terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Perdições

Fui à padaria da Dona Antónia. Comprei duas broas de batata doce, meia dúzia de bolos de milho, umas línguas de veado. Há muito que aquela mulher anafada se dedicou à confecção de bolos e pão, numa terra situada no meio de uma ribeira que dizem que é branca, mas eu não acredito. Não existem ribeiras brancas, existem ribeiras verdes, castanhas, pretas e sujas, mas branca nunca vi nenhuma. Tem dois sobrinhos que não lhe ligam, muito diferentes um do outro. Um manda o outro deixa-se mandar, uma espécie de compatibilidade levada ao extremo, uma complementaridade pouco vista nos dias da terra, eu ainda sonho em encontrar uma assim. Não fosse este e outros exemplos de diferente carácter que vou encontrando na minha vida, e já teria desistido de tal procura, improvável, quase impossível, a bem da verdade. Mas assim, e tendo modelos destes e de outros ainda mais concretos, sem implicarem laços de consanguinidade, se é que me explico, encontro-me com a minha pobre alma em profundo devaneio, numa busca incessante de uma perfeição sonhada, ambicionada, por certo inexistente. Adiante dirão vocês, que não perco uma onde possa deixar um dedo de mim, um cabelo enxovalhado, uma míngua de pele ressequida, mas a verdade verdadinha é que ando aqui por todo o lado.
O que manda manda muito mal. Manda-lhe um corpo que fala muito mais alto do que a mente, uma mente fraca e definhada, que mal o sangue escorre mais forte, persegue-o, corre-lhe atrás, não lhe deixando um minuto de sossego que seja, o malvado enraivecido. O outro, mandado por este, faz pouco que jeito tenha. Deambula nas horas dos dias, come bolos da padaria da tia, e acode ao serviço do irmão, que às vezes já não tem corpo que chegue para o que a vida lhe pede. Dizem que a vida pede muito, e nisso eu acredito mesmo a sério. Antónia acode sempre que pode, à distância, mas já pode pouco. Faz línguas de veado, broas de batata doce e outros bolos secos, que vende depositados dentro de um saco de papel pardo exactamente igual ao da padaria mesmo ao lado de minha casa. Já comi uns poucos, são doces, muito açucarados. Dona Antónia confecciona-os dia a fora e noite dentro, enquanto lhe batem na porta e lhe trazem desgraças fortes. Antónia, não quer acreditar nelas. Fecha então os olhos com muita força, enquanto envolve as mãos grossas na massa leveda. Tende bolaria perfeita que polvilha com açúcar em pó, e lambe os dedos lentamente, enquanto vive ali, alimentando um corpo que lhe pertence para todo o sempre, e que nunca a abandonou.

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