleira.
Enquanto descansava sentavam-se todas, e bebiam um chá ou café longo, que as horas careciam passar. Aproveitavam e deixavam-se ir, que os encontros nem sempre se podiam, escasseavam até. - O meu está crescido, já não cabe dentro das calças. - O meu está travesso, guarda pedras nos bolsos, esconde-as na cama. - O meu homem está longe por mor da venda, que por aqui estava fraca. - O meu sai de manhã e chega à noitinha, tenho de o cuidar bem. O pobre.
O chá e o café nascido na cafeteira encardida aquecia-lhes a alma e afogava-lhes algumas mágoas, enquanto os ouvidos alheios ajudavam. São bons os ouvidos alheios. Têm uma qualquer magia entranhada, que os faz escutarem-nos melhor do que os próprios que temos. E para além disso aliviam-nos. Aliás, chego a deparar-me com isto em outras partes do nosso corpo, sendo que encontro com frequências olhos exteriores a ver muito do que os nossos não conseguem ver. E sem óculos, sem lentes, ou qualquer um outro tipo de artefacto potenciador de um aumento que se veja.
Na hora de tender a massa estavam todas muito aliviadas e felizes. Por isso a tarefa desenrolava-se de feição, encarrilada nos minutos a que pertencia, tempos doces e acompanhados. Os enfeites de fruta coroavam o melhor bolo do ano, que entrava no forno quente para sair depois, dourado e estaladiço, com ar a fartura. Era a altura do adeus e da divisão. Limpava-se o forno, arrumaram-se as almas. A tradição, esta coisa longínqua e vincada, chega já a tremelicar. É a evolução do Homem, dizem até que já não é o que era.
Nem sei se já por cá disse, mas poderia muito bem ter sido pasteleira.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Do sorriso
Pediu-me quatro. Um mil folhas, uma bola de Berlim, um palmier coberto e um simples. As doenças que lhe entraram no corpo faz tempo, já nem recorda quando, deixaram-no entregue a uma boca amargosa, proibida de engolir doces. Poderia ser só esta a realidade, que somos adaptáveis e se não comemos, cheiramos, procuramos, andamos, vimos. Mas não. Penso que por vezes a vida parece escolher determinadas pessoas para se vingar, podem ter sido más em outras vindas, pode ser isso, que não encontro outra justificação que me acalente um pouco a alma, para as injustiças que encontro no mundo, a maior de todas as minhas incompreensões. Ainda ontem, anteontem, não importa, vejo num jornal uma foto de uma criança que apanha com um recipiente água lamacenta para seu governo e fico entorpecida das ideias. É tão frequente nos dias de hoje estas carências básicas que já não deveriam entrar em mim com esta força danada, mas entram, não lhes consigo ganhar resistência. Até hoje, não consegui.
Tem pouco mais de meia centena, não anda, usa uma fralda, incham-lhe os membros com o calor, e ferem, purgando uns líquidos aquosos, pestilentos e mal cheirosos. Todos os meses carece de avaliação da esclerose, uma doença de nome pomposo, que muitos desconhecem onde nos pode levar. Conheço muito bem duas delas, a múltipla, e a lateral amniotrófica, que em tempos deixou alguém que conheço aliviado. Era só lateral. A mais letal e rápida de todas, um engano para quem ouve um nome mais inofensivo do que a temível múltipla. Ambas são degenerativas. Ambas retiram a capacidade de andar, de sentir o corpo dividido em partes, aqui uma coisa, ali a outra, tudo se mistura porque nada nos responde. Com o tempo, as principais faculdade deixam de ser possíveis, o que começa pela perca das funções da marcha, do controlo de esfincteres, que podem chegar a ganhar processos infecciosos sérios, por não saberem quando expelir o que lhes sobra, sendo que entopem, ficam cheios, inchados, doentes. Mais ainda, como se possível fosse. O médico, curador do corpo torce o nariz à ingestão dos regalos pedidos. Eu negoceio.
- Todos no mesmo dia não, vamos faseando, pode ser?
- Pode, diz-me a sorrir, num sorriso baço e sem dentes. - Desde que acompanhados de um sorriso seu.
Sorri logo no instante, sem bolo, sem nada. É por estas e outras que amo o que faço.
Tem pouco mais de meia centena, não anda, usa uma fralda, incham-lhe os membros com o calor, e ferem, purgando uns líquidos aquosos, pestilentos e mal cheirosos. Todos os meses carece de avaliação da esclerose, uma doença de nome pomposo, que muitos desconhecem onde nos pode levar. Conheço muito bem duas delas, a múltipla, e a lateral amniotrófica, que em tempos deixou alguém que conheço aliviado. Era só lateral. A mais letal e rápida de todas, um engano para quem ouve um nome mais inofensivo do que a temível múltipla. Ambas são degenerativas. Ambas retiram a capacidade de andar, de sentir o corpo dividido em partes, aqui uma coisa, ali a outra, tudo se mistura porque nada nos responde. Com o tempo, as principais faculdade deixam de ser possíveis, o que começa pela perca das funções da marcha, do controlo de esfincteres, que podem chegar a ganhar processos infecciosos sérios, por não saberem quando expelir o que lhes sobra, sendo que entopem, ficam cheios, inchados, doentes. Mais ainda, como se possível fosse. O médico, curador do corpo torce o nariz à ingestão dos regalos pedidos. Eu negoceio.
- Todos no mesmo dia não, vamos faseando, pode ser?
- Pode, diz-me a sorrir, num sorriso baço e sem dentes. - Desde que acompanhados de um sorriso seu.
Sorri logo no instante, sem bolo, sem nada. É por estas e outras que amo o que faço.
Curiosidades...
A curiosidade é uma coisa muito bonita no crescimento. O cuidado que tenho de ter com o que ponho na mesa de cabeceira é uma realidade. Puta que os pariu, foi difícil, mas lá me arranjei. O que fica situado entre o Gonçalo e o Tavares e que começa por M, pode parecer mais fácil, mas está deveras complicado. Estive quase a dizer Manel, e a arrumar assim com o assunto. Palpites? Anda por aí e eu ainda não vi?
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