terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Vidas

A casa tinha um alpendre delicioso. Os alpendres são naturalmente deliciosos, funcionam como que um abrigo, que nos resguarda e ao mesmo tempo nos permite o desfrute da noite, do sol do dia, da chuva que cai mesmo ali ao lado. Chovia muito. Ouvia-se cair com força já há horas, e intensificou-se pela manhã morna de inverno. Saiu para fora com um chá quente nas mãos, e sentou-se a olhar a envolta. Ao longe o rio enchia devagarinho, gota a gota, apresentando hoje um verde muito escuro, quase negro, tal a força da água que o batia. Um barquito pequeno baloiçava descontroladamente, preso a uma corda na berma, forte o suficiente para que não conseguisse fugir e fazer-se ao mundo, um local grande demais para ele. Naquele exacto momento. O cão, dentro da casota que era sua, aninhava-se do tempo que lhe deixa os pelos molhados e hirtos, e correu para ela mal a viu. Ficaram os dois debaixo do alpendre enquanto as mãos dela o embalavam. O restolhar das árvores faziam um barulho intenso, quase assustador, cortado por pequenos períodos de acalmia enganosa, de imediato sacudida por algum vento mais forte. A casa rangia de medo, num queixume sentido que de nada lhe valia. Caiam folhas desmesuradamente, das poucas que ainda haviam, que voltariam a nascer na próxima primavera. Tal como cão correria, tal como o barco navegaria. Tal como ela viveria. Talvez até o inverno, continue a acabar sempre.

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