domingo, 2 de setembro de 2012

Fartura frita

Não deixa de ser interessante analisarmos as nossas pertenças. Não se resumem a pessoas ou animais, passam por coisas e por locais, necessidade esta que vive ao lado da retribuição contingente da qual carecemos permanentemente ao longo da vida. Se dos outros recebemos sensações de aceitação ou de rejeição que são capazes de nos construir enquanto gente, se é nessas interacções que crescemos em identidade e sociedade, em que âmbito entrará a identificação que nos nasce direccionada a coisas, a lugares e a objectos, a datas ou a ocasiões? Não consigo deixar de me socorrer da imaginação e da memória para justificar tal facto, ou até da vontade, mecanismo pelo qual o nosso corpo nos impele a uma determinada acção que queremos ou julgamos querer, que se encontra obviamente subjugada às nossas crenças e ambições. As coisas e os lugares que queremos e dos quais gostamos dão-nos sempre conforto e bem estar. Numa primeira instância poderemos, e numa análise simples, inclui-las no âmbito da satisfação corpórea, do momento e do pragmatismo simples dos dias, deixando que essa teoria nos justifique porque gostamos do frio em vez de gostarmos do calor, porque gostamos do claro em vez do escuro, ou porque preferirmos o campo à praia, decisões simples, em nada complexas, sempre de fácil resolução. Mas vai mais longe, como todos já perceberam. É que se a escolha do campo e da praia poderá estar unicamente subjacente a uma sensação do corpo, se a decisão entre um pastel de nata e um croissant poderá estar sujeita à vontade do momento, tais decisões poderão ser mais complexas, sê-lo-ão na maioria das vezes, entrando automaticamente no âmbito de acção dos nossos constructos internos, projecções, memórias , imaginações. Encarando este ponto de vista que a mim me parece lógico, ingressamos numa linha condutora da vida que nos coloca imersos numa série de acontecimentos e de experiências tudo menos casuais, admitindo porém a casualidade do imprevisto, da oportunidade e da sorte, conceitos subjectivos mas ainda assim manifestos. Poderemos colocar o Homem como um ser que age em consonância e em resultado da sociedade e de si, carente da retribuição e da aceitação do seu ser, circunscrito ainda aos resultados e às projecções que nascem no mundo em resultados dessa acção, onde se transformam meras coisas, banais e vulgares, em coisas verdadeiras, com forma e sentido. 

( Se calhar parece muito gasto de palavras para o que vou dizer a seguir, admito até que o seja. Mas tudo isto era para dizer que em tempos idos comia farturas fritas na feira de Pernes. Não gosto de fritos, têm um cheiro forte e enjoativo, e para além disso o açúcar com que se polvilha a fartura irrita-me os nervos e a boca. Mas como-as. Como-as sempre com uma sofreguidão ávida e esfomeada.) 

5 comentários:

  1. Olá CF. Eu serei mais algodão doce, mas respeito os seus gostos. Bom domingo.

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  2. Algodão doce não gosto... Nada mesmo :)

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  3. Hm... Isto é sugestão! Coisa do passado, bem escondida. Além de gula, quero dizer, gulosice :)

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  4. Acho. Muita gula. Memórias de gulosices. Tudo recôndito, claro...

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