quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Queijo

A Maria João Abreu vem ao DN, e quem sabe também a mais sítios, apelar ao consumo de queijo nacional. Com o devido respeito que tenho pela senhora enquanto actriz, devo dizer que em matéria de queijos não estará por certo melhor documentada para deles falar, do que a minha própria pessoa, que se lambuza só com o cheiro. Bem sei que ninguém me conhece, e não traria qualquer mais valia aos lacticínios portugueses o meu depoimento, mas que sou documentada, sou. Arrisco dizer que nem haverá no mundo acepipe melhor do que este, seja ele confeccionado com leite de cabra, de vaca, de ovelha, ou uma completa mixórdia, daquelas que encontramos nas velhas praças, embrulhados em panos de lençol velho, muito amarelado, dentro de uma alguidar de barro envernizado. Existe uma praça que tem uns deliciosos, situada na praia da Nazaré, onde vou, invariavelmente, há trinta e cinco anos, sempre que é verão. Trinta e cinco certos poderá nem ser o caso, tendo em conta que não vos posso garantir com cem por cento de certezas, que palmilhei o dito sítio enquanto os meus pés ainda não tinham vontade própria, mas como provenho de uma família tradicional, com gostos tradicionais, e com interesse em praças de géneros viçosos, é bem provável que tenha começado cedo a inteirar-me dos cheiros destes locais, onde a fruta doce, o peixe intenso, as cenouras frescas e o queijo azedado, se misturam num sítio onde as mulheres usam avental e bigode. É uma questão de moda por lá. E dizia eu que existem naquele local uns deliciosos e artesanais, espalmados e redondos, uma mistura de ovelha e cabra, o que lhes dá um paladar característico muito forte e saboroso. Não me importa muito que me digam que as ditas senhoras os secam ao ar e à bicharada, não sou nada esquisita nestas coisas que me sabem sempre bem e nunca me causaram qualquer tipo de indigestão. Depois temos outros, mais populares, vindos das serras, de Serpa, de Castelo Branco, uns com colorau, outros amanteigados, que escorrem da faca e do pão, uns secos e muito mal cheirosos. Podemos ainda ir aos Açores e trincar um qualquer flamengo saloio, todos muito bons por sinal. Os frescos, ainda que mais simples, também me dão um gozo danado, desde o tradicional, ao Requeijão de Seia, adoçado com uma colher de doce, ou ao invés, salpicado com pimenta. Olhem enfim, há para todos os gostos e não saí do Pais, que a ter saído, poderia continuar a descrever a minha afeição sem limites. Mas agora que falo nisso, se calhar não era mau deixar aqui um cheirinho a Chévre, Francês. Cheira bem, a sério que sim.

3 comentários:

  1. Epá! São a minha perdição! À pala deles já aumentei tantos quilos que nem me atrevo a deixar que a balança os meça...:):) Bom apetite

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  2. Bom, já podia ter deixado aqui uma nota da passagem em muitíssimos outros textos, mas o aroma do queijo é realmente irresistível! ;)
    Adoro. Qualquer um. Todos. Com pronúncia ou sotaque, muito sofisticados ou absolutamente grosseiros, adoro-os e pronto.
    E os seus textos são muito bons. Muito inspiradores. Alguns, francamente redentores (merci).
    Parabéns atrasadíssimos.
    :)

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