quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Iogurtes

Hoje encontrei Leonor ao pé da secção de iogurtes. Empunhava uma saca grande de comida para cães e meia dúzia de outras coisas, devidamente acondicionadas dentro do cesto das compras. Fala-me, como sempre e de cada vez que me encontra, do filho que é adolescente, do sogro que sofre de cancro, do marido que de quando em vez lhe atira com um prato acima por causa de alguma desavença. Agora até anda menos mal, diz-me com um ligeiro ar de satisfação no rosto. Aceno-lhe com a cabeça enquanto a oiço, ao mesmo tempo que olho de lado para os iogurtes que me apetece mesmo levar para casa e comer. Gregos com sabor a morango, naturais, com amêndoas. Vou-lhe porém mantendo o aceno. Muito embora a minha capacidade de contingência esteja diminuta e a minha cabeça esteja em outro local que não aquele, devo-lhe toda a minha atenção. Há determinadas ocupações profissionais que parecem colar-se ao nosso corpo para não mais nos largarem a existência. Um sapateiro, por exemplo, dono de uma sorte sem tamanho, que provavelmente até desconhece, se me encontrar na rua de sapatos rotos não tem qualquer obrigação de me descalçar, me sentar num banco confortável, me colar o dito e de me o voltar a entregar, devidamente arranjado. Não tem obrigatoriedade moral em fazê-lo. Porém, eu tenho. Mas é que por vezes há dias em que por muito que me esforce não consigo trazer comigo o dom de escutar, muito menos em locais impróprios para o efeito, e nem consigo devolver o que quer que seja, quanto mais coerência. Nessas alturas começo a sentir aquela decepção de quem espera o que eu não consigo dar, e a coisa às vezes entranha-se-me cá dentro. 

( Mas depois penso, sou gente, pá. Agora, neste exacto momento, larguem-me. Gosto muito de vocês, mas o que me apetece mesmo são iogurtes.)

4 comentários:

  1. Olá CF

    Identifiquei-me com o seu post.
    Tenho dias que também penso assim, que "também sou gente", que "também tenho receios".
    Contudo penso que mesmo que o gritasse, ninguém ouvia, tão habituados que estão a que eu escute.

    Bj

    Maria

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  2. :) É fácil que os outros se habituem a isso. Cabe-nos a nós evitar, mais do que a qualquer outra pessoa...

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  3. Há coisas que podemos mudar... O que não podermos mudar, temos que aceitar com amor e entrega-lo às "forças" superiores, (eu chamo-lhe Deus)...
    Este lado das relações humanas transforma-nos, se fosse o sapateiro simplesmente virava-se e partia!

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  4. Era, partia... Mas eu, e ainda que o queira fazer, não consigo...

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