sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Mãe

Fico sempre com uma sensação estranha quando oiço dizer, tal como ainda há pouco, barbaridades como tudo se cria, ou outros ditos do género. Tudo ou quase se cria, claro, no sentido de criar mesmo, como quem cria um qualquer animal, até os meninos do Gana, do Cambodja, do Afeganistão. Esses também se criam, com fome, doenças, ausência de cuidados básicos de todo e qualquer carácter, mas criam-se. Não levando obviamente todas as situações a estes limites, não consigo porém deixar de achar leviana a forma como ainda se deposita gente no mundo para criar, no sentido de alimentar, aquecer, e pouco mais. Tratam quase sempre casos de uma ignorância tremenda, de quem se encontra com uma barriga a crescer, e que julga que um filho é um simples apêndice do corpo, e que vai sempre sempre assim. Um filho não é um apêndice, vai-se tornar cada vez mais pessoa, e para além disso depende de nós. E não, não vai querer apenas colo e leite materno. Vai querer atenção, aprendizagens. Vai querer afecto e dedicação, vai querer cuidados médicos e tratamentos quando os mesmos são necessários. E para tudo isto faz falta uma mãe, mas também um pai capaz e empenhado. E a ausência de um deles faz-se notar e muito. E quando essa ausência não tem remédio, que cresçamos e aguentemos, mas de propósito bani-los do processo como se não fossem necessários, é que não me parece nada bem. Porque por vezes os filhos choram de noite e fazem febre e é necessário metê-los na banheira para que a mesma desça. Ou até ir para o Hospital, se for caso disso. E não nos deixam dormir e sonham sonhos ruins. E têm medo do escuro e berram que não querem sopa. E caem, e batem com a cabeça, e fazem galos de cortar a respiração. E esfolam os joelhos e comem terra. E fazem birras que querem doces, e são até capazes de se estenderem no chão por isso, e de espernear, e bater com os pés. E pregam-nos sustos quando de repente não estão bem. E por muito que seja giro, assim, a meses de distância, julgar que um filho é a melhor coisa do mundo, o que é a mais absoluta das verdades, também era bom que consciencializassem que tudo o que de melhor temos, tem a parte inversa, exactamente proporcional em tamanho. E que depois, nos contextos adversos, essa coisa do criar fica tão relativo com mais nada.
Faz-nos sempre muita falta alguém com quem contar, e que quanto mais não seja esteja ali, quando nós estamos prestes a desfalecer. E estamos, por vezes estamos. Quem pensar ao contrário está redondamente enganado/a.

4 comentários:

  1. :):) Não posso deixar de concordar com tudo o que dizes. No entanto suspeito que de um extremo caímos no outro e agora, para se ter um filho,é preciso ter conhecido o mundo todo, ter feito o doutoramento e ter conseguido um emprego estável a ganhar o suficiente, e o suficiente por vezes é muito porque temos de ter telemóveis para todos, automóveis para todos, uma casa de dois pisos com quintal, porque as crianças precisam de quintal, e o cão também (esquecia-me do cão, da importância de ter um cão!...) Agora, antes de termos filhos, pensamos muito muito muito, não vá depois vir o arrependimento e nós não aguentarmos com todas essas pressões de que falas e que são verdade mas que não são nada comparadas com a alegria que é, para toda a vida, ter um filho. E, de programação em programação, vamos envelhecendo sem nos multiplicarmos. O que vale é os muito pobres, que vêm à procura de melhores condições de vida, não têm medo de ter filhos, e os muito ricos também não. Mesmo assim, vai faltar gente, disso parece já não haver dúvida. Se calhar o melhor seria começarmos a investir mais nas gerações vindouras e menos nas que já cá estão. Se calhar devíamos deixar de ser tão egoístas e pensar que, entre o viver mais de cem anos e ter muitos filhos, é preferível ter muitos filhos. Se calhar...:)

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  2. :) Não deixas de ter razão, claro que tb existem esses exageros. Ambos os extremos são exageros, é isso. Como todos os extremos, de resto... Ai melhere, agora que te li, lembrei-me ainda mais que to com saudades :)

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  3. Talvez por isso por agora não pense em ter mais filhos.
    Porque este precisa do melhor que lhe podemos dar e infelizmente a vida rouba-nos muito do tempo, paciência, disponibilidade, posses,...necessárias não para dar uma vida boa no sentido de endinheirada e material, mas sim uma vida feliz, para fazer crescer uma criança acarinhada, equilibrada, saudável, um ser, verdadeiramente, humano.

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  4. essa é a parte linda de se ser mãe. o estar lá, sempre, para o que der e vier. assusta-me e dá-me uma esperança imensa, nas mesmas proporções!

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