domingo, 22 de janeiro de 2012

Costura

Quando penso no que poderia ter sido, concluo logo que poderia ter sido muitas coisas. Não nascemos fadados a algo dado à partida, muito embora eu respeite o fado, o destino, como um qualquer terreno poderoso onde por vezes somos obrigados a entrar. Nem tudo está nas nossa mãos, talvez seja isto o que quero dizer. Poderia ter dançado, que a música entra-me no corpo e toma conta de mim, embala-me, sossega-me, desconserta-me, depende da música, da situação. Mas leva-me sempre, nunca lhe fico indiferente. Poderia ter cozinhado, que os cheiros da comida é qualquer coisa de sublime, quase superior ao sabor. O cheiro entra-me pelas narinas enquanto cozinho, percorre-me o corpo por dentro, e deixa-me adivinhar paladares, desde a pimenta ao sal, que podem estar na medida exacta, ou a carecer de rectificação, tendo ainda em conta o gosto particular da situação. Mas costura, talvez seja costura a minha real paixão. Tecidos coloridos, dedais, linhas e máquinas que calcorreiam o pano com jeitinho, e o deixam transformado em algo que nos enfeita, nos aquece, nos envolve. A minha vizinha de baixo costura muito noite dentro, e eu fico a ouvi-la com gosto, agora pára, agora arranca, enquanto imagino dentro de mim as peças que lhe saem dos dedos velhos e encarquilhados. Há quem me diga que ela não costura nada e que o que oiço é a costureira de tempos passados, condenada para todo o sempre a um labor sem fim, por tê-lo feito em dia santo sem dever. Não acredito nessas lendas. Ou melhor, não me apraz acreditar que gosto de imaginar o que dali nasce, feito a preceito, quiçá vestidos esvoaçantes, quiçá camisas floridas, que sairão directas de sua casa para corpos leves e felizes. Se eu fosse costureira faria especialmente casacos. Todos os que me conhecem sabem esta minha perdição. Com botões, com atilhos, de cinto ou a cair, compridos ou muito curtinhos, gosto de todos sem excepção. Aquecem-me, envolvem-me, compõem-me, enfeitam-me. Uma noite destas meti-me à escuta. Peguei num copo de vidro, ouço dizer que traz melhor som, e encostei-me ao soalho do chão, a fim de tentar perceber se aquele chilrar certo e ritmado era real, ou fruto da minha imaginação. Ouvi tudo muito certinho, desde o rasgar do pano, ao corte da linha, ao deslizar do pedal. No dia seguinte ao descer, encontro-a cá fora, coisa rara, envolta num lenço florido lindíssimo, que lhe compunha a velhice. Estive quase a pedir-lhe um. Não fosse naquele dia estar calçada à tempo considerável, teria ousado a tentação.

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