sábado, 28 de janeiro de 2012

Mocho




As coisas não significam sempre exactamente a mesma coisa, em todas as horas, em todos os lugares, da forma como aparecem. Lembro com frequência um episódio que passei em criança e que tratou um enorme mocho que entrou pela janela no quarto da minha avó. Deve lá ter passado toda a noite, sem que ninguém desse por ele. Pela manhã, sou eu que o descubro apoiado na porta, imponente, com uns olhos redondos e gigantes a olharem-me fixamente. Não teria tido qualquer receio dele se o visse na rua, mesmo de noite, dependurado numa árvore, como tantas vezes ocorreu. Na porta, fora de sítio, assumiu-se como assustador, não pertencia ali, metia medo. Existem mais coisas assim, em diversas dimensões. Que no local e no tempo exacto são inofensivas, ou no mínimo toleráveis, mas quando em desencontro podem ser perturbadoras. E com isto tudo não quero dizer que somos intransigentes, rígidos, severos. Quero apenas dizer que temos hábitos, construímos esperanças, criamos zonas de conforto. E depois existem alterações, adaptações pacíficas, cedências do corpo ao mundo. E outras que nos causam um desconforto de morte, com as quais lidamos com um sentir esquivo. Não era ali, era em outro lugar.

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