quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Do sorriso

Pediu-me quatro. Um mil folhas, uma bola de Berlim, um palmier coberto e um simples. As doenças que lhe entraram no corpo faz tempo, já nem recorda quando, deixaram-no entregue a uma boca amargosa, proibida de engolir doces. Poderia ser só esta a realidade, que somos adaptáveis e se não comemos, cheiramos, procuramos, andamos, vimos. Mas não. Penso que por vezes a vida parece escolher determinadas pessoas para se vingar, podem ter sido más em outras vindas, pode ser isso, que não encontro outra justificação que me acalente um pouco a alma, para as injustiças que encontro no mundo, a maior de todas as minhas incompreensões. Ainda ontem, anteontem, não importa, vejo num jornal uma foto de uma criança que apanha com um recipiente água lamacenta para seu governo e fico entorpecida das ideias. É tão frequente nos dias de hoje estas carências básicas que já não deveriam entrar em mim com esta força danada, mas entram, não lhes consigo ganhar resistência. Até hoje, não consegui.
Tem pouco mais de meia centena, não anda, usa uma fralda, incham-lhe os membros com o calor, e ferem, purgando uns líquidos aquosos, pestilentos e mal cheirosos. Todos os meses carece de avaliação da esclerose, uma doença de nome pomposo, que muitos desconhecem onde nos pode levar. Conheço muito bem duas delas, a múltipla, e a lateral amniotrófica, que em tempos deixou alguém que conheço aliviado. Era só lateral. A mais letal e rápida de todas, um engano para quem ouve um nome mais inofensivo do que a temível múltipla. Ambas são degenerativas. Ambas retiram a capacidade de andar, de sentir o corpo dividido em partes, aqui uma coisa, ali a outra, tudo se mistura porque nada nos responde. Com o tempo, as principais faculdade deixam de ser possíveis, o que começa pela perca das funções da marcha, do controlo de esfincteres, que podem chegar a ganhar processos infecciosos sérios, por não saberem quando expelir o que lhes sobra, sendo que entopem, ficam cheios, inchados, doentes. Mais ainda, como se possível fosse. O médico, curador do corpo torce o nariz à ingestão dos regalos pedidos. Eu negoceio.
- Todos no mesmo dia não, vamos faseando, pode ser?
- Pode, diz-me a sorrir, num sorriso baço e sem dentes. - Desde que acompanhados de um sorriso seu.
Sorri logo no instante, sem bolo, sem nada. É por estas e outras que amo o que faço.

3 comentários:

  1. é das coisas que mais me assusta, a doença, que nos rouba tanto. imagino que seja ao mesmo tempo bonito e doloroso acompanhar estes casos!

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  2. :( Tenho uma amiga, da minha idade, com uma coisa dessas há já alguns anos. Já não anda...é triste.

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  3. Ai Antígona, muito triste. E aparece precocemente, sem haver nada a fazer. Confesso que é uma das que mais me assusta, talvez por já ter lidado de perto, e saber o que trata. Há um livro que a aborda do qual gostei muito. As terças com Morrie, de Mitch Albom. Lê, que vale a pena. É da Sinais de fogo. Não está numa escrita brilhante, mas ainda assim vale muito a pena ler.

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