sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Caramelos de laranja

Um dia juntei o grupo e tentamos fazer compota de laranja com sumo de limão e canela. O tacho enorme, depositado no fogão de bico único, fervilhava acelerado enquanto lhe deitávamos para dentro os ingredientes necessários para a confecção de um doce que deveria encher pequenos frascos tapados a linho e atados a linhaça, para serem oferecidos aos pais que viessem assistir à reunião de famílias, uns dias depois. A dona Zé, uma loiraça viçosa e grande, trouxe-nos os utensílios do seu serviço para que mexêssemos com vigor e sem nunca parar, a mistura agridoce que ganhava espuma branca por cima em quantidades abundantes. Por detrás da cozinha da rua ficava uma encosta povoada por lagartos verdes que entretanto deixaram de me meter medo para passarem a ser membros da natureza, pequenos bichos inofensivos que se deleitavam com o sol de verão. Um deles morava numa oliveira mesmo ao pé da minha janela. Havia dias em que eu a abria, ciente da sua presença, e espreitava para fora a ver se aparecia. Não somente pelo vislumbre em si, que o que mais havia ali eram espécimes do género, mas é que gostava e gosto muito, de me encostar a uma janela. Sentir o fresco que passa, o vento que corre, os cheiros que povoam a terra no meio dos matos e dos campos, o barulho das folhas que correm de restolhada. No final da empreitada a coisa não correu bem. As quantidades falharam, muito embora a boa vontade dos rapazes tivesse merecido louvor. Senti que os frustrei. Uma neta de doceira nunca deveria ter cometido tamanho deslize, deveria logo ter percebido que as quantidades estavam trocadas, que o doce prendia em demasia, que a textura estava longe do desejado, mas não, confiei em tudo e falhei. Apesar disso enchemos os frascos com a mistura conseguida e adornamos um cesto de vime redondo capaz de os guardar a todos até ao grande dia. O dia chegou. Os pais chegaram, mas também aí se esteve aquém. De dentro do autocarro cedido para o efeito desceram alguns que chegaram em obrigação e sem vontade. Uns olharam os seus, outros houve que se mantiveram ao longe, com olhar de relance, medindo uma distância segura não fosse a proximidade do momento transformar filhos de nome, em filhos reais. Gelei por dentro. Tentei percebê-los, incluí-los em crescimentos difíceis, em casas vazias, em dificuldades imensas, mas não consegui. Descobri nesse dia que não consigo perdoar tudo.

(Por estas e outras, aquele sítio foi uma escola. Consciencializar limites faz parte da vida, e também é preciso aprender a fazê-lo.)

(No final do dia em redor de uma mesa, conseguimos com esforço retirar o doce dos frascos que sobraram. Estava duro e seco, não foi tarefa fácil. Com uma faca grande cortamos pequenos cubos e comemos, como se fossem caramelos.)  

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