domingo, 8 de janeiro de 2012

Figos

Por de dentro da casa nascem uns arbustos verdes e espinhosos que escapam pelas janelas, pela porta, por uns buracos da parede, pedras que o tempo comeu. O tempo tem destas inerências, leva de arrasto coisas fortes, coisas fracas, mas chega a permitir que as ervas daninhas invadam espaços vazios, aquando da falta de zelo e cuidado. Por mor disso carecemos de empenho a cuidá-los. É estranho este tempo que nos escorre da vida, carregadinho de mistérios muito misteriosos, de acções previstas e imprevistas, de efeitos nefastos e extraordinários. Uma incógnita, uma imensidão. Mesmo ao lado da casa, um poço redondo está rodeado de ervas que quase o cobrem, mantendo-se a parte posterior a descoberto, tapada por uma placa de ferro, muito ferrugenta. Levanto-a, mando uma pedra e fico à escuta. Passados uns míseros segundos ouço o ploc tão esperado. Tem água lá dentro, coisa que me fez sorrir. Em tempos já idos, na fazenda, fugia da vista da minha avó e mandava pedras aos poços, num desafio constante e malandro que me perseguiu o crescimento. O som lá do fundo trazia-me um sorriso ao rosto, e eu mandava então outra, e depois mais outra. E escutava.
Mesmo defronte à casa encontra-se uma figueira muito velha carregadinha de frutos. Hesito entre comer e ir embora, mas a fruta colhida da árvore é coisa para me despertar sensações fortes e intensas, seja que fruta for. A banal maçã, por exemplo, é detentora de uns sucos frescos e adocicados, que se perdem no frio, nas caixas, nas vitrinas. Nada iguala a frescura de uma acabada de colher. Na minha boca água nasceu, e resolvi ceder aos figos, sentar-me e comer. Por fora eram de um verde muito forte e bonito, lá dentro tinham um recheio saboroso mas áspero, e deixavam cair do pé umas gostas transparentes, quase de mel. Comi uns quantos e vim embora. Não sei porquê, mas transportaram-me ao depósito de água, batido ao vento. Aquele que fica lá no alto. Provavelmente porque lá os comi em tempos. Ou então porque gosto de figos e gosto muito do depósito. O nosso corpo preza estas reuniões.

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