quarta-feira, 26 de setembro de 2012

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Perguntava-me ontem ao telefone se eu não estou aflita por fazer trinta e seis. Respondo-lhe que não, que nem sequer sou de aflição fácil, e que fazer trinta e seis não me aflige de todo. Do outro lado solta-me uns ruídos estranhos, como que a querer dizer-me que lhe minto, que é impossível a ausência de tal aflição no corpo de uma mulher que começa a ficar velha a partir dos trinta, ela própria lembra-se perfeitamente de há dez anos atrás os ter feito. Um dia um tanto ou quanto estranho da sua existência, apenas suplantado pelo dia dos quarenta, que muito provavelmente será mortificado pelos cinquenta. Os cabelos embranqueceram, as formas mudaram, acha até que tudo à sua volta saiu do lugar de existência. Não tem portanto por certo se o problema é dela ou se é do mundo para com ela, mas também não se preocupa muito com isso. Hoje confessa-se mais calma. Já se habituou ao novo espaço que ocupa no escritório, ao sofá que afunda com ela nas noites sozinhas de chuva, ao colo inexistente que a carrega, agora com menos força e empenho. Já começou a disfarçar rugas com um pincel pequenino e um creme de cor esverdeada que também faz milagres com as olheiras teimosas de quem se recusa a dormir, e já pinta os olhos de negro, coisa que anteriormente não era precisa. Os lábios ganharam um contorno forçado a lápis castanho que ajuda a atenuar as expressões de quem já se riu muito, deixaram de a acompanhar por si só, exactos e definidos, precisam de substância e ela oferece-lha o gosto. Nisto e a meio da conversa, volta outra vez a insistir-me no facto, é estranho, de carácter excepcional, e por isso mesmo só concebe a mentira, eventualmente a negação. Acho-lhe graça. Não lhe digo, nem sequer me pergunta, mas a verdade verdadinha é que provavelmente me atormento com outras coisas que para ela serão meras insignificâncias, e que vai-se a ver e são mesmo. Importuna-me por exemplo que ela esteja aflita com a minha consumição inexistente. As nossas supostas apoquentações vividas apenas por pessoas alheias é algo que sempre me afligiu consideravelmente.  Não por mim, mas por elas.

7 comentários:

  1. Como eu gostava de ter essa aflição, e como diz o vulgo, saber o que sei hoje. Toma lá :))))))

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  2. Se há coisa que eu não queria era isso. Não sei porquê, mas acho que a vida perdia a graça se soubéssemos as coisas antes do tempo...

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  3. Claro CF, o que falei não pode ser interpretado à letra, se bem algumas, dava muito jeito :)

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  4. Meninas bonitas nunca se devem preocupar com o que não tem muita mportância, quanto mais com o que não tem importância alguma... Meninas bonitas por dentro e por fora, bem entendido.

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  5. Paulo, não posso estar mais de acordo. Até porque existem preocupações que não valem de nada, porque nada podemos contra determinadas grandezas... Já com outras, dependentes de nós (e importantes, ainda em cima)...

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  6. Nota-se por vezes uma aflição dos outros/as com a "nossa idade" - do género já é demasiado tarde para, já não podes fazer isto, etc. Detesto. :)Marcam-nos muito as ações pelo calendário. os tais catálogos... Que consumição, pare eles. (Ah, 36? mas isso não dói nada mesmo! :))

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  7. Não dói, de facto não dói. A mim, pelo menos não dói, tal como não me dói coisa nenhuma imposta pelo calendário :)Pelo menos por enquanto...

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