segunda-feira, 3 de setembro de 2012

...

Tenho dias em que me assusto verdadeiramente. Neste fim de semana houve um, entre outros. A Troika avalia, diversas coisas preocupantes acontecem ao mesmo tempo. Enquanto isso diversos canais de televisão portugueses, públicos e privados, apresentam em horário nobre programas que variam entre telenovelas e concursos onde participam pessoas desocupadas da nossa praça, que provavelmente serão repescadas a olho na hora da gravação. Para tudo na vida é preciso sorte e sentido de oportunidade. Até para cair dentro de uma bolacha redonda que leva pessoas para fora do ecrã, para gáudio de toda a gente, ao Sábado à noite. Fiquei a pensar que alguém poderia sair magoado. Não sei, aquilo pareceu-me mesmo violento, em diversos sentidos.

domingo, 2 de setembro de 2012

...

( Só li a entrevista ao autor. Mas a coisa parece-me tão, mas tão boa, que me apeteceu deixar por cá, quanto mais não seja para largar curiosidade.)

Fartura frita

Não deixa de ser interessante analisarmos as nossas pertenças. Não se resumem a pessoas ou animais, passam por coisas e por locais, necessidade esta que vive ao lado da retribuição contingente da qual carecemos permanentemente ao longo da vida. Se dos outros recebemos sensações de aceitação ou de rejeição que são capazes de nos construir enquanto gente, se é nessas interacções que crescemos em identidade e sociedade, em que âmbito entrará a identificação que nos nasce direccionada a coisas, a lugares e a objectos, a datas ou a ocasiões? Não consigo deixar de me socorrer da imaginação e da memória para justificar tal facto, ou até da vontade, mecanismo pelo qual o nosso corpo nos impele a uma determinada acção que queremos ou julgamos querer, que se encontra obviamente subjugada às nossas crenças e ambições. As coisas e os lugares que queremos e dos quais gostamos dão-nos sempre conforto e bem estar. Numa primeira instância poderemos, e numa análise simples, inclui-las no âmbito da satisfação corpórea, do momento e do pragmatismo simples dos dias, deixando que essa teoria nos justifique porque gostamos do frio em vez de gostarmos do calor, porque gostamos do claro em vez do escuro, ou porque preferirmos o campo à praia, decisões simples, em nada complexas, sempre de fácil resolução. Mas vai mais longe, como todos já perceberam. É que se a escolha do campo e da praia poderá estar unicamente subjacente a uma sensação do corpo, se a decisão entre um pastel de nata e um croissant poderá estar sujeita à vontade do momento, tais decisões poderão ser mais complexas, sê-lo-ão na maioria das vezes, entrando automaticamente no âmbito de acção dos nossos constructos internos, projecções, memórias , imaginações. Encarando este ponto de vista que a mim me parece lógico, ingressamos numa linha condutora da vida que nos coloca imersos numa série de acontecimentos e de experiências tudo menos casuais, admitindo porém a casualidade do imprevisto, da oportunidade e da sorte, conceitos subjectivos mas ainda assim manifestos. Poderemos colocar o Homem como um ser que age em consonância e em resultado da sociedade e de si, carente da retribuição e da aceitação do seu ser, circunscrito ainda aos resultados e às projecções que nascem no mundo em resultados dessa acção, onde se transformam meras coisas, banais e vulgares, em coisas verdadeiras, com forma e sentido. 

( Se calhar parece muito gasto de palavras para o que vou dizer a seguir, admito até que o seja. Mas tudo isto era para dizer que em tempos idos comia farturas fritas na feira de Pernes. Não gosto de fritos, têm um cheiro forte e enjoativo, e para além disso o açúcar com que se polvilha a fartura irrita-me os nervos e a boca. Mas como-as. Como-as sempre com uma sofreguidão ávida e esfomeada.) 

sábado, 1 de setembro de 2012

Gata

Vou ter uma gata cinzenta de nome Julieta. A ideia não foi minha, nem da gata, nem do nome, que isto nestas coisas há que deixar o mérito nas mãos dos donos, não aprecio cá glorias que não me pertencem. A gata é cinzenta muito clara e já a imagino a passear-se por entre os móveis, os livros, os brinquedos espalhados e os anéis que esqueço em cada recanto da casa. Em tempos tive uma. Pequena, clarinha, de uma elegância inigualável, como de resto têm todos os gatos. Dormia enrolada nos pés da minha cama e era deveras assustadora para quem vinha de fora. Arqueava as costas, eriçava o pelo, e virava qualquer coisa semelhante a um felino mesmo à séria, do qual era melhor guardar distância. Já tive outros animais assustadores. Um cão um tanto ou quanto arisco, um peixe que devorava outros, uma tartaruga que mordia dedos, não sei, temo que seja da casa, ou, vá lá, da proximidade com a minha pessoa. Por mor das coisas, desta troquei-lhe as voltas. Era para vir o gato, vai vir a gata, que por certo seria o macho o verdadeiro detentor do síndrome ruim, por ser ele que me estava destinado. Bom, também foi pelo nome. Julieta ficou-me no goto, a alternativa Romeu não tem metade da graça, e para além disso uma gata é sempre uma gata, que por certo guardará o respeito necessário aos anéis, aos sapatos e a outras divindades femininas que encontrará espalhadas cá por casa. O Óscar, o pobre do Óscar é de momento a minha única fonte de ralação. 

( As cadeias alimentares são de facto uma coisa fantástica. Juntar animais que se comem uns aos outros é sempre um risco, mas dizem que se a convivência for precoce não haverá problema. Um a zero ganham eles sobre nós, que conseguimos sempre crescer ao lado de alguém, e vai-se a ver, em determinadas provações, aniquilamos quem temos ao lado sem dó nem piedade e completamente conscientes, ou seja nada a ver com instinto. Gosto de animais, no fundo é isso. Muito embora, e apesar de tudo, também possa gostar muito de gente.)

...

( By Antica Murrina, Venezia. Sim sim, é linda eu sei.)

Seguidores