terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sonho

Vera sonhava todas as noites com o seu casamento. Nesse dia sonhado acordava bem cedo. Lavava-se com água fresca, penteava os cabelos compridos, vestia a sua melhor combinação e por cima dispunha o vestido branco imaculado, bordado por sua mãe durante trinta dias a fio. Era um dia com muito sol, poucas ou nenhumas nuvens, o que lhe permitia ir a pé para a igreja, onde o noivo e o padre a esperavam. Perante uma assistência constituída por familiares de ambas as partes, dizia que sim ao amor da sua vida, aquele com quem iria partilhar todos os dias e noites dali em diante, na alegria, na tristeza, na saúde, na doença. Nunca lhe via a cara de forma nítida, sendo que no lugar da mesma se encontrava uma sombra nublada, envolta em cabelos escuros, onde só conseguia distinguir as orelhas, que se escoavam pelos lados, sendo assim extremamente perceptíveis. Eram grandes as orelhas, o que poderia querer dizer que serviriam bem a sua função, e que poderia contar ao seu marido tudo quanto a apoquentasse, e ainda todas as histórias que gostava de deitar para fora do corpo, guardadas anos sem fim, sem qualquer hipótese de serem escutadas. Para isso estava a depositar fé na enormidade das coisas, coisa que nem sempre é totalmente verdade, podendo aquelas enormes orelhas nada mais significar, do que isso mesmo, serem umas orelhas muito grandes, ouvintes iguais a quaisquer outras. E quase todas ouvem mal. As mãos, eram também elas consideráveis. Mais uma vez ali encontrava segurança, quase já sentia que a pegavam ao colo, lhe davam ninho, zelo e atenção. Enquanto lhe deslizava a aliança doirada no dedo, sentia cada dito a entrar-lhe no corpo, um a um, enquanto o anel escorregava devagarinho, numas mãos que não tinham mais fim, capazes de albergar tudo o que dizia, o que experimentava, o que temia. No final do casamento, chegada a altura do beijo, a imagem desvanecida iniciava forma lentamente, tornando-se mais nítida, mais perceptível, quase que já lhe conseguia ver os olhos. Porém, invariavelmente, era ali que acordava. Deixava-se então ficar mais um pouco, adormecer nem que fosse entregue ao sono leve, a fim de conseguir olhar para dentro de quem tanto a segurava. Nunca o conseguia, sendo que imaginava em cada manhã uma possibilidade, um rosto real e terno, condizente com tudo o que vivia. Passava o dia esperando a noite. Mal adormecia, sonhava tudo outra vez.

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