segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Piano

(Texto originalmente escrito por mim em Julho do ano passado. Fez-me sentido postá-lo de novo aqui, até porque, e no ano de 2011, foi o que mais falou de mim, num sussurro precioso que poucos escutaram)

No meio da sala repousa um piano empoeirado, que denuncia a ausência de dedos a calcá-lo, tal e qual o corpo dela. Mesmo ao lado, um conjunto de pessoas conversam animadamente, no que lhe parece ser um aniversário de uma senhora, alta e roliça, que se pavoneia deliciada entre os convidados, envergando um vestido azul turquesa, muito curto e decotado. Os copos, tilintam numa orquestra sentida e ouvida, num movimento permanente de risos e de goles, uns doces, outros amargos, todos eles muito frescos. No tecto, inúmeros panos coloridos guardam um ambiente que se quer calmo e de cheiro forte, apenas perturbado por um ruído sombrio de vento, que entra nas frestas estreitas das janelas. Apetece-lhe sentar e tocar o piano. Ela, que nunca na vida tocou num. O banco, redondo e nivelado, parece-lhe de um conforto imensurável, no qual poderia por certo fechar os olhos, que ainda assim, sentiria e veria todas as teclas, unidas, lado a lado, mas tão particulares como nada mais. As mais graves, as mais agudas, as brancas, as pretas. Sente um desassossego. Passeia os olhos mais um pouco, na vã esperança de encontrar algo ou alguém, com mais intenso chamamento, temendo acabar por ceder, que o seu fraco corpo, dirige-se com força para aquele imenso objecto musical, numa ausência de vontade nunca vista. Perde-se um pouco no terraço, onde uma chuva miúda e teimosa fustiga uns candeeiros acesos, que abanam ao vento. O fogo da fogueira arde devagarinho, quase a sumir-se na agrura do inverno, que por vezes julgamos dormente, mas que sempre se encontra no exacto local onde deve estar. Volta com o olhar para o piano, e leva-lhe o corpo também. Afasta a flor que o enfeita, senta-se, e inicia uma melodia doce, e ao mesmo tempo intensa e muito ritmada, como se sempre se tivessem pertencido. Na envolta, ninguém a ouve, continuando o cenário centrado na loira viçosa que sorri. O piano, por sua vez, e sedento de toque, escorrega-lhe nos dedos. Fundem-se num tempo impreciso, de companhia perfeita, num instante infinito. No final da noite, deixam-se. Ela, abraçada por ele, como se das entranhas lhe tivessem nascido mãos, braços, e todo um corpo, ao invés de música. Ele, crivado de dedos pequenos e magros, no meio da densa poeira que o cobria.

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