sábado, 22 de setembro de 2012

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Pergunta o que se passa, não se passa nada que consigas ver, não se vê, é cá dentro, dizia. Ainda se lembra de quando a professora lhe leu uma passagem do sempre extraordinário Saint-Exupéry, que num livrinho pequeno e cheio de estrelas dizia que o essencial é invisível para os olhos. Olhava para o livro com um ar de espanto infantil carregadinho da ingenuidade que já lhe morreu no corpo há muito, para ir morar para lugar nenhum que se conheça. Nas estrelas da capa olhava o que lhe parecia sempre ser qualquer coisa, que essencial seria aquele que lhe escapava por entre as janelas da escola primária, um lugar velhinho e aquecido por um aquecedor preto com uma botija de gás lá dentro? Provavelmente perdia-se no recreio guardado por umas grades grandes e enferrujadas e enfeitado com uma figueira plantada no meio, onde havia coisas que se viam muito bem. Um dia subiu lá acima sem autorização para ver se conseguia apanhar um figo. Era Outono e ela gostava de Outonos. E de figos. Trepou com jeito, mas ainda assim arranhou-se seriamente num braço ainda despido pelo sol de Setembro, coisa que lhe denunciou a afoiteza seriamente proibida pela professora Maria José, que lia livros aos meninos sossegados e que ensinava regras que nunca se podiam quebrar. Não se lembra muito bem do que lhe valeu a desobediência. Algum castigo ligeiro, alguma repreensão consistente, mas nada do que se assemelhe ao sabor do figo que comeu. Os figos também lhe fazem lembrar a casa da bisavó, situada numa colina encrespada que cheirava a violetas e na qual haviam coisas para se sentir. Galinhas que cacarejavam, sopas que cheiravam a chouriço no fogão de lenha, abraços que se sabiam lá, mesmo que não viessem de braços abertos. A casa foi vendida, é uma pena, gostava de a ter para si. Ela pergunta outra vez o que se passa, não se passa nada que consigas ver, não se vê, é cá dentro, continua a dizer. Mas vê-se, insiste ela, não sei bem onde, mas vê-se. Uma novidade, nascida na continuidade do discurso e nos olhos de amigas, amigas de sempre. O que é essencial não se vê, não se pode ver porque é dentro, mas afinal pode até ser que se veja. Não a essência, que essa é a do principezinho e é intima. Só o resto.

( Não pude esperar pela escola. Nunca podia deixar tão nobre tarefa para as mãos da professora do meu filho, porque há coisas que são para eu ensinar. Ainda ele não me entendia e já eu lhe recitava, todas as noites, pequenos excertos de um dos livros mais perfeitos do mundo. Ele olhava-me com uns olhos muito abertos, esquecidos do sono e a cheirar a espanto. - O que é que isso quer dizer, mãe? - Deixa, filho, guarda só o eu que te digo., dizia-lhe. Com vontade porém de continuar, um dia, e quando o teu corpo já puder, saberás exactamente o que isto é. Por enquanto só podes sentir, sem saber do que se trata. Mas descansa. Tens tudo aquilo que precisas de ter.) 

2 comentários:

  1. Há coisas de que uma mãe não pode abdicar. Ensinar-lhes vida através de obras de arte é uma delas.

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